A falta de financiamento e de priorização política da investigação científica deve ser motivo de preocupação, avisa Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO).
À margem de uma conferência sobre biodiversidade promovida pela Fundação BNP Paribas Portugal, no dia 22 de abril, em Lisboa, o investigador e professor catedrático da Universidade do Porto contou à Green Savers que a situação global do financiamento da Ciência “não é boa”, ainda que o quadro seja “heterogéneo”.
Em referência aos Estados Unidos da América (EUA), Ferrand disse-nos que “naquela que ainda é a maior potência mundial, a situação é muito má”, lembrando que “a Administração Trump é rigorosamente responsável por cortes substanciais no financiamento da atividade científica a todos os níveis”, desde a eliminação de apoios públicos a universidade e centros e investigação até à redução dos orçamentos de agências e outras entidades públicas, como a National Science Foundation ou o National Institute of Health.
“Como grande motor da investigação mundial que ainda é, estou muito preocupado com essa situação e com o que isso poderá significar para o resto do mundo”, confessa.
Contudo, a China tem vindo a investir muito em investigação científica, porventura tentando ocupar o espaço que vai sendo deixado pelo recuo dos EUA, e Ferrand acredita mesmo que o país asiático não está muito longe de vir a tornar-se a próxima maior potência científica do mundo.
Na Europa, estamos numa “situação difícil”, explicou o investigador, não só pelas ondas de choque anti-Ciência que vêm do outro lado do Atlântico, mas também por causa da conjuntura geopolítica instável e conturbada que deixa pouco espaço para dar prioridade à produção de conhecimento científico. Ou seja, em tempos de crise, financiamentos para a Ciência, e também para outras áreas, como a conservação da biodiversidade e do mundo natural, são dos primeiros a ser cortados e canalizados para, por exemplo, alívios dos preços da energia e compra de armamento bélico.
“Quando se diz que é preciso investir mais dinheiro em armamento, a primeira coisa a sofrer é a Cultura, é o Conhecimento, é a Ciência. É a primeira coisa a ser descartada e isso preocupa-me muito a nível europeu”, disse Ferrand. O académico, ecoando outros pelo continente fora, considera fundamental duplicação o orçamento da próxima edição do programa Horizon (de 2028 a 2034), instrumento-chave da União Europeia (UE) para financiar projetos de investigação e a inovação.
“Mas não estou a ver condições nenhumas para que isso venha a acontecer, tendo em consideração todas as pressões que são feitas para outro tipo de atividades”, lamentou, recordando o caso do programa LIFE. Embora considerado indispensável para os esforços de proteção ambiental, das alterações climáticas à biodiversidade, passando pela energia e uma série de outras áreas, o LIFE tem um futuro, pelo menos para já, incerto, com propostas para desmembrá-lo e integrá-lo noutros programas com focos mais economicistas. Ambientalistas e académicos já alertaram para os perigos de diluir o LIFE noutros programas de financiamento, incluindo a subordinação do financiamento do conhecimento a interesses económicos e empresariais.
Em Portugal, a situação de apoio público à Ciência não é melhor.
A Ciência é prioridade política?
Apesar de uma evolução considerável nos últimos 40 anos, o sistema científico nacional tem ainda “muitas fragilidades”, embora a Ciência de assinatura portuguesa percorra o mundo, faça capas de revistas de renome global, como a Science e a Nature, e faça avançar o conhecimento da humanidade. Mesmo assim, disse-nos Nuno Ferrand, nunca foi e continua a não ser uma prioridade real (não apenas retórica) de sucessivos governos.
Todos os anos, entre 2.000 e 2.500 doutorados saem das universidades, mas, sem apoios públicos para promover e tornar menos precárias as carreiras científicas, de pouco serve.
“Por exemplo, nos governos de António Costa, durante muito tempo falou-se em chegar aos 3% do PIB em termos de investimento na área científica, até 2030. Falamos disso desde 2015, já passaram 10 anos e não houve qualquer evolução”, criticou Ferrand. Atualmente, a despesa com a investigação científica ronda os 1,69%.
