Declínio das grandes espécies selvagens põe em risco ecossistemas em África



Desde o século XVII que a energia consumida pelas maiores espécies de animais selvagens de África caiu mais de um terço. Isso aponta para um declínio alarmante da chamada megafauna e preconiza o colapso de funções dos ecossistemas.

O alerta é feito num artigo publicado na revista ‘Nature’, no qual um cientistas do Reino Unido, França, África do Sul e Itália dizem que espécies de grande porte, como elefantes, rinocerontes e leões, foram as que mais sofreram “perdas dramáticas”. Esses animais são importantes engenheiros dos ecossistemas dos quais fazem parte, seja como dispersores de sementes, como controladores de populações vegetais ou como predadores que mantêm os herbívoros em números ecologicamente sustentáveis.

Por isso, as grandes perdas populacionais que têm sofrido têm impactos não apenas para as espécies, mas também para toda a teia ecológica.

“O resultado mais importante, e alarmante, é o colapso das funções de ecossistema desempenhadas pela megafauna de África”, diz, em comunicado, Ty Loft, da Universidade de Oxford e primeiro autor do estudo.

“Os grandes animais selvagens são engenheiros ecológicos”, aponta, salientando que, no desempenho dessas funções, “não podem simplesmente ser substituídos por espécies mais pequenas ou por gado”.

E avisa que “a perda destes gigantes pode transformar os ecossistemas e as paisagens de África”.

Para chegar a estas conclusões, a equipa usou uma abordagem que quantifica a quantidade de energia que flui pelas teias alimentares, desde a luz solar que é captada pelas plantas até aos animais que delas se alimentam e aos predadores de topo.

Assim, combinaram dados de mais de três mil espécies e de 317 mil paisagens, desde florestas a savanas, passando por desertos, para calcular a energia natural que atualmente corre pela vida selvagem africana.

Os cientistas perceberam também que animais mais pequenos, como roedores e aves canoras, dominam agora grande parte dos fluxos energéticos, mas avisam que esses animais não podem substituir os papéis ecológicos da megafauna.

“O nosso trabalho mostra que o declínio dos grandes animais selvagens não se trata apenas de números, mas é também uma perda da energia que impulsiona e sustém as funções dos ecossistemas”, sublinha Joseph Tobias, da Imperial College London e coautor do artigo.

“Ao olharmos para os fluxos de energia podemos identificar ações de conservação vitais para a manutenção de paisagens resilientes”, afirma.

Os investigadores acreditam que este trabalho permitirá fortalecer projetos de conservação, ao chamar a atenção para a importância de considerar não apenas espécies particulares, mas também as funções ecológicas por elas desempenhadas. E a abordagem pode também ter implicações globais.

“Ao associar a perda de espécies diretamente à capacidade do planeta para circular nutrientes, água e carbono, as métricas de base energética podem ajudar a refinar metas internacionais da biodiversidade e a informar políticas no âmbito de estruturas como o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal”, asseguram os cientistas.






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