Décadas de cativeiro não impediram estes elefantes de recuperarem as suas “vidas selvagens”

Um grupo de 11 elefantes, que viveram em cativeiro e que, depois de resgatados, foram libertados na África do Sul, provou que ainda há esperança para aqueles que, como eles, foram salvos da reclusão forçada.

Filipe Pimentel Rações

A reintrodução de animais selvagens na Natureza, de onde foram retirados, geralmente enquanto ainda eram crias, pode ser um processo desafiante. Depois de muitos anos forçados a vidas em cativeiro, longe da sua espécie, do seu habitat natural e privados de aprendizagens sociais, podem não conseguir adaptar-se ao lar dos seus antepassados.

Contudo, um grupo de 11 elefantes, que viveram em cativeiro e que, depois de resgatados, foram libertados na África do Sul, provou que ainda há esperança para aqueles que, como eles, foram salvos da reclusão forçada.

Num artigo publicado na revista ‘PLOS One’, uma equipa de investigadores liderada pela organização Elephant Reintegration Trust (ERT) acompanhou os 11 elefantes durante cinco anos após terem sido libertados em quatro reservas na África do Sul.

Cada um dos animais foi observada durante três semanas seguidas pelo menos uma vez por ano. A equipa procurava sinais no comportamento que pudessem indicar que os elefantes estavam desconfortáveis no ambiente selvagem, como estar constantemente em alerta ou demonstrações de receio. Além disso, procuravam marcas deixadas pelo cativeiro no comportamento, como agressividade anormal e toques excessivos com a tromba no seu próprio corpo.

O grupo de elefantes que é o foco deste estudo é composto por seis machos adultos – Bully, Mabitsi, Mana, Sharu, Michael e Gobisa –, três fêmeas adultas – Bonnie, Thembile e Chikwenya – e duas fêmeas jovens chamadas Tidimalo e Ngwedi, crias de Chikwenya.

Com a exceção de Tidimalo e Ngwedi, que nasceram já em cativeiro, todos os outros elefantes foram capturados na Natureza enquanto eram ainda crias.

Mana, Sharu, Michael e Chikwenya passaram cerca de 27 anos em cativeiro, Gobisa 24 anos, Bonnie e Thembile 17 anos, Bully e Mabitsi 15 anos e as jovens Tidimalo e Ngwedi seis e três, respetivamente.

No artigo, os investigadores revelam que alguns dos elefantes eram usados para passeios turísticos por operadores de safáris e os outros estavam em circos. Todas as instalações, asseguram, estão atualmente encerradas.

De forma geral, os investigadores dizem que comportamento dos ex-reclusos era muito semelhante ao de elefantes que toda a vida viveram livres no seu habitat natural.

Foram também recolhidas amostras de fezes para procurar hormonas tipicamente associadas ao stress, e percebeu-se que os animais reintroduzidos, especialmente as fêmeas, apresentavam níveis mais altos do que os contrapartes selvagens, mas, ainda assim, nada fora dos parâmetros considerados normais para elefantes selvagens.

Os resultados deste trabalho mostram, de acordo com os seus autores, que elefantes que passaram parte das suas vidas em cativeiro podem recuperar as suas “vidas selvagens”. Os investigadores dizem, contudo, que cada elefante adapta-se de forma diferente, o que entendem estar relacionado com a personalidade individual de cada animal.

“O que mais me fascinou foi ver elefantes que passaram décadas em cativeiro a adaptarem-se tão bem à vida em meio selvagem”, diz Tenisha Roos, primeira autora do artigo.

“Vê-los a reagir ao seu ambiente e a comportar-se de forma muito semelhante aos elefantes selvagens foi realmente impressionante”, confessa, acrescentando que estes resultados confirmam “a sua notável resiliência, adaptabilidade e flexibilidade comportamental”.

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