Dia Nacional da Sustentabilidade: “Ser sustentável já não basta, o verdadeiro desafio é aprender a ser circular”

Soraia Franco Leite, Diretora de Relações Institucionais da DECO PROteste, defende que a transição para um consumo mais sustentável não pode depender apenas das escolhas individuais. Empresas, Estado e consumidores têm responsabilidades partilhadas, num mercado onde produtos mais duráveis, reparáveis e reutilizáveis devem deixar de ser uma exceção.

Ana Filipa Rego

A sustentabilidade está cada vez mais presente nas decisões dos consumidores, mas, para a DECO PROteste, o desafio passa agora por ir além da escolha de produtos considerados mais sustentáveis. Em entrevista à Green Savers, Soraia Franco Leite sublinha a necessidade de repensar a forma como produzimos e consumimos, prolongando a vida dos produtos, promovendo a reparação e a reutilização e reduzindo o consumo desnecessário. Uma mudança que, defende, deve ser acompanhada por informação clara e verificável, mas também por condições económicas que permitam aos consumidores fazer escolhas mais conscientes.

A Diretora de Relações Institucionais da DECO PROteste considera, por isso, que a responsabilidade não pode recair apenas sobre quem compra. As empresas devem conceber produtos mais duráveis e reparáveis e disponibilizar informação que permita comparar alternativas, enquanto o Estado deve criar regras, fiscalização e infraestruturas adequadas à transição. Numa altura em que novas regras europeias apertam o cerco às alegações ambientais, Soraia Franco Leite aponta ainda a circularidade como uma das principais mudanças necessárias, defendendo um mercado em que a sustentabilidade deixe de ser uma escolha de nicho e passe a fazer parte das próprias características dos produtos e serviços.

O Dia Nacional da Sustentabilidade nasceu de uma proposta da DECO PROteste. O que levou a organização a considerar importante criar uma data dedicada especificamente à sustentabilidade?

A sustentabilidade já estava presente nas decisões dos consumidores, mas faltava um momento de reflexão que aproximasse este tema do quotidiano das pessoas. A criação deste dia procurou colocar a sustentabilidade no centro da agenda e aproximá-la das decisões do dia a dia. Mas hoje temos de ir mais longe: ser sustentável já não basta, o verdadeiro desafio é aprender a ser circular. Isso significa repensar a forma como produzimos e consumimos, mantendo produtos e recursos em utilização durante o maior tempo possível.

Que reflexão gostariam que esta data provocasse junto dos portugueses e, sobretudo, que mudança de comportamento gostariam que resultasse dessa reflexão?

Gostaríamos que esta data levasse cada pessoa a refletir não apenas sobre o que compra, mas sobre quanto compra e durante quanto tempo utiliza aquilo que compra. Esta reflexão passa por tomar pequenas decisões mais informadas, como: comprar apenas o necessário, prolongar a vida dos produtos, reparar, reutilizar ou escolher soluções mais eficientes podem, quando multiplicadas por milhões de consumidores, gerar uma mudança significativa. De notar que a mudança individual é importante, mas ganha outra dimensão quando influencia o mercado.

Desde a criação do Dia Nacional da Sustentabilidade, que evolução têm sentido na forma como os consumidores portugueses encaram as questões ambientais e sociais?

Hoje, existe uma maior consciência de que as escolhas de consumo têm consequências ambientais e sociais. Mas em trabalho junto dos consumidores, a equipa de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste também nota uma evolução nas expectativas: os consumidores começam a questionar mais a durabilidade dos produtos, a possibilidade de os reparar, a origem dos materiais e o que acontece no final da sua vida útil. É uma evolução de uma lógica de “consumir melhor” para uma preocupação mais ampla com a forma como consumimos.

Há cada vez mais consumidores que dizem querer fazer escolhas mais sustentáveis, mas nem sempre esse compromisso se traduz nas compras do dia a dia. Onde está, na sua opinião, o principal obstáculo?

O principal obstáculo é a distância entre a intenção e as condições reais de escolha. Muitos consumidores querem fazer melhor, mas encontram produtos mais sustentáveis que são mais caros, menos acessíveis ou difíceis de identificar. Não podemos exigir aos consumidores que optem sempre pelas opções mais conscientes, num mercado que ainda não oferece escolhas sustentáveis de forma simples e competitiva.

O preço continua a ser a principal barreira a um consumo mais sustentável ou há outros fatores que pesam cada vez mais nas decisões dos consumidores?

O preço continua a ser determinante, sobretudo num contexto de maior pressão sobre o orçamento familiar. Mas não é o único fator, a conveniência, confiança, durabilidade, disponibilidade e facilidade de perceber o verdadeiro impacto de um produto pesam cada vez mais no momento de escolha. Temos também de começar a olhar para o custo ao longo da vida do produto, e não apenas para o preço no momento da compra. Um produto mais barato no momento da compra pode não ser a opção mais económica se tiver uma vida útil muito mais curta.

