Combater as alterações climáticas causadas pelos humanos ao longo de séculos de emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera é considerado uma das grandes lutas civilizacionais do nosso tempo.
Os impactos dessa crise planetária são já amplamente conhecidos: as emissões aquecem o planeta, perturbando os sistemas e mecanismos dos quais a estabilidade da Terra depende. E dessa estabilidade dependem também as sociedades humanas, e os efeitos da perturbação são sentidos cada vez com maior força: secas, cheias, incêndios e tempestades tendem a ser fenómenos mais frequentes, intensos e duradouros, afetando as sociedades como um todo.
Em 2015, cientes de que a situação pioraria se nada fosse feito, os países do mundo adotaram a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável. A mudança dos hábitos alimentares é um dos grandes eixos dessa estratégia global, atravessando vários dos 17 objetivos.
Entre as principais mudanças estão a redução da produção e consumo de produtos de origem animal (como carne e laticínios), associados geralmente a pegadas carbónicas elevadas, substituindo-os por produtos de origem vegetal, tipicamente conotados com menores impactos ambientais.
Além disso, a preferência por produtos mais locais e provenientes de produções orientadas por práticas sustentáveis, evitar as embalagens e optar pela compra a granel e a redução do desperdício são tudo mudanças tidas como fundamentais para alinhar a alimentação com a urgência das crises planetárias.
Muitos dizem hoje estar preocupados com as alterações climáticas e outros tantos já têm dietas mais sustentáveis, seja por razões de saúde ou por preocupações com o planeta, ou ambas. Mas haverá uma ligação direta entre a noção que temos do problema e o que, na prática, mudamos para resolvê-lo?
Um estudo sobre “Práticas alimentares sustentáveis na era das alterações climáticas”, promovido pelo Observatório Social da Fundação “la Caixa” e desenvolvido por investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e da Universidade Europeia, mostra que os portugueses (uma amostra de 3.132 adultos) estão cada vez mais conscientes dos benefícios de uma alimentação saudável. Contudo, revela que entre o saber e o fazer pode haver uma grande distância.
Em entrevista à ‘Green Savers’, Filipa Pimenta e Marta Uva, investigadoras do William James Center for Research (que junta ISPA e Universidade de Aveiro) ajudam a compreender os principais resultados do estudo e a perceber o que podem significar para os esforços de sustentabilidade que são precisos para proteger o planeta, os ecossistemas e as pessoas.
Temos uma população portuguesa consciente da urgência de combater as alterações climáticas e também preocupada com os efeitos na sua própria saúde e segurança. Contudo, o vosso estudo revela que essa consciência e preocupação não têm necessariamente correspondência direta com comportamento concretos, de mudança de hábitos de alimentação, por exemplo. A que se deve, na vossa perspetiva, e tendo em conta os resultados deste estudo, essa discrepância entre o que se sabe e o que se faz?
Filipa Pimenta (FP): O nosso estudo, que envolveu uma amostra representativa de adultos portugueses, mostra que 39% desta amostra estava a ter efetivamente comportamentos de alimentação sustentável no momento do estudo. Os nossos resultados são muito claros num ponto: a perceção de risco associada às alterações climáticas não previu a adoção de comportamentos alimentares sustentáveis.

O que se relacionou com uma maior frequência de alimentação sustentável foi o reconhecimento das vantagens (e também das desvantagens) de comer de forma mais sustentável. Ou seja, quem perceciona a ameaça climática avalia melhor os prós e os contras da mudança, mas essa avaliação não se traduz automaticamente em comportamento. Esta discrepância é bem conhecida na ciência comportamental: perceber um risco é diferente de estar disposto a agir.
Entre a consciência e a ação interpõem-se fatores como a confiança na própria capacidade de mudar (autoeficácia), os custos percebidos da mudança (preço, acessibilidade, conveniência) e o contexto social. No nosso estudo, foram precisamente a autoeficácia e as normas sociais descritivas (i.e., ver pessoas significativas a adotar estas práticas) que melhor explicaram o comportamento.
A mensagem para as políticas públicas é, por isso, direta: alarmar não chega; é preciso capacitar e facilitar.
De acordo com o que descobriram, os portugueses que mais adotam práticas alimentares mais sustentáveis são aqueles que têm já uma forte consciência ambiental e climática. Que barreiras é que estão a impedir que os outros se juntem a esse grupo e como é que se pode ultrapassá-las?
