No dia 1 de março, assinala-se mais um Dia Mundial das Ervas Marinhas, efeméride criada em 2022 pelas Nações Unidas e que pretende chamar a atenção da comunidade global para a importância de proteger este ecossistema em declínio.
Há quase quatro anos os Estados-membros da Assembleia Geral das Nações Unidas já reconheciam que a conservação das ervas marinhas era importante para a adaptação e mitigação dos efeitos das alterações climáticas, para a redução do risco de desastres, para a segurança, subsistência e bem-estar humanos e para o sequestro de carbono. Estima-se que as pradarias formadas pelas ervas marinhas tenham o potencial para armazenar até 18% de carbono dissolvido nos oceanos do mundo.
No entanto, já então diziam que apenas 26% das pradarias de ervas marinhas conhecidas estavam dentro dos limites de áreas marinhas protegidas, que desde os anos 1930 esses ecossistemas tinham vindo a sofrer um declínio ao nível global com uma perda equivalente a um campo de futebol de ervas marinhas a cada 30 minutos, e que 12% das espécies de ervas marinhas estavam “Quase Ameaçadas”, “Vulneráveis” ou “Em Perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Apesar de cobrirem apenas 0,1% do leito oceânico global, as ervas marinhas têm uma importância crescente para a estabilidade e sustentabilidade da vida na Terra, uma vez que, segundo as próprias Nações Unidas, a sua conservação e restauro ajudam os países a atingir 26 metas e indicadores associados a 10 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
Um estudo de 2019 revelava que a Europa perdeu um terço da sua área de ervas marinhas nos últimos 150 anos, sobretudo devido a doenças, à deterioração da qualidade da água e ao desenvolvimento costeiro, sendo que as maiores perdas foram registadas nas décadas de 1970 e 1980. Contudo, após mais de um século de declínio, o mesmo estudo aponta a taxa de perda têm vido a abrandar e em alguns locais as pradarias conseguiram mesmo recuperar.
Contudo, persistem as ameaças. A a poluição agrícola e industrial, a urbanização costeira e as alterações climáticas continuam a degradar esses ecossistemas biodiversos e a empurrá-los para o precipício em muitas regiões do planeta.
Ana Alexandre, bióloga especializada em ecologia e fisiologia das ervas marinhas e investigadora do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR), ajuda-nos a saber mais sobre as ervas marinhas e a perceber que a sua conservação e restauro são fundamentais para os esforços de proteção do planeta Terra, dos seus ecossistemas e também das sociedades humanas.

O que são ervas marinhas e como se distinguem das algas?
Ervas marinhas são plantas com flor que habitam as zonas costeiras, desde os trópicos à região do Ártico. As principais diferenças entre ambas são a presença, nas ervas marinhas, de vasos condutores, verdadeiras raízes e rizomas subterrâneos, e a produção de flores, frutos e sementes. Em Portugal, existem três espécies: a Zostera noltei, a Zostera marina e a Cymodocea nodosa.
Algumas espécies de ervas marinhas são mais comuns em determinada região do que outras?
A sua maior abundância em determinadas regiões deve-se a uma combinação de condições ambientais, tais como uma maior transparência e qualidade da água, um baixo hidrodinamismo e, sobretudo, a uma menor incidência de impactos antropogénicos.

Como é que as pradarias de ervas marinhas se distinguem de outros tipos de habitats?
As pradarias marinhas são importantíssimos sumidouros de carbono, tendo uma capacidade cerca de 35 vezes superior à das florestas terrestres para reter carbono nas suas plantas e sedimentos, o chamado carbono azul. Esta é uma das principais características que as torna tão determinantes na mitigação das alterações climáticas.
Que tipos de animais vivem nas pradarias de ervas marinhas?
As pradarias marinhas são zonas de grande biodiversidade, por isso albergam uma enorme variedade de espécies animais que delas se alimentam ou que as usam como refúgio. Podemos encontrar desde tartarugas marinhas e manatins, a aves, peixes, caranguejos, polvos e chocos, e o ameaçado cavalo-marinho, espécie emblemática que depende inteiramente das pradarias das ervas marinhas. Nos sedimentos habitam poliquetas e bivalves.
Onde estão localizadas as pradarias de ervas marinhas em Portugal? Em estuários, nas zonas costeiras, em águas marinhas mais profundas?
Em Portugal, podemos encontrar pradarias de ervas marinhas em lagoas costeiras, como a Ria Formosa, a Ria de Aveiro e a Lagoa de Óbidos, nos estuários do Arade, Tejo, Mira, Mondego e Sado, e em baías abrigadas na costa da Arrábida.

