Dia Mundial da Energia: “Se olharmos apenas para a produção, perdemos uma parte essencial da transição”

Nuno Bento, investigador do Dinâmia’CET – Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território, do ISCTE, ajuda-nos a refletir sobre o atual estado de coisas no que à transição energética diz respeito, e avisa-nos: sem olhar para o lado da procura, “o peso das renováveis no consumo final crescerá mais lentamente e a transição ficará mais cara”.

Filipe Pimentel Rações

Esta sexta-feira assinala-se mais um Dia Mundial da Energia, numa altura em que o mundo está ainda a braços com uma crise energética desencadeada pelas intervenções militares dos Estados Unidos da América e de Israel no Irão.

O conflito gerou ondas de choque por todo o mundo, fazendo disparar os preços do gasóleo, da gasolina e do gás, e recrudescendo os debates sobre a dependência dos combustíveis fósseis e a importância da transição energética.

Mas onde estamos no que toca a essa transição para lá da energia fóssil? Que obstáculos impedem uma transformação mais rápida? Estamos a prestar atenção a todas as facetas da transição ou a negligenciar alguma?

Nuno Bento, investigador do Dinâmia’CET – Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território, do ISCTE, ajuda-nos a refletir sobre o atual estado de coisas no que à transição energética diz respeito, e avisa-nos: sem olhar para o lado da procura, “o peso das renováveis no consumo final crescerá mais lentamente e a transição ficará mais cara”.

 

A transição energética em Portugal está a avançar ao ritmo necessário para alcançar as metas climáticas e de descarbonização com as quais o país se comprometeu? O que está a faltar e onde se deve atuar prontamente?

Portugal avançou muito na electricidade renovável, mas a transição energética ainda não está a avançar ao ritmo necessário no lado da procura: edifícios, transportes, indústria e eficiência energética.

Em 2024, as renováveis representavam 65,8% da produção de electricidade, mas apenas 36,5% do consumo final de energia. Além disso, Portugal tem como objectivo reduzir em 35% o consumo de energia até 2030 face ao máximo histórico, mas está ainda longe dessa trajectória.

O que falta é uma agenda explícita para a procura de energia. Precisamos de acompanhar melhor a redução do consumo final, acelerar a electrificação nos transportes, edifícios e indústria, e rever consumos de grande impacto que continuam a beneficiar de vantagens fiscais. Sem essa atenção à procura, o peso das renováveis no consumo final crescerá mais lentamente e a transição ficará mais cara.

Quais os principais obstáculos a uma maior eficiência energética em Portugal atualmente, e como se pode ultrapassá-los?

Um dos principais obstáculos é financeiro. Muitas famílias não conseguem suportar o investimento inicial em obras de eficiência energética, mesmo quando essas obras reduzem a factura energética e melhoram o conforto térmico.

O problema é agravado pelo estado do parque habitacional. Portugal continua a ter muitos alojamentos com mau isolamento, humidade e fraco conforto térmico, onde vivia 32% da população em 2025. Isto afecta as famílias mais pobres, mas também uma parte importante da classe média.

Para ultrapassar este bloqueio, os apoios têm de ser mais simples, previsíveis e acessíveis. É preciso reduzir burocracia, evitar que as famílias tenham de adiantar todo o dinheiro e esperar pelo reembolso, e envolver melhor a banca no financiamento da renovação energética dos edifícios.

Do outro lado do Atlântico, vê-se claramente um movimento anti-renováveis, impulsionado pela Casa Branca de Trump. Na Europa, a resistência é menos marcada, mas ainda assim é possível detetá-la em alguns setores políticos. A transição energética na União Europeia pode ver o seu progresso, de alguma forma, constrangido devido a essas resistências?

Sim, pode haver constrangimentos, sobretudo se a transição energética for apresentada apenas como custo. Quando as pessoas não veem benefícios concretos, como contas mais baixas, melhor conforto, transportes mais acessíveis ou menor dependência externa, a resistência política cresce.

Mas os choques energéticos recentes também mostram o contrário: economias dependentes de combustíveis fósseis importados ficam mais vulneráveis a crises geopolíticas, aumentos de preços e instabilidade nos mercados internacionais.

Por isso, a transição deve ser explicada também como uma política de segurança e resiliência. Melhor eficiência, mais electrificação e menos desperdício reduzem emissões, mas também protegem famílias, incluindo as mais vulneráveis, empresas e países contra o próximo choque energético.

A descentralização da produção de energias renováveis é importante para os objetivos climáticos e de descarbonização que se pretende alcançar, na Europa e em Portugal? Está a ser dada a devida importância à descentralização como acelerador de uma transição justa e sustentável?

A descentralização é importante porque permite produzir energia mais perto dos locais onde ela é consumida. Isso contribui para reduzir perdas, aliviar redes, diminuir custos de transporte de energia e aumentar a resiliência face a choques externos ou falhas de abastecimento.

Mas a descentralização não chega se for pensada apenas como mais produção distribuída. Tem de ser articulada com a transformação da procura: edifícios mais eficientes, autoconsumo bem desenhado, comunidades de energia, electrificação dos transportes e da indústria, e melhor gestão dos consumos ao longo do dia.