Regressando ao quadro europeu, o biólogo falou do caso do lobo na Europa, cujo estatuto de proteção foi reduzido a Convenção de Berna, e depois também na Diretiva Habitats da UE. Lembrando o caso “paradigmático” do pónei preferido de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, ter sido morto por um lobo na sua quinta na Alemanha, Ferrand acredita que a emoção e outras agendas frequentemente se sobrepõem às evidências científicas.
Para o investigador, isso significa que a Ciência só é ouvida pelos políticos “quando dá jeito” e quando não se coloca no caminho de interesses económicos. “Estamos longe de ter alcançado uma maturidade no relacionamento entre a evidência que no chega do conhecimento e da Ciência e aquilo que é a decisão política”, declarou.
Ainda assim, confessou-nos algum otimismo, dizendo que “na Europa, de forma geral, tem havido um progresso acentuado relativamente a decisões e construções políticas que são suportadas pela Ciência”. O Pacto Ecológico Europeu é disso exemplo, referiu, embora reconheça que também esse instrumento basilar está a sofrer, sobretudo com o desvio de dinheiros para esforços relacionados com a defesa.
Apesar de todos esses obstáculos, Ferrand considera que a Europa é o melhor exemplo, a nível mundial, de uma aproximação e articulação frutuosa entre Ciência e Sociedade.
Falta visão a quem governa
Em Portugal, Nuno Ferrand, do CIBIO e do programa Biopolis, considera haver falta de visão política no que toca à biodiversidade, dizendo que “estamos muito longe de uma situação ideal”.
“Falta visão aos nossos decisores e aos nossos políticos. Em particular, uma instituição como o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas devia ter hoje um protagonismo e uma capacidade de ação que não tem de todo”, salientou.
Reconhecendo que o problema não é de agora e que se arrasta há vários anos, Ferrand disse, no entanto, que tem vindo a agravar-se. “Por exemplo, termos hoje grandes parques naturais, ou mesmo um parque nacional, sem a figura de um diretor é uma coisa absolutamente incompreensível, não cabe na cabeça de ninguém”, lançou o académico.
Para Nuno Ferrand, o problema resulta de uma combinação de vários fatores, como a falta de prioridade política dada à Ciência, neste caso na área da biodiversidade, e também uma “falta geral de compreensão e de comunicação” da esfera política com o conhecimento que é produzido e emana das universidades e centros de investigação.
Disse-nos o catedrático que para proteger a biodiversidade não basta desenhar linhas num mapa e chamar-lhes “áreas protegidas” sem os meios necessários para a sua efetiva proteção e conservação.
“Para mim, é absolutamente incompreensível que todos os governos, desde há muito tempo, tratem assim a gestão e a conservação da biodiversidade num dos países da Europa que mais biodiversidade tem e que mais responsabilidade tem nessa área”, declarou.
Para amplificar as vozes da Ciência e o conhecimento que elas transmitem, Ferrand considera ser imprescindível juntar à mesma mesa cientistas, governantes, empresários e organizações da sociedade civil, para, em conjunto, identificarem problemas, partilharem conhecimento e recursos e conceberem soluções resultantes de perspetivas diversificadas.
Além de tudo isso, é preciso voltar a aproximar as pessoas do conhecimento, desenvolver e estimular o sentido crítico e a curiosidade pelo mundo em volta.
“Temos que ter cidades mais verdes, temos que ter cidades mais biodiversas, temos que ter programas de difusão do conhecimento que permitam chegar, desde cedo, a todos os miúdos nas escolas e nos liceus”, defendeu Nuno Ferrand.
“Temos de usar todas as ferramentas para evitar aquilo que já é muito notório, a dissociação progressiva entre as pessoas e o mundo natural. Isso é um grande problema.”