Qual a importância das ervas marinhas, e das pradarias que formam, para a biodiversidade? São locais de refúgio para uns, de alimentação para outros?
As pradarias marinhas são um importante suporte à biodiversidade na medida em que proporcionam alimento direto para muitos animais, bem como zonas de refúgio onde as espécies se protegem de predadores. São também berçários para muitas espécies, algumas de importância comercial, que nelas se reproduzem e desovam, e onde os seus juvenis passam as primeiras fases do seu desenvolvimento.
E do ponto de vista do combate às alterações climáticas? As ervas marinhas e as pradarias podem ser aliadas importantes nesses esforços de mitigação?
Sim, ao absorver o dióxido de carbono da água do mar através da fotossíntese, as ervas marinhas reduzem a intensidade da acidificação oceânica. Para além disso, a sua elevada capacidade para capturarem carbono nos sedimentos, faz com que as pradarias de ervas marinhas sejam um aliado crucial no combate às alterações climáticas.
Presumo que as pradarias tenham também uma relevância social e económica, correto?
As ervas marinhas são filtros naturais que removem nutrientes e bactérias e melhoram a qualidade da água, o que se repercute diretamente na qualidade do pescado e dos bivalves capturados nas suas áreas, e consequentemente na saúde humana. Constituem também um meio aprazível para atividades educativas e recreativas, tais como snorkeling, mergulho e observação de aves.
Que principais ameaças enfrentam as ervas marinhas atualmente em Portugal?
Em Portugal, as pradarias de ervas marinhas enfrentam destruição física direta relacionada com a pesca e a navegação desreguladas, as dragagens e a crescente urbanização e poluição costeira. Outra ameaça é a propagação de espécies invasoras, que competem com a ervas marinhas por espaço, luz e recursos.

Qual o estado de conservação das pradarias de ervas marinhas em Portugal? Deveríamos preocupar-nos com a sua conservação e, porventura, com o seu restauro?
Nas últimas décadas, as pradarias marinhas portuguesas foram fortemente impactadas, e por isso é urgente implementar medidas de gestão e conservação. Foi aprovado recentemente pelo Governo o programa “Floresta Azul” que irá dedicar-se ao restauro de pradarias marinhas, incluindo o mapeamento das suas áreas, a avaliação do seu estado ecológico e a implementação de ações de monitorização para, por exemplo, quantificar a capacidade de sequestro ou libertação de carbono. Ao restaurar pradarias de ervas marinhas em áreas onde as ameaças tenham sido removidas, estamos a contribuir para que todos os seus importantes serviços ecossistémicos subsistam.
Há proteções legais a nível nacional para as ervas marinhas e pradarias?
Sim, existem proteções legais a nível nacional para as ervas marinhas, fundamentadas no seu alto valor ecológico e socioeconómico, que obrigam à implementação de medidas de gestão para a sua conservação como a criação de áreas marinhas protegidas. As pradarias marinhas são áreas classificadas da rede Natura 2000, protegidas pela Diretiva Habitats, onde a destruição destas zonas é sancionada.
Que impactos se podem esperar das alterações climáticas nas pradarias de ervas marinhas? Num estudo no qual a Dra. participou, descobriu-se que as ervas marinhas, surpreendentemente (pelo menos para nós que não somos entendidos na matéria), vão beneficiar do aumento da temperatura e do dióxido de carbono nos mares e oceanos.
O estudo mostrou que o aumento da temperatura da água do mar deverá aumentar também a capacidade de aquisição de azoto orgânico pela Zostera marina, uma erva marinha amplamente distribuída no Hemisfério Norte. Isto indica que a Z. marina, e provavelmente outras espécies de ervas marinhas, poderão beneficiar num cenário de aumento de temperatura e dióxido de carbono oceânicos, uma vez que o seu crescimento não será limitado pela aquisição de azoto.









