Com a transição energética a acelerar e as metas de sustentabilidade a ganharem urgência, o conceito de Green Jobs está a tornar-se central na forma como pensamos o futuro do trabalho. A Green Savers falou com Bernardo Samuel, Country Head of Permanent Recruitment da Adecco Portugal, sobre o papel das empresas na criação e adaptação de talento para as profissões verdes.
O responsável revela que “91% das empresas portuguesas reconhecem não ter ainda profissionais suficientemente preparados para responder aos objetivos da economia verde”. E que a procura por especialistas ESG, Responsáveis de economia circular, Engenheiros de transição energética e perfis de reporting, “cresce a um ritmo mais acelerado do que a capacidade de formação e reconversão de profissionais no mercado de trabalho”.
– O que caracteriza uma profissão como “verde” e quais os critérios para essa classificação?
Uma profissão “verde” é aquela que contribui de forma clara para a preservação ambiental, melhorando a eficiência energética e reduzindo o impacto negativo no meio ambiente.
Para a classificar, olhamos para três critérios principais: o impacto ambiental positivo que gera – seja através da redução de emissões de carbono ou soluções de economia circular; o alinhamento com práticas e políticas de sustentabilidade empresarial; e o impacto social positivo – através de planos de formação em competências ‘verdes’ ou inclusão social em projetos ambientais.
– Quais os principais setores que empregam estes profissionais e quais são os green jobs mais procurados atualmente em Portugal?
Em Portugal, destacam-se setores como as energias renováveis, a engenharia e construção, a mobilidade elétrica, a gestão de resíduos, o florestal e agroalimentar com foco em produção biológica. Os perfis mais procurados vão desde Engenheiros especializados em energias renováveis a engenheiros ambientais, especialistas em ESG e reporting, gestores de sustentabilidade e de cadeias de abastecimento e perfis híbridos que combinam tecnologia ou legislação com métricas ambientais.
Especialistas nestas posições podem auferir salários em média 20% superiores às restantes, sendo que estudos recentes nos indicam que mais de 60% dos empregadores já estão a recrutar para este tipo de funções.
– Qual o papel da educação profissional e universitária na formação de especialistas nestas áreas?
É um papel absolutamente central. Universidades e centros de formação têm de evoluir em paralelo com as exigências do mercado, criando percursos multidisciplinares que unam engenharia, economia, gestão e ciência ambiental, alinhados com a realidade corporativa. Programas como o PESSOAS 2030 e os financiamentos do PRR reforçam esta aposta, ao apoiar a reconversão e qualificação de trabalhadores, assim como a formação de jovens para profissões emergentes.
– Como é que as empresas podem preparar-se para criar estas novas funções ligadas à sustentabilidade?
A sustentabilidade, tal como outros vetores organizacionais, deverá assumir uma abordagem prioritária e estratégica, presente em várias dimensões:
- Análise corporativa interna: será premente identificar o contexto do impacto ambeintal, as suas áreas críticas e definir a estratégia das políticas de ESG;
- Definição de objetivos de ESG: locais, internacionais e relacionados com os stakeholders;
- Criação dos departamentos e funções estratégicas de sustentabilidade: Ex: Chief Sustainability Officer
- Desenvolver dinâmicas formativas (upskilling) e práticas sustentáveis nos diversos departamentos corporativos;
- Acompanhamento do impacto das práticas de ESG: análise de indicadores verdes e dashboards de ESG;
- Melhoria continua e envolvimento de todos os colaboradores da empresa.
– Há incentivos suficientes por parte do governo para o desenvolvimento de carreiras sustentáveis?
Portugal tem feito progressos relevantes, sobretudo através do PRR e de programas dedicados a competências verdes. Só até 2026, mais de 8 mil milhões de euros serão canalizados para objetivos climáticos. No entanto, o investimento público precisa de ser acompanhado por uma aposta mais determinada das empresas, que devem encarar a sustentabilidade não como um custo, mas como investimento em Responsabilidade social, competitividade e reputação.
– A sustentabilidade é uma exigência real do mercado ou apenas um diferencial competitivo?
É já uma exigência muito presente e real.
Investidores, clientes, colaboradores e sociedade, estão cada vez mais atentos às práticas sustentáveis. No entanto, para quem integra a sustentabilidade de forma autêntica, prática e estruturada, esta continua a ser também um diferencial competitivo, principalmente no momento de notoriedade das marcas, atração de talento e de gerar valor a longo prazo.
– Há uma lacuna real de talento preparado para responder a estas novas exigências?
Sim. 91% das empresas portuguesas reconhecem não ter ainda profissionais suficientemente preparados para responder aos objetivos da economia verde. A procura por especialistas ESG, Responsáveis de economia circular, Engenheiros de transição energética e perfis de reporting, cresce a um ritmo mais acelerado do que a capacidade de formação e reconversão de profissionais no mercado de trabalho.
– Que papel deve ter o employer branding verde na atração de talento com propósito?
Um papel determinante. As novas gerações procuram organizações que não falem apenas de sustentabilidade, mas que a pratiquem de forma coerente. O employer branding verde deve refletir esse compromisso, mostrando de que forma a empresa contribui para um futuro melhor — partilha de testemunhos de colaboradores, certificações em ESG, presença em eventos, prémios ambientais, entre outros. O reforço e partilha de uma cultura organizacional verde, fará com que o talento alinhado com os mesmos valores, procurem e queiram trabalhar neste tipo de empresas.
– De que forma é que a Adecco está a apoiar clientes nesta transição?
Na Adecco apoiamos os nossos clientes em três dimensões fundamentais:
- Recrutamento especializado – identificamos e atraímos talento altamente qualificado em áreas verdes e ESG.
- Upskilling e reskilling – ajudamos a reconverter profissões tradicionais para integrarem competências verdes.
- Consultoria de human capital – alinhamos estratégias de RH e planos de talento com as metas de sustentabilidade, garantindo um impacto de longo prazo.
– É possível transformar profissões tradicionais em carreiras sustentáveis?
Sem dúvida. Funções como engenharia civil, manutenção industrial ou gestão de operações podem ser adaptadas para incluir práticas de eficiência energética, gestão circular e tecnologias limpas. Estudos recentes mostram que a maioria da economia verde resulta da reconversão de funções existentes, e não apenas da criação de novos cargos.
Desta forma, a empresa também demonstrará o seu compromisso com um futuro sustentável e não apenas com o lucro financeiro.
– Quais são os principais desafios enfrentados por profissionais que atuam no setor ambiental?
Estes profissionais enfrentam a necessidade constante de atualização técnica, a pressão regulatória cada vez mais exigente e, muitas vezes, resistência cultural dentro das organizações. Acresce ainda o desafio de equilibrar a inovação com o investimento da implementação. Mas são precisamente estes obstáculos que tornam a função tão estratégica e fundamental, porque ajudam a transformar a sustentabilidade de ‘obrigação’, em motor de inovação e desenvolvimento.