Até que ponto é justo colocar sobre os consumidores a responsabilidade pela mudança, quando muitas das escolhas disponíveis no mercado continuam a ser pouco sustentáveis?

O consumidor tem responsabilidade, mas não pode carregar sozinho o peso da transição. As suas escolhas podem influenciar a procura e pressionar o mercado, mas são as empresas que decidem como os produtos são concebidos e são as políticas públicas que estabelecem as regras do jogo. A responsabilidade tem de ser partilhada ao longo de toda a cadeia de valor.

Que responsabilidades devem assumir as empresas para que uma pessoa possa fazer escolhas mais sustentáveis sem ter de investigar profundamente cada produto ou serviço que compra?

A sustentabilidade deve começar muito antes do momento da compra. As empresas devem produzir produtos com maior durabilidade, reparáveis, reutilizáveis e eficientes no uso de recursos, disponibilizando informação clara que permita comparar alternativas. O consumidor não deve ter de fazer uma análise de ciclo de vida antes de comprar um produto.

E que papel deve ter o Estado na criação de condições para que a sustentabilidade deixe de ser uma opção muitas vezes mais cara ou mais difícil?

O Estado deve criar regras claras e previsíveis, fiscalizar o seu cumprimento e garantir as infraestruturas necessárias à transição. Deve também criar incentivos adequados e assegurar que as políticas públicas não penalizam desproporcionalmente as famílias com menor capacidade económica.

A informação disponível para os consumidores é suficiente para distinguir produtos realmente mais sustentáveis de estratégias de marketing que se limitam a explorar a preocupação ambiental?

Temos hoje mais informação, mas isso não significa necessariamente melhor informação. O consumidor precisa de informação clara, comparável, relevante e verificável, e não de uma multiplicação de alegações ambientais. A sustentabilidade não pode transformar-se num exercício de investigação que o consumidor tenha de fazer antes de cada compra.

O greenwashing continua a ser uma das principais preocupações da DECO PROteste? Que sinais devem levar um consumidor a desconfiar de uma alegação ambiental?

O greenwashing continua a ser uma preocupação da DECO PROteste porque pode fazer o consumidor acreditar que está a fazer uma escolha mais sustentável sem que exista uma diferença ambiental relevante. Alegações vagas ou absolutas, símbolos ou rótulos sem critérios claros, ou destacar uma pequena característica positiva para transmitir uma imagem ambiental global são sinais a que devemos estar atentos. A nova legislação europeia vem precisamente reforçar a proteção do consumidor neste domínio.

Os consumidores conseguem hoje perceber, por exemplo, se uma alegação como “ecológico”, “verde” ou “sustentável” corresponde a uma diferença efetiva no impacto de um produto?

Nem sempre. É por isso que a evolução da legislação europeia sobre alegações ambientais e informação ao consumidor é tão importante. A partir de 27 de setembro, com a aplicação da Diretiva “Empowering Consumers for the Green Transition”, passam a existir regras mais exigentes para as alegações ambientais: expressões genéricas como “verde”, “ecológico” ou “amigo do ambiente” terão de ser devidamente fundamentadas e não poderão criar uma impressão ambiental que não corresponda ao desempenho real do produto. É um passo importante para dar aos consumidores informação mais fiável e permitir que as escolhas sustentáveis assentem em evidência e não apenas em marketing.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estão no centro desta iniciativa. São ainda uma referência compreensível para o cidadão comum ou existe uma distância entre a linguagem dos ODS e a realidade das pessoas?

Os ODS são uma referência importante, mas a sua linguagem pode parecer distante do contexto diário. É fundamental traduzi-los em questões concretas: como consumimos, como nos deslocamos, como usamos a energia e a água, o que fazemos aos produtos quando deixam de ser necessários. Os ODS devem ser traduzidos em metas aplicáveis para a vida real, só assim é possível que estes ganhem outro sentido.

Quais são os ODS que considera mais diretamente ligados às escolhas quotidianas dos consumidores portugueses?

Destacaríamos sobretudo o ODS 12, garantir padrões de consumo e produção responsáveis, mas também o ODS 7, relativo a energia acessível e limpa, o ODS 11, sobre cidades sustentáveis, e o ODS 13, relativo à ação climática. Na realidade, as escolhas com que nos deparamos todos os dias cruzam vários ODS simultaneamente.

Habitação, alimentação, mobilidade e consumo são áreas com um peso significativo na pegada ambiental das famílias. Onde identifica atualmente maior margem para mudança?

Mais do que escolher uma única área, há uma mudança transversal que considero essencial: reduzir o consumo desnecessário e aumentar o tempo de utilização dos produtos. Isto significa comprar apenas quando necessário, escolher produtos de qualidade e alta duração, reparar, reutilizar e só depois pensar na reciclagem. É uma mudança que pode aplicar-se à habitação, alimentação, mobilidade e praticamente todas as áreas do consumo.

