Por Luis Rodiles, Diretor de Negócio Celulose Moldada, The Navigator Company, vencedor do Prémio Cinco Estrelas na categoria “Embalagens Sustentáveis”
Nos últimos quinze anos, a crescente consciência da sociedade sobre a necessidade de preservar o planeta traduziu-se num tsunami regulatório em torno da sustentabilidade. A embalagem assumiu um papel central nesse movimento, com mais de 300 iniciativas legislativas na União Europeia entre 2010 e 2023. Contudo, este percurso ficou marcado por uma evidente ausência de visão integrada e coerência.
Proliferaram iniciativas avulsas e inconsequentes, focadas em nichos mediáticos, como o takeaway, enquanto o essencial permanecia intocado. A preferência por diretivas, em vez de regulamentos, originou uma aplicação desigual entre Estados-Membros. Objetivos vagos, calendários pouco exigentes e fraca fiscalização comprometeram a eficácia. Ainda mais crítico, nunca se definiu de forma clara e inequívoca o que constitui, de facto, uma embalagem sustentável.
Em paralelo, nos últimos anos, instalou-se a expectativa de que estaria para chegar uma “regulação decisiva” que se iria sobrepor ao quadro de diretivas comunitárias e leis nacionais. Este contexto de incerteza não deu rumo nem estímulo a um esforço de inovação sustentado, favorecendo a continuidade das soluções tradicionais. Em paralelo, proliferaram alternativas de greenwashing (e.g. embalagens de bagaço de cana-de-açúcar importadas da Ásia à custa de pegadas de carbono colossais) enquanto soluções genuinamente sustentáveis enfrentaram dificuldades de afirmação, penalizadas pelos custos associados à baixa escala e à menor maturidade tecnológica do processo produtivo.
O PPWR surge como um ponto de viragem. Introduz critério, objetivos mensuráveis, prazos definidos e previsibilidade regulatória, todos fatores críticos para decisões estratégicas. A sustentabilidade deixa de ser um elemento reputacional e passa a constituir uma condição de acesso ao mercado e um vetor de diferenciação competitiva.
No domínio das embalagens de plástico, será fundamental acelerar a transição para monomateriais, reduzindo ou eliminando estruturas multimaterial que hoje asseguram desempenho, mas inviabilizam a reciclagem. É também fundamental garantir o acesso a plástico reciclado de grau alimentar, um recurso escasso e dispendioso, que poderá tornar-se um verdadeiro bottleneck.
Já nas soluções de base celulósica, como a fibra moldada e o papel kraft, o desafio centra-se na compatibilização entre propriedades barreira eficazes e requisitos de reciclabilidade exigentes. As tecnologias de coating e laminação terão de evoluir de forma acelerada para responder a este novo equilíbrio.
O horizonte de 2030 exige ação imediata, uma vez que o desenvolvimento tecnológico, a adaptação industrial e a reconfiguração das cadeias de abastecimento implicam ciclos longos e intensivos em capital. A inércia será penalizada, quer por taxas mais elevadas no âmbito da Responsabilidade Alargada do Produtor, quer pela eventual exclusão do mercado.
Neste novo contexto, a questão deixa de ser “quando mudar” e passa a ser “quão rápido conseguimos fazê-lo melhor do que os outros”. O PPWR não é apenas um desafio regulatório, é uma oportunidade estratégica para reposicionar a oferta, capturar valor e liderar a próxima geração de soluções de embalagem.