Marta Uva (MU): Existem barreiras a vários níveis que impedem que mais pessoas se juntem a esse grupo. A perceção de risco das alterações climáticas é um dos fatores que condiciona esta mudança, no sentido em que mesmo que exista a perceção deste risco e as pessoas compreendam as vantagens de adotar comportamentos alimentares sustentáveis para mitigar esse risco, esta intenção nem sempre se traduz em mudança de comportamento, porque o custo associado a essa mudança influencia significativamente a decisão de mudar.

Além disso, fatores como a alimentação emocional e a cultura também condicionam esta mudança. Isto acontece porque, quando os hábitos alimentares são guiados principalmente pelas emoções, a perceção de desvantagens de adotar padrões alimentares sustentáveis aumenta, o que poderá ser explicado pelo facto de a alimentação emocional se associar a padrões alimentares pouco saudáveis (ou seja, ao consumo de alimentos hiperpalatáveis, ricos em açúcar, sal e gordura).
Relativamente à cultura alimentar, este é também um aspeto determinante, no sentido em que adultos que passam mais tempo com a família ou amigos em convívios gastronómicos também identificam mais barreiras à adoção de uma alimentação sustentável. Ou seja, existe uma tendência por parte das pessoas para manter os seus hábitos alimentares ao longo da vida e fazer escolhas alimentares que se enquadram na sua cultura e como tal, optam por comprar produtos semelhantes aos que consumiram toda a vida, o que pode aumentar a perceção de custos associados à mudança.
Para ultrapassar estas barreiras, será necessário intervir a vários níveis. O apoio social demonstrou ser um aspeto importante no sentido pessoas que consideraram mais importante contar com o apoio de pessoas próximas para com as suas dietas, apresentaram uma maior adoção de padrões alimentares sustentáveis, bem como mais vantagens de os adotar. No entanto, para que a mudança ocorra esta deverá ser promovida a larga escala. Isto implicaria o desenvolvimento de iniciativas nacionais no âmbito das quais se poderiam realizar ações psicoeducativas sobre os benefícios da alimentação sustentável, sobre como superar as barreiras à adoção destes comportamentos e promover a partilha de receitas sustentáveis. Além disso, poderiam ser implementados projetos nas escolas para educar a população mais jovem acerca da importância de proteger o ambiente através do consumo sustentável (por exemplo, promovendo dietas plant-based nas cantinas).
Os vossos resultados sugerem que a “pressão”, seja autoimposta ou vinda de fora, também tem um papel importante na adoção de hábitos alimentares sustentáveis. Mas, curiosamente, descobriram que uma pressão excessiva pode ter precisamente o efeito contrário. Porquê?
FP: Este foi um dos resultados mais interessantes do estudo. As chamadas normas prescritivas (ou seja, a perceção de que os outros esperam que adotemos determinado comportamento ou nos pressionam nesse sentido) associaram-se a um maior reconhecimento das vantagens da alimentação sustentável e a uma menor valorização das suas desvantagens. Mas, paradoxalmente, associaram-se a menos comportamento efetivo. Por outras palavras: a pressão social convence a cabeça, mas não move o garfo.
A psicologia oferece uma explicação plausível: fazer algo apenas porque os outros acham que devemos fazê-lo compromete a autonomia, um dos motores fundamentais da motivação humana. Quando a mudança é sentida como imposta e não como escolhida, pode gerar resistência, mesmo em pessoas que reconhecem plenamente os benefícios dessa mudança. Há aqui uma lição importante para a comunicação em sustentabilidade: campanhas moralizadoras ou culpabilizantes, que dizem às pessoas o que devem fazer, correm o risco de produzir o efeito inverso ao pretendido. A motivação sustentada nasce da escolha informada, não da obrigação percebida.
Mas, ainda assim, a influência social é importante para promover a disseminação de práticas alimentares mais sustentáveis, certo? Se for feita na “medida certa”.
MU: Sem dúvida, a influência social é essencial para promover a adoção de práticas alimentares sustentáveis.
Neste estudo, pudemos observar que quando os adultos portugueses percebem que as pessoas importantes para si estão efetivamente a tomar mais medidas para combater as alterações climáticas, a frequência com que têm comportamentos típicos de uma alimentação sustentável aumenta. Neste sentido, a modelagem (ou seja, ver o exemplo de outras pessoas cujos ideais e comportamentos consideramos e valorizamos, a adotar estes comportamentos sustentáveis), conduz a um aumento desses comportamentos em nós próprios, exercendo neste caso uma influência positiva rumo à sustentabilidade.
