O contacto regular com espaços naturais gera benefícios para a saúde mental avaliados em cerca de 4,3 biliões de euros por ano, segundo um novo estudo liderado pela Universidade Griffith, na Austrália. Os investigadores apelam a uma ação governamental urgente para expandir o acesso da população à natureza e integrar esta abordagem nas estratégias de saúde pública.
O estudo, publicado na revista científica Communications Health, conclui que a exposição a ambientes naturais é uma forma comprovada de melhorar o bem-estar psicológico, reduzir sintomas de ansiedade e depressão e aumentar a produtividade. Apesar disso, os autores consideram que este recurso continua subaproveitado pelos sistemas de saúde.
“As pessoas precisam da natureza para combater o esgotamento físico e emocional”, afirma Paula Brough, diretora do Centro para o Trabalho, Organização e Bem-Estar da Universidade Griffith e coautora da investigação.
Benefícios económicos e sociais
Além dos impactos positivos na saúde mental, os investigadores destacam o forte argumento económico para investir em parques naturais, espaços verdes urbanos e outras infraestruturas ligadas à natureza.
Segundo o estudo, os parques nacionais e áreas verdes já proporcionam benefícios anuais estimados em 7 biliões de dólares australianos através da melhoria da saúde mental, da redução dos custos com cuidados de saúde e do aumento da produtividade laboral.
“Visitar parques nacionais melhora a saúde mental e a produtividade no trabalho”, explica Ralf Buckley, professor emérito da Universidade Griffith e um dos principais autores do estudo.
O investigador sublinha que os principais beneficiários destes ganhos são os empregadores e os sistemas de saúde, enquanto os cidadãos suportam os custos de deslocação e do tempo necessário para usufruírem destes espaços.
De acordo com os autores, as despesas globais relacionadas com transporte e tempo dedicado a visitas à natureza ascendem a cerca de um bilião de dólares norte-americanos por ano. Ainda assim, os custos de acesso aos parques são geralmente reduzidos ou inexistentes.
Nem todos têm acesso à natureza
Apesar dos benefícios reconhecidos, uma parte significativa da população continua sem frequentar espaços naturais. O estudo refere que cerca de um terço dos habitantes de países como a Austrália e os Estados Unidos não participa regularmente em atividades na natureza. Em países como a China, essa proporção pode atingir dois terços da população.
Entre os principais obstáculos identificados estão a falta de tempo, dificuldades de transporte e a ausência de hábitos relacionados com atividades ao ar livre.
“Por vezes, as pessoas apenas precisam de um incentivo e de apoio social para dar o primeiro passo”, afirma Diane Westaway, coautora do estudo e fundadora da empresa australiana de caminhadas Coastrek.
Resposta a uma crise global
Os investigadores recordam que, nos últimos 15 anos, os casos de ansiedade aumentaram 63% a nível mundial, enquanto os diagnósticos de depressão cresceram 26%.
Embora reconheçam a importância dos tratamentos convencionais, como a medicação antidepressiva e o acompanhamento psicológico, os autores defendem que estes recursos, por si só, não conseguem responder ao aumento da procura por apoio em saúde mental.
Nesse contexto, propõem a adoção de um modelo de “cuidados de saúde mental baseados na natureza”, assente na exposição regular e intencional a ambientes naturais como complemento às intervenções clínicas.
Natureza como infraestrutura essencial
A equipa de investigação defende uma mudança de paradigma que reconheça o acesso à natureza como uma infraestrutura essencial para o bem-estar mental, à semelhança de outros serviços públicos fundamentais.
Entre as medidas propostas estão a criação de áreas naturais nas escolas, o reforço das ligações de transporte público a parques e espaços verdes, o desenvolvimento de percursos pedestres em reservas municipais e o investimento em infraestruturas que facilitem o acesso aos parques nacionais.
“Os investimentos públicos nesta área são compensados pela redução dos custos de saúde e pelo aumento da produtividade económica”, afirma Buckley.
O investigador destaca ainda que mais de metade das consultas médicas em muitos países desenvolvidos estão atualmente relacionadas com questões de saúde mental, apesar de esta área receber apenas uma pequena fração dos recursos públicos destinados à saúde.
“Os parques nacionais e os espaços naturais oferecem muitos destes benefícios gratuitamente. Por isso, devemos tornar o seu acesso simples, acessível e inclusivo, e não algo exclusivo ou dispendioso”, conclui.
O estudo, intitulado Public nature-based mental healthcare, foi publicado na revista científica Communications Health.









