Um estudo internacional liderado por investigadores da Universidade de Kyushu apresenta evidência científica de que as práticas ambientais, sociais e de governação, não só reforçam o valor intrínseco das empresas como contribuem para uma maior eficiência dos mercados financeiros.
A investigação, baseada na análise de 2.636 empresas em 31 países, conclui que níveis mais elevados de divulgação e desempenho ESG estão associados a empresas mais valiosas e a preços de mercado mais alinhados com os seus fundamentos económicos.
Ao longo das últimas duas décadas, a informação não financeira relacionada com emissões de gases com efeito de estufa, controlo da poluição, gestão de recursos hídricos ou diversidade nas equipas deixou de ser marginal para passar a integrar, de forma sistemática, as decisões de investimento. Este ano assinala-se, aliás, o 20.º aniversário dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI), lançados em 2006 com o apoio das Nações Unidas.
Apesar do crescente compromisso das empresas com critérios ESG, subsistem questões centrais: estas práticas criam efetivamente valor económico? E que impacto têm no funcionamento dos mercados de capitais?
Um artigo publicado na revista Business Strategy and the Environment traz novas respostas. O estudo demonstra que o reforço das práticas e da transparência ESG aumenta o valor intrínseco das empresas e melhora a eficiência dos mercados, aproximando os preços das ações do seu valor real.
“Optámos por analisar o valor intrínseco das empresas porque vai além de indicadores de curto prazo, como custos ou lucros, incorporando também oportunidades e riscos futuros”, explica Xinyu Wang, doutoranda da Faculdade de Economia da Universidade de Kyushu e primeira autora do artigo. “Trata-se de uma medida mais estável do valor a longo prazo, alinhada com a visão da criação de valor sustentável e de um sistema financeiro mais resiliente”, acrescenta.
A equipa recorreu a dados globais recolhidos entre 2015 e 2022, abrangendo empresas de setores como indústria transformadora, matérias-primas, serviços, tecnologias de informação e comunicação, entre outros. Para calcular o valor intrínseco, foi utilizado o Modelo de Rendimento Residual, que combina o valor contabilístico da empresa com os seus resultados excedentários. A partir daí, os investigadores avaliaram o grau de sobrevalorização ou subvalorização das ações face ao seu valor real.
Os resultados mostram que tanto a divulgação como o desempenho ESG contribuem para aumentar o valor intrínseco das empresas, sendo este último fator o mais determinante.
“Os resultados estão em linha com a nossa análise teórica”, refere Wang. “A teoria da sinalização sugere que a divulgação ESG reduz a assimetria de informação e o risco percecionado. Já a teoria da agência indica que um bom desempenho ESG tende a refletir uma governação interna mais eficaz, reforçando a confiança de investidores, clientes e trabalhadores.”
Para Jun Xie, professor auxiliar no Instituto Urbano da Universidade de Kyushu e coautor do estudo, a qualidade da informação é tão importante quanto a sua quantidade. “Isto sublinha a necessidade de as empresas comunicarem de forma honesta os seus progressos reais, em vez de recorrerem a mensagens promocionais ou próximas do greenwashing.”
Para além de criarem valor, as práticas ESG ajudam também a corrigir distorções nos mercados, reduzindo situações de sobrevalorização ou subvalorização das ações. Ao colmatar falhas de informação que podem induzir os investidores em erro, o ESG contribui para que os preços reflitam mais rapidamente e com maior precisão os fundamentos económicos das empresas, melhorando a eficiência do mercado.
O impacto, contudo, não é uniforme à escala global. Os efeitos positivos são mais evidentes nas economias avançadas, sendo ainda limitados em muitos países em desenvolvimento.
Com a futura adoção do sistema de divulgação de sustentabilidade das Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS), as empresas cotadas passarão a reportar informação ESG segundo um quadro harmonizado. Os investigadores esperam que esta normalização permita comparações mais robustas entre empresas e mercados.
“Embora criem valor económico, social e ambiental, as empresas são também grandes consumidoras de recursos e fontes de poluição. Garantir um futuro sustentável implica orientar a ação empresarial para práticas mais responsáveis”, sublinha Hidemichi Fujii, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Kyushu e orientador académico de Wang. “O nosso objetivo é fornecer evidência científica que clarifique, de forma objetiva, o impacto dos fatores ESG e contribua para políticas públicas que promovam essa transformação.”
Para Wang, o desafio estende-se a todo o sistema financeiro. “Idealmente, a informação nos mercados de capitais deve circular sem distorções. A investigação é apenas um meio. O que realmente importa é caminhar para um mundo mais eficiente e sustentável, onde uma melhor compreensão do ESG ajude a orientar os mercados e a sociedade nesse sentido.”









