Desflorestação: Produção de carne no topo das principais causas. Brasil lidera perda de floresta

De acordo com a dupla de investigadores que assina o trabalho, ambos da Chalmers University of Technology, na Suécia, este é o estudo global mais abrangente sobre como diferentes produtos agrícolas estão a levar à destruição das florestas do planeta.

Redação

A produção de carne bovina é, a nível global, a principal causa de desflorestação relacionada com a agricultura, representando 40% da perda de floresta entre 2001 e 2022.

A conclusão é de um estudo publicado recentemente na revista ‘Nature Food’, que avança também que o Brasil é o país que mais área de floresta perde, cerca de 32% do total global nesse mesmo período.

De acordo com a dupla de investigadores que assina o trabalho, ambos da Chalmers University of Technology, na Suécia, este é o estudo global mais abrangente sobre como diferentes produtos agrícolas estão a levar à destruição das florestas do planeta.

Debruçando-se sobre 179 países e 184 produtos, Chandrakant Singh e Martin Persson mostram que, entre 2001 e 2022, um total de 122 milhões de hectares de floresta desapareceram para dar lugar a explorações agrícolas. Mais de 80% da perda de floresta concentra-se nos trópicos, onde estão também os maiores níveis de biodiversidade.

Apesar de os resultados confirmarem algo que, de alguma forma, já se sabia – que a produção de carne é um dos principais motores da desflorestação – os investigadores salientam que o estudo revela algo inesperado. De acordo com a equipa, culturas localmente produzidas e consumidas têm mais impacto nas florestas do que muitas das maiores culturas para exportação.

Culturas como milho, arroz e mandioca são, no seu conjunto, responsáveis por cerca de 11% de toda a desflorestação associada à agricultura, enquanto culturas como cacau, café e borracha representam, combinadas, menos de 5%.

Dizem os investigadores que, ao contrário de muitos outros produtos agrícolas, como o óleo de palma no sudeste asiático ou a soja na América do Sul, a desflorestação associada a culturas como milho, arroz e mandioca não está concentrada em regiões específicas, mas sim espalhadas pelo planeta e ocupando grandes áreas.

No que toca aos países que mais contribuem para a desflorestação a nível global, o Brasil está no topo da lista, de acordo com este estudo, com uma quota-parte de 32%. A Indonésia surge de seguida, com 9%, com a China e a República Democrática do Congo logo atrás, ambas com 6%.

Em linha com as contas desta dupla de cientistas, os Estados Unidos da América representam 5% da desflorestação mundial e a Costa do Marfim 3%.

“O debate em torno da desflorestação tem-se concentrado muito na forma como os países ricos contribuem para a desflorestação através das importações de produtos e é absolutamente importante compreender bem esta questão”, afirma Persson.

“Mas não podemos esquecer que uma grande parte da desflorestação é impulsionada pela produção agrícola destinadas aos mercados internos. Por isso, para realmente reduzir a desflorestação, precisamos também de tomar medidas nos países produtores”, defende o autor.

Emissões de CO2 abaixo do esperado

Este estudo calculou também as emissões de dióxido de carbono (CO2) associadas à desflorestação para fins agrícolas. Entre 2001 e 2022 foram lançadas na atmosfera cerca de 41 mil milhões de toneladas de CO2, numa média de perto de dois mil milhões por ano, devido à destruição florestal associada à produção de carne.

A dupla diz que esta estimativa é muito inferior a anteriores, que apontavam para valores duas vezes superiores. Singh sugere que essa diferença poderá dever-se ao facto de esta análise usar um método mais preciso para calcular os contributos da agricultura para as emissões globais.

Ainda assim, e apesar desse número ser abaixo do esperado, o investigador avisa que “a desflorestação causada pela agricultura continua a gerar cerca de 5% das emissões totais de dióxido de carbono a nível mundial”.

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