Nos transportes, por exemplo, mais electricidade renovável e mais postos de carregamento são importantes, mas não substituem o desenvolvimento do transporte público e da ferrovia. A descentralização só será verdadeiramente justa se ajudar a poupar mais energia, a torná-la mais acessível e a reduzir o desperdício. A energia mais barata e mais segura continua a ser a que não precisamos de consumir.

Recentemente, o Governo apresentou a sua proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis, que deveria, em linha com a diretiva RED III, ter sido apresentado até fevereiro. Esta estratégia será importante para acelerar a transição energética no país e para os esforços de abandono dos combustíveis fósseis?

É importante, mas não chega. As zonas de aceleração podem ajudar a remover bloqueios ao desenvolvimento das renováveis, desde que respeitem critérios ambientais, sociais e territoriais.

O ponto essencial é que Portugal continua muito dependente de energia importada e de combustíveis fósseis nos usos finais, sobretudo nos transportes e em parte da indústria. Em 2024, a dependência energética do país era ainda de 64,3%, apesar do forte crescimento das renováveis. Note-se que esse valor não inclui reexportações sob a forma de petróleo ou produtos petrolíferos que representaram 6,9% do valor das exportações e configura uma dependência económica adicional.

Por isso, acelerar renováveis é necessário, mas deve ser acompanhado por uma estratégia para a procura. O abandono dos combustíveis fósseis exige electrificação, eficiência energética e mudanças concretas nos transportes, nos edifícios e nos processos industriais. A transição não é só substituir a fonte de energia. É reduzir a exposição estrutural da economia a combustíveis fósseis importados.

Recentemente, o Nuno foi primeiro autor de um artigo publicado na ‘Science’ no qual diz que é não só preciso olhar para a forma como a energia é produzida, mas também para como é consumida. Por que razão se deve prestar mais atenção a essa outra faceta energética?

Porque a energia não é consumida por si só, mas para prestar serviços concretos: aquecer e arrefecer casas, deslocar pessoas, produzir bens, iluminar, cozinhar ou comunicar. Se olharmos apenas para a produção, perdemos uma parte essencial da transição. Além disso, cada unidade de energia poupada no consumo tem grande impacto a montante porque evita também produção, transformação e transporte de energia, assim como as perdas em cada uma destas fases.

No artigo defendemos que a política climática precisa de metas para a procura: melhorar a eficiência da energia final, acelerar a electrificação e limitar consumos excessivos com grande impacto. Isto complementa, não substitui, as metas para renováveis e emissões.

Há também um enviesamento no debate público: fala-se mais facilmente de novas centrais, painéis solares ou barragens do que de isolamento térmico, transporte público, eficiência industrial ou gestão da procura. Num estudo que estamos a ponto de publicar, vemos que muitas pessoas subestimam estes benefícios, mas ajustam a sua opinião quando recebem informação. No caso português, seria útil termos indicadores mais rápidos e integrados sobre consumo final de energia, por sector e ao longo do ano, até para monitorizar os avanços rumo à meta existente para 2030.

No mesmo artigo, são também criticados os consumos excessivos de energia por um punhado de pessoas, mais ricas, enquanto a grande maioria do resto da população mundial tem consumos significativamente inferiores. Na sua opinião, porque é que se deveria atentar nestes consumos excessivos e como é que se poderia colmatá-los? É com impostos?

Sim, em parte, mas não só. Apenas 2% consomem um terço de toda a energia mundial, enquanto metade da população global apenas tem acesso a 10%. Neste grupo, 700 milhões não têm sequer electricidade e 2 mil milhões não tem meios limpos para cozinhar.

Uma parte importante do consumo excessivo está associada a usos de luxo, como jactos privados, combustível de aviação ou iates, sobre os quais recaem poucos ou nenhuns impostos. Isto contrasta com os impostos que recaem sobre a electricidade ou os combustíveis usados pela maioria da população.

Faz sentido rever esse tratamento fiscal, eliminar isenções injustificadas e usar receitas para reduzir pobreza energética, melhorar transportes públicos, financiar eficiência nos edifícios e apoiar a electrificação. A questão não é penalizar o consumo normal, mas deixar de favorecer consumos extremos com elevado impacto ambiental e social.

Neste Dia Mundial da Energia, se pudesse à sua frente ter os líderes da Europa e de Portugal, tanto políticos como empresariais, que mensagem gostaria de transmitir-lhes relativamente ao atual contexto energético e ao caminho que ainda falta percorrer no que toca à transição, à eficiência, à pobreza energética que ainda grassa?

A política climática tem metas para a oferta, mas precisa de metas equivalentes para a procura. Não basta produzir energia mais limpa se continuarmos a desperdiçar energia ou a aumentar consumos que tornam o sistema mais caro, vulnerável e injusto.

A eficiência energética, a electrificação e a redução do consumo excessivo não são uma agenda de sacrifício. São uma agenda de modernização, porque permitem reduzir custos, melhorar conforto, reforçar a segurança energética e diminuir emissões.

Depois das metas globais para renováveis e emissões, falta uma agenda internacional explícita para a procura de energia. A peça que falta é clara: metas para eficiência, electrificação e limitação do consumo extremo até 2035.

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