Déjà vu e sensação de uma presença são mais comuns do que se pensa e raramente têm impacto negativo

Publicado na revista científica PLOS One, o trabalho analisou a forma como mais de 5.100 adultos interpretam as chamadas experiências não comuns, concluindo que estas são geralmente vividas como acontecimentos neutros ou positivos e que a forma como são interpretadas tem maior influência no seu impacto do que a experiência em si.

Redação

Sentir uma presença quando não está ninguém por perto, ter uma experiência de déjà vu ou a sensação de observar o próprio corpo de fora são experiências relativamente comuns e, na maioria dos casos, não estão associadas a problemas de saúde mental, conclui um estudo realizado por investigadores brasileiros.

Publicado na revista científica PLOS One, o trabalho analisou a forma como mais de 5.100 adultos interpretam as chamadas experiências não comuns, concluindo que estas são geralmente vividas como acontecimentos neutros ou positivos e que a forma como são interpretadas tem maior influência no seu impacto do que a experiência em si.

A investigação revelou que 51% dos participantes consideraram que estas experiências tiveram efeitos positivos a longo prazo, enquanto 20% relataram um impacto negativo e 25% afirmaram ter sentido sofrimento ou desconforto.

Cerca de 39% dos inquiridos disseram que a experiência ocorreu quando estavam sozinhos e 57% afirmaram que estavam acordados e plenamente conscientes no momento em que aconteceu.

A maioria atribui estas experiências ao acaso

Os investigadores verificaram ainda que a maioria dos participantes atribuiu estas experiências ao acaso e referiu sentir algum grau de controlo sobre o que estava a acontecer.

Segundo Ronald Fischer, um dos autores do estudo, experiências como sentir uma presença, ter uma visão ou a sensação de observar o próprio corpo são muito mais frequentes na população em geral do que sugerem as taxas de diagnóstico de perturbações clínicas.

“Observámos que a maioria das mais de cinco mil pessoas da nossa amostra que relatam estas experiências não está doente e descreve-as como neutras ou positivas, tanto no momento em que ocorrem como quando mais tarde refletem sobre elas”, afirma.

O investigador acrescenta que estudos anteriores nem sempre distinguiram claramente a experiência em si da forma como cada pessoa lhe atribui significado.

“O nosso trabalho distingue claramente o contexto, a experiência e os processos de construção de significado. Os padrões que observámos desafiam vários pressupostos que têm orientado a investigação e também a prática clínica.”

A interpretação pode fazer a diferença

Os autores defendem que estas experiências podem, para muitas pessoas, tornar-se fontes de crescimento pessoal e reflexão.

“Destacar estes possíveis resultados positivos é importante para ajudar as pessoas a compreender estas experiências e a normalizá-las. Esperamos também que o nosso trabalho contribua para reduzir o estigma associado a estas vivências”, afirma Ronald Fischer.

O investigador sublinha, contudo, que quem sentir que estas experiências interferem com a vida quotidiana deve procurar apoio junto de um profissional de saúde ou de alguém da sua confiança.

Pedro Fortes, também autor do estudo, destacou que um dos aspetos mais surpreendentes foi verificar que experiências frequentemente associadas a sintomas de psicose ou dissociação são, afinal, relativamente comuns entre pessoas sem qualquer diagnóstico clínico.

Já Jorge Moll considera que os resultados demonstram que “a forma como uma pessoa interpreta uma experiência invulgar é mais importante do que a própria experiência para determinar se ela se torna uma fonte de sofrimento ou de significado”, uma conclusão que, segundo o investigador, poderá ter implicações na forma como profissionais de saúde e familiares respondem quando alguém relata acontecimentos deste tipo.

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