Esta modelagem aumenta a motivação da pessoa no sentido deste padrão alimentar, facilitando a concretização da mudança comportamental. Além disso e tal como já foi referido, a pressão para adotar uma alimentação sustentável poderá não ter o mesmo efeito. Como tal, parece ser mais importante e facilitador da mudança comportamental se esta transição para um padrão alimentar sustentável for feita em conjunto, do que se existir apenas uma pressão para a mesma, sem que haja qualquer exemplo visível da mesma.
No estudo sugerem que poderia ser uma “iniciativa nacional relevante” o reforço da “perceção da capacidade pessoal para adotar práticas alimentares sustentáveis”. Significa isso que é importante mostrar que cada um pode adotar essas práticas, que está ao alcance de todos? Que mesmo gestos pequenos, individuais, podem fazer a diferença?
FP: Exatamente. A autoeficácia para a ação (que é a confiança de cada pessoa na sua capacidade de adotar e manter comportamentos alimentares sustentáveis) foi um dos preditores mais consistentes no nosso estudo: previu mais comportamento sustentável, maior valorização das vantagens e menor perceção de desvantagens. E há aqui uma boa notícia: ao contrário de outros determinantes, a autoeficácia é treinável. Ela constrói-se através de experiências de sucesso, e é por isso que os pequenos gestos importam tanto.
Começar por substituir uma refeição de carne por semana, experimentar uma receita vegetariana, preferir produtos locais numa ida às compras – cada pequeno passo bem-sucedido reforça a confiança para o passo seguinte. Pelo contrário, mensagens que exigem transformações radicais e imediatas tendem a diminuir a perceção de capacidade e a paralisar.
Uma iniciativa nacional neste domínio deveria, por isso, comunicar exequibilidade: mostrar que a alimentação sustentável não exige perfeição nem sacrifícios heroicos, mas sim mudanças graduais, concretas e ao alcance de qualquer pessoa, independentemente do seu rendimento ou literacia.
Falam também da importância da literacia alimentar. Em Portugal é algo que ainda está pouco desenvolvido? Poder-se-ia impulsioná-la nas escolas, por exemplo?
FP: A literacia alimentar revelou-se, de facto, um fator importante. No nosso estudo, os contextos de aprendizagem (e.g., saber onde encontrar informação fiável sobre alimentação) previram mais comportamento sustentável, maior valorização das vantagens e menor perceção de barreiras. O mesmo se verificou com a atenção às necessidades nutricionais: quem considera a dimensão nutricional da sua alimentação adota mais práticas sustentáveis.
Isto confirma que saúde e sustentabilidade caminham juntas, e que a informação de qualidade é uma alavanca para ambas. Portugal tem, aliás, contributos científicos relevantes nesta área, incluindo instrumentos de avaliação da literacia alimentar desenvolvidos e validados para a população portuguesa pela nossa equipa.
Quanto ao “como”: sim, a escola é o contexto privilegiado. Educar desde cedo (incluindo através das próprias cantinas escolares, que podem promover refeições de base vegetal) cria hábitos e conhecimentos que perduram. Mas a literacia alimentar não se esgota na infância: importa também garantir fontes de informação fiáveis e acessíveis para adultos, combater a desinformação nutricional e envolver os profissionais de saúde na comunicação sobre alimentação sustentável.
Os resultados do estudo indicam que os portugueses, regra geral, adotam, realmente, práticas alimentares sustentáveis, mas de forma ocasional, ainda que entendam que há mais vantagens do que desvantagens nessa adoção. Há, portanto, espaço e viabilidade para melhorias?
MU: Sem dúvida. Os resultados deste estudo permitiram compreender que a perceção de vantagens que os portugueses têm acerca da adoção de práticas alimentares sustentáveis é alta, contudo não se traduz na frequência que seria desejável da prática deste tipo de padrões alimentares.
Esta ausência da concretização do comportamento é explicada na psicologia pelo conceito da lacuna intenção-comportamento, ou seja, mesmo que as pessoas tenham a intenção e consigam compreender os benefícios de adotar um determinado comportamento, nem sempre conseguem passar da teoria à prática. Isto pode acontecer por diversos motivos, sendo que um deles é a perceção de barreiras que mantêm acerca do processo de adoção desse novo comportamento. Ou seja, os custos percebidos associados à mudança (por exemplo neste caso, a procura de produtos sazonais e biológicos e também os preços associados a estes produtos) poderão condicionar a concretização da mudança.