Há comportamentos sustentáveis que continuam a ser apresentados como escolhas individuais quando, na realidade, dependem também da existência de alternativas acessíveis e convenientes. É possível falar de consumo sustentável sem falar de condições económicas?

Não é possível falar de consumo sustentável sem falar de acessibilidade económica. Uma transição sustentável que apenas esteja ao alcance de quem pode pagar mais será uma transição incompleta. As escolhas sustentáveis têm de ser acessíveis, convenientes e competitivas para a generalidade dos consumidores.

A atual situação económica das famílias portuguesas pode estar a dificultar a adoção de comportamentos mais sustentáveis?

Sem dúvida. Quando o orçamento familiar está sob pressão, o preço imediato tende a ganhar peso face a benefícios ambientais que podem ser percebidos apenas a médio ou longo prazo. Por isso, as políticas de sustentabilidade devem considerar também a capacidade económica das famílias.

Que escolhas sustentáveis podem ser feitas mesmo por famílias com orçamentos muito limitados?

Há muitas escolhas que não implicam gastar mais, tais como: evitar desperdício alimentar, reduzir o consumo desnecessário, reparar e reutilizar produtos, poupar água e energia ou utilizar transportes públicos quando existem alternativas adequadas. Muitas vezes, sustentabilidade e poupança podem andar de mãos dadas.

A DECO PROteste tem acompanhado várias áreas relacionadas com o consumo sustentável. Quais são hoje as principais preocupações que chegam dos consumidores nesta matéria?

Uma das principais preocupações é perceber em que informação podem realmente confiar. Os consumidores querem fazer melhores escolhas, mas deparam-se com alegações ambientais difíceis de comparar, preços diferentes e, muitas vezes, pouca informação sobre durabilidade, capacidade de reparação ou impacto ambiental.

Existe alguma área em que tenha notado uma evolução particularmente positiva nos últimos anos?

Vejo uma evolução importante na forma como se fala de sustentabilidade. Já não estamos apenas a discutir reciclagem, fala-se de fatores como: duração, reparação, reutilização, desperdício e eficiência no uso dos recursos. Estamos, progressivamente, a perceber que a melhor solução para um resíduo é muitas vezes evitar que seja criado.

E, pelo contrário, onde considera que estamos a avançar demasiado devagar?

Continuamos a avançar demasiado devagar na circularidade. Portugal utiliza apenas cerca de 3% de materiais reciclados ou recuperados, face a cerca de 12% na União Europeia. Ainda estamos muito focados em gerir os resíduos depois de os produzirmos, quando o desafio deve começar muito antes, na conceção dos produtos, na escolha dos materiais e na sua duração. Precisamos de manter produtos e recursos em utilização durante o maior tempo possível e reduzir a dependência de matérias-primas virgens.

O que falta para que a sustentabilidade deixe de ser encarada como uma preocupação de alguns consumidores mais conscientes e passe a fazer parte das decisões da maioria?

É necessário tornar a escolha sustentável simples, acessível e conveniente. Temos de deixar de tratar a sustentabilidade como uma escolha de nicho. Para isso, as opções mais sustentáveis têm de ser também as mais acessíveis, convenientes e competitivas. A verdadeira transformação acontece quando o consumidor já não precisa de escolher entre o que é melhor para o ambiente e o que é melhor para o seu orçamento ou para a sua vida quotidiana.

Se tivesse de apontar uma mudança concreta que todos os consumidores portugueses poderiam começar a fazer, qual seria?

Colocar questões antes de comprar, como: “Preciso mesmo disto?”. É uma pergunta muito simples, mas pode evitar o consumo desnecessário. E, se a resposta for sim, escolher um produto que dure, possa ser reparado e, idealmente, reutilizado. Parece uma mudança pequena, mas questiona a lógica de “comprar, usar e deitar fora” e coloca o valor e a vida útil dos produtos no centro das nossas decisões.

E que mudança gostaria de ver nas empresas e nas políticas públicas até ao próximo Dia Nacional da Sustentabilidade?

Enquanto equipa de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste, gostaríamos de ver uma aceleração visível da transição para uma economia mais circular: produtos concebidos para durar e ser reparados, maior utilização de matérias-primas secundárias e modelos de negócio que mantenham produtos e materiais em circulação. E políticas públicas que criem as condições para esta transformação, reforçando simultaneamente a competitividade das empresas e tornando as escolhas sustentáveis mais acessíveis aos consumidores.

Que balanço gostaria de poder fazer desta data daqui a cinco anos?

Talvez que daqui a cinco anos pudéssemos dizer que a sustentabilidade deixou de ser sobretudo uma preocupação e passou a ser uma característica do próprio mercado, e que pudéssemos dizer que passámos de uma lógica de “consumir de forma mais sustentável” para uma economia circular. Que os produtos fossem concebidos para durar, reparar e reutilizar, que os recursos fossem valorizados e que as escolhas sustentáveis fossem acessíveis à maioria. Este seria um verdadeiro sinal de progresso.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.