Entrevista a Ana Calhôa: “A transição energética será tanto mais eficaz quanto mais diversificado for o seu mix de soluções”

Ana Calhôa, Secretária-Geral da Associação de Bioenergia Avançada (ABA), faz o balanço de sete anos de evolução do setor e aponta os desafios para a próxima década.

Ana Filipa Rego

Em sete anos, a bioenergia avançada deixou de ocupar um lugar relativamente marginal no debate energético português para assumir um papel cada vez mais relevante na descarbonização. Para Ana Calhôa, Secretária-Geral da Associação de Bioenergia Avançada (ABA), esta evolução resulta não só da diversificação das soluções disponíveis, mas também da crescente valorização de resíduos e subprodutos como recursos energéticos. Com mais de 25 associados e uma cadeia de valor em consolidação, a ABA considera que o setor já demonstrou capacidade para contribuir de forma concreta para a transição energética, sobretudo em áreas onde a eletrificação enfrenta maiores limitações, como o transporte pesado, a aviação, o transporte marítimo e a indústria.

Olhando para a próxima década, a dirigente defende um quadro regulatório mais estável e previsível, a conclusão da transposição da RED III, o reforço do mercado do biometano e uma maior utilização da capacidade industrial instalada em Portugal. O objetivo é transformar o potencial existente em produção, investimento e valor dentro do país, aproveitando recursos endógenos e criando novas cadeias de valor, emprego e dinamização dos territórios. Em 2035, Ana Calhôa gostaria de ver a bioenergia avançada plenamente integrada na matriz energética nacional e Portugal a apresentar resultados concretos, deixando de discutir apenas o potencial destas soluções para passar a afirmar-se como um exemplo nesta área.

A Associação de Bioenergia Avançada assinala sete anos de atividade. Que balanço faz da evolução da bioenergia avançada em Portugal desde a criação da associação? O que é que mudou de forma mais significativa?

O setor da bioenergia avançada mudou significativamente nos últimos sete anos. Se recuássemos a 2019, dificilmente o encontraríamos entre os principais temas da política energética portuguesa. Uma das mudanças mais relevantes verifica-