Conhecida pelos seus canais por onde navegam as célebres gôndolas, pelo seu icónico Carnaval e por se sustentar sobre as águas da lagoa com o mesmo nome, Veneza é uma cidade de deslumbramentos que atraem vagas de turistas todos os anos.
No entanto, é precisamente o que a torna tão atrativa que também a torna tão vulnerável aos efeitos das alterações climáticas, com especial destaque para a subida do nível do mar. Embora a cidade italiana tenha sofrido inundações ao longo dos últimos 150 anos, 18 dos 28 das inundações que cobriram mais de 60% da cidade aconteceram só nos últimos 23 anos.
Os cientistas dizem que o aumento da frequência desses fenómenos extremos deve-se à subida do nível do mar e também ao facto de a própria cidade, fruto de pressões humanas e de processos naturais, como a erosão, estar a afundar-se lentamente.
Por tudo isso, tem-se vindo a refletir sobre que soluções podem ajudar Veneza a adaptar-se às alterações climáticas, sabendo que o mar continuará a subir enquanto o planeta continuar a aquecer devido às emissões humanas de gases com efeito de estufa.
Um grupo de investigadores de vários países debruçou-se sobre possíveis abordagens, e não descartam a deslocação da cidade para outro local.
Num artigo publicado recentemente na revista ‘Scientific Reports’, os cientistas apresentam potenciais estratégias de adaptação para ajudar Veneza a lidar com a subida do nível do mar ao longo dos próximos 200 anos, com base em projeções do sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla original em inglês).
Do conjunto de abordagens constam a instalação de represas circulares com cerca de três metros de altura que separem o centro de Veneza da restante lagoa e o encerramento permanente da lagoa e o corte definitivo da ligação ao mar. Uma outra opção é continuar com a utilização das barreiras móveis que foram já instaladas em 2022, no âmbito do projeto MOSE, que separa temporariamente a lagoa do Mar Adriático em caso de risco de inundações.
Contudo, todas essas opções têm obstáculos que podem impedir a sua concretização. Isolar Veneza da restante lagoa teria impacto na sua ligação a todo o restante ecossistema lagunar e afetar a atratividade da cidade, incluindo possíveis perdas de turismo. Além disso, os investigadores estimam que esta intervenção poderia custar entre os 500 milhões e os 4,5 mil milhões de euros.
Fechar a lagoa implicaria ter de encerrar a atividade portuária da cidade e o custo seria ainda maior, uns estimados 30 mil milhões de euros.
Continuar a usar o sistema de barreira móveis MOSE significaria que até 2300, quando as previsões do IPCC estimam que o nível do mar chegue aos 1,25 metros, essa solução tornar-se-á insignificante. Essa medida custou já seis mil milhões de euros.
Então, o que resta? Este grupo de investigadores põe em cima da mesa a deslocação de toda a cidade, dos seus habitantes monumentos e edifícios, para outro local. No artigo, os autores reconhecem que esta abordagem permitiria preservar apenas alguns monumentos e que a vida urbana, a cultura, estilos de vida tradicionais e a maioria das atividades económicas seriam irreversivelmente perdidas.
“A nossa análise mostra que não há uma estratégia de adaptação ótima para Veneza”, diz Robert Nicholls, da Universidade de East Anglia e um dos autores do estudo.
“Todas as zonas costeiras e de baixa altitude devem reconhecer o desafio da subida do nível do mar a longo prazo e começar já a ponderar as implicações em termos de adaptação”, salienta.
Quanto à deslocação, os cientistas dizem que poderá ser necessária quando a subida do nível do mar passar dos 4,5 metros, o que se prevê que poderá ocorrer após 2300. Em termos de custos, estima-se que realojar Veneza custaria até 100 mil milhões de euros.
“Dado o grande valor cultura de Veneza, estes custos são claramente incompletos e nenhuma medida de adaptação poderia sustentar a Veneza que vemos hoje no longo-prazo”, declara Nicholls.