Ainda assim, este estudo permitiu concluir que existe espaço e viabilidade para melhorias ao nível da promoção de práticas alimentares sustentáveis na população portuguesa, uma vez que já existe a perceção de vantagens desse comportamento e o mesmo é praticado ocasionalmente e como tal, para ajudar a população no sentido de atingir esta mudança e aumentar a frequência de consumo de produtos sustentáveis, é importante procurar expandir a perceção de vantagens e simultaneamente diminuir a perceção de barreiras, fornecendo dicas para as ultrapassar e mobilizando os recursos necessários para minimizar os custos associados a estas práticas alimentares.
Como é que mudar hábitos de alimentação ajuda a proteger as pessoas e o planeta e também a contribuir para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável?
FP: O sistema alimentar (da produção ao desperdício) é responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa, além de contribuir para a degradação dos solos e a perda de biodiversidade. Simultaneamente, os padrões alimentares inadequados estão entre as principais ameaças à saúde humana.
É esta dupla face que torna a alimentação um ponto de alavancagem único: a mesma mudança que reduz a pegada climática (mais alimentos de origem vegetal, mais produtos locais e sazonais, menos desperdício) melhora também a saúde de quem a adota.
A Comissão EAT-Lancet demonstrou precisamente que é possível alimentar de forma saudável uma população mundial em crescimento dentro dos limites do planeta. Nesta perspetiva, mudar hábitos alimentares contribui diretamente para vários Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: a saúde e o bem-estar (ODS 3), o consumo e a produção responsáveis (ODS 12), a ação climática (ODS 13), e ainda a erradicação da fome através de sistemas alimentares mais equitativos e resilientes (ODS 2). Poucas escolhas quotidianas têm um alcance tão transversal.
Consideram que o papel da alimentação (das escolhas que todos nós fazemos no dia-a-dia) no combate às crises planetárias está a receber a atenção necessária? Em Portugal, especificamente, é um tema que está a ter a prioridade que devia nos esforços de proteção ambiental e climática?
FP: Honestamente, não. O debate climático continua muito centrado na energia e nos transportes, setores evidentemente cruciais; mas a alimentação, apesar de representar cerca de um terço das emissões globais, raramente ocupa lugar central nas políticas climáticas ou na comunicação pública.
O nosso estudo foi, aliás, motivado por esta lacuna: tanto quanto sabemos, foi a primeira investigação a procurar explicar, numa amostra representativa da população portuguesa, o que leva os adultos a adotar (ou não) comportamentos alimentares sustentáveis.
Em Portugal, o tema tem ganho alguma visibilidade, mas de forma fragmentada, e sem a articulação necessária entre políticas de saúde, de ambiente e agroalimentares. É uma oportunidade perdida, porque temos condições particularmente favoráveis: uma tradição alimentar mediterrânica (reconhecidamente saudável e sustentável) que importa preservar e reativar, produção local de qualidade e uma população que, como os nossos dados mostram, já reconhece as vantagens da mudança. Falta transformar este potencial em prioridade política, com metas concretas, envolvendo o Estado, a indústria, as escolas e o sector da saúde.
Mudar para hábitos alimentares mais sustentáveis deve ser também encarado como uma forma de mitigação das alterações climáticas e de adaptação do país aos seus efeitos? Está a ser entendido enquanto tal nas políticas climáticas, e também alimentares e agrícolas, em Portugal?
FP: Deve ser encarado como ambas as coisas, sem dúvida. Como mitigação, porque reduzir o consumo de produtos de elevada pegada carbónica e privilegiar alimentos de origem vegetal, locais e sazonais diminui diretamente as emissões associadas ao sistema alimentar. Como adaptação, porque sistemas alimentares mais diversificados, mais locais e menos dependentes de cadeias longas de abastecimento tornam o país mais resiliente aos efeitos das alterações climáticas (que incluem secas, fenómenos extremos, perturbações no comércio internacional) que já afetam a produção agrícola.
Quanto à segunda parte da pergunta: parece-nos que esta dupla função ainda não está plenamente refletida nas políticas portuguesas, onde as dimensões climática, alimentar e agrícola parecem ser tratadas separadamente.
No nosso estudo, propomos medidas que fazem essa ponte: benefícios fiscais para empresas que comercializem produtos sustentáveis, taxação de produtos não sustentáveis para reduzir a diferença de preço, incentivos à agricultura biológica e sustentável, e programas de educação alimentar nas escolas.
A alimentação é dos raros domínios em que a política climática, a política de saúde e a política agrícola podem convergir, e ganhar todas.









