Dados de compras revelam desertos alimentares inesperados nas cidades
Uma nova forma de identificar “desertos alimentares” — zonas urbanas onde os residentes têm dificuldade em aceder a uma alimentação saudável — está a desafiar ideias estabelecidas sobre o problema.
De acordo com uma investigação liderada pela Universidade de Adelaide, que utilizou dados reais de compras em supermercados, a distância às lojas não é o principal fator que explica dietas nutricionalmente pobres. O verdadeiro motor dessas desigualdades parece ser a disparidade económica e social.
O estudo, centrado em Londres, concluiu que a desvantagem nutricional se concentra sobretudo em comunidades de baixos rendimentos e minorias étnicas, mesmo em zonas com vários supermercados nas proximidades.
“Os desertos alimentares referem-se a áreas onde os residentes não conseguem ter acesso a uma dieta nutritiva, e onde se acredita que as barreiras ao consumo de alimentos saudáveis influenciam os comportamentos alimentares”, explica Tayla Broadbridge, da Escola de Ciências Informáticas e Matemáticas da Universidade de Adelaide, que liderou o estudo.
Broadbridge salienta que os métodos anteriores para identificar desertos alimentares baseavam-se em suposições sobre a localização das lojas, as características sociodemográficas e o acesso teórico a alimentos saudáveis.
Essas abordagens, diz, “classificam zonas como desertos alimentares sem qualquer ligação direta, quantitativa, aos dados reais de compras ou aos padrões alimentares”.
“Tratar o acesso à alimentação apenas como um problema de distribuição de lojas ignora fatores críticos — como o contexto cultural e económico — que moldam a vida urbana e a mobilidade dos residentes, e, consequentemente, o seu comportamento de consumo”, acrescenta.
O estudo demonstra que a análise conjunta dos padrões de compra e dos fatores sociodemográficos permite identificar desertos alimentares que escapam a outros métodos, bem como compreender as causas que os sustentam.
Atualmente também associada à Universidade de Nottingham, no Reino Unido, Broadbridge analisou registos de compras realizadas nas lojas londrinas da cadeia britânica Tesco.
“Analisámos transações de 1,6 milhões de clientes e identificámos bairros onde as compras seguem padrões nutricionalmente deficientes — marcados pelo consumo excessivo de açúcares e hidratos de carbono —, revelando zonas características de desertos alimentares”, explica.
Entre as áreas identificadas destacam-se Newham, Barking e Dagenham, a leste de Londres, e Ealing e Brent, a noroeste. Segundo a investigadora, embora a relação entre pobreza, pertença étnica e nutrição deficiente seja evidente, o impacto desses fatores varia significativamente de bairro para bairro.
“Essas diferenças espaciais refletem uma combinação de condições socioeconómicas, oferta comercial local e preferências alimentares distintas”, afirma Broadbridge, cuja investigação foi publicada na revista científica PLOS Complex Systems.
A autora defende que esta diversidade entre bairros sublinha a necessidade de estratégias locais, culturalmente adaptadas, para melhorar o acesso a alimentos saudáveis.
“Será fundamental trabalhar com especialistas locais para compreender melhor estas dinâmicas e desenvolver intervenções ajustadas a cada contexto, no âmbito das políticas de saúde pública”, sublinha.
Embora o estudo se tenha focado nas compras da Tesco em Londres, Broadbridge acredita que o método pode ser aplicado noutros contextos, incluindo na Austrália.
“O nosso modelo vai além dos indicadores sociodemográficos e ambientais tradicionais usados para identificar desertos alimentares”, afirma.
“Em países como a Austrália, a utilização de dados de cartões de fidelização de grandes retalhistas, como a Woolworths ou a Coles, permitiria mapear as zonas de maior desvantagem nutricional e compreender melhor a sua relação com as características sociais e económicas locais.”
Este tipo de análise, conclui, poderá ajudar as autarquias e comunidades a direcionar o apoio para onde ele é mais necessário.