Empresas que evitam pagar impostos têm maior probabilidade de recorrer ao greenwashing, conclui estudo

Os investigadores cruzaram dados fiscais, ambientais e indicadores ESG (ambientais, sociais e de governação) para perceber se existia uma relação entre a evasão fiscal corporativa e a tendência para apresentar uma imagem ambiental mais positiva do que aquela que corresponde à realidade.

Redação

As empresas que adotam estratégias agressivas de planeamento fiscal e redução da carga tributária tendem também a exagerar o seu compromisso ambiental através de práticas de greenwashing. A conclusão é de um estudo liderado pela Universidade de Murdoch, na Austrália, que analisou quase 400 empresas cotadas na bolsa australiana.

A investigação, publicada na revista científica Business Strategy and Development, avaliou 391 empresas do índice da Bolsa de Valores da Austrália (ASX) entre 2019 e 2022, incluindo o período marcado pela instabilidade económica provocada pela pandemia de COVID-19.

Os investigadores cruzaram dados fiscais, ambientais e indicadores ESG (ambientais, sociais e de governação) para perceber se existia uma relação entre a evasão fiscal corporativa e a tendência para apresentar uma imagem ambiental mais positiva do que aquela que corresponde à realidade.

Os resultados apontam para uma correlação clara: quanto mais agressivas eram as estratégias de minimização fiscal, maior era a probabilidade de as empresas recorrerem ao greenwashing para gerir a sua reputação pública.

Pressão financeira pode incentivar práticas de fachada

Segundo Augustine Donkor, investigador da Murdoch Business School e autor principal do estudo, as empresas enfrentam atualmente uma pressão crescente para apresentar simultaneamente bons resultados financeiros e elevados padrões de sustentabilidade.

“O objetivo da nossa investigação foi perceber se estas pressões levam algumas empresas a apostar mais na imagem do que em ações concretas para melhorar o seu desempenho ambiental”, explica.

De acordo com o investigador, períodos de incerteza económica podem incentivar algumas organizações a reduzir custos enquanto procuram preservar uma imagem positiva junto de investidores, consumidores e reguladores.

“À medida que a informação sobre sustentabilidade assume um papel cada vez mais importante na tomada de decisões, garantir a sua credibilidade torna-se essencial”, acrescenta.

Empresas mais conservadoras revelaram maior tendência

Um dos resultados que mais surpreendeu a equipa foi o facto de a relação entre evasão fiscal e greenwashing ser particularmente forte nas empresas que seguem uma estratégia empresarial classificada como “defender”.

Este modelo caracteriza-se por uma abordagem mais conservadora, focada na eficiência operacional, controlo de custos, estabilidade e manutenção da posição no mercado, em vez da procura agressiva de crescimento ou inovação.

“Esperávamos que empresas com estratégias mais agressivas de expansão fossem mais propensas a estes comportamentos”, admite Donkor. “No entanto, os resultados sugerem que algumas organizações mais conservadoras podem encarar o greenwashing como uma forma relativamente barata de proteger a sua reputação, ao mesmo tempo que recorrem a estratégias fiscais agressivas em períodos de pressão financeira.”

Mais transparência e fiscalização

Os autores defendem que as conclusões reforçam a necessidade de aumentar a transparência tanto nos relatórios de sustentabilidade como nas práticas fiscais das empresas.

Para os decisores políticos, o estudo sugere a importância de normas de reporte mais exigentes e de mecanismos de verificação independentes das alegações ambientais divulgadas pelas organizações.

Já para os investidores, os investigadores alertam para a necessidade de analisar com maior profundidade se as ações das empresas correspondem efetivamente às promessas ambientais que promovem.

Também os consumidores são chamados a desempenhar um papel mais ativo, questionando até que ponto as alegações de sustentabilidade são sustentadas por resultados concretos e mensuráveis, e não apenas por estratégias de comunicação e marketing.

Num contexto em que a sustentabilidade se tornou um fator decisivo para a reputação corporativa, o estudo sugere que algumas empresas podem estar a utilizar o discurso ambiental como forma de compensar práticas menos transparentes noutras áreas da sua atividade, tornando cada vez mais relevante a verificação independente das suas credenciais verdes.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.