À medida que o Ártico aquece a um ritmo sem precedentes, os seus solos, outrora gelados durante a maior parte do ano, estão agora a desprovidos de gelo durante períodos mais longos.
No entanto, uma investigação recente, revela que, ao contrário do que se pensava, o degelo está apenas a “despertar” parte dos microrganismos que vivem abaixo da superfície, desafiando a ideia de que o aquecimento no pólo norte da Terra está a impulsionar a atividade microscópica de forma uniforme e a libertação de carbono para a atmosfera.
Num artigo publicado este mês na revista ‘mSystems’, que envolveu mais de 20 cientistas, é revelado que, mesmo após meses de degelo, cerca de metade os microrganismos do solo do Ártico permanecem num estado de dormência. Para chegarem a essa conclusão, os investigadores incubaram amostras de solo recolhidas em Svalbard, um arquipélago remoto entre a Noruega e o pólo norte, e mediram o desenvolvimento da vida microbiana.

Os resultados mostram que alguns microrganismos cresceram rapidamente no espaço de alguns dias, outros só começaram a crescer passado várias semanas, e uma grande porção permanecem inativa durante todos os 98 dias que durou a experiência.
Os solos do Ártico armazenam cerca de um terço de todo o carbono que se encontra aprisionado nos solos do planeta. Por isso, à medida que as épocas sem gelo aumentam, compreender quando isso acontece e que microrganismos se tornam ativos é fundamental para prever a libertação, ou consumo, de gases com efeito de estufa para a atmosfera.
À medida que o gelo derrete, água líquida torna-se disponível, permitindo que alguns microrganismos retomem a sua atividade e comecem e decompor matéria orgânica, um processo que liberta dióxido de carbono e metano, gases com efeito de estufa. Contudo, este estudo registou que também outros tipos de microrganismos “acordam” com o degelo, nomeadamente bactérias que se alimentam de outros microrganismos, incluindo os que contribuem para a emissão de gases com efeito de estufa, e outras que decompõem o metano.
Por isso, a relação entre a perda de gelo e a libertação de gases que aquecem o planeta não é tão linear quanto se pensava, pelo que estes investigadores dizem que é preciso que os modelos climáticos contemplem estas nuances antes desconhecidas ou ignoradas, para que as previsões possam tornar-se mais precisas.
“O degelo dos solos no Ártico não se limita a ativar a atividade microbiana”, aponta James Bradley, da Queen Mary University of London e principal coautor do artigo.
“Descobrimos que apenas parte da comunidade reage e que essa resposta se desenvolve ao longo do tempo. Isso tem importantes implicações para como nós prevemos a libertação de carbono num Ártico em aquecimento”, salienta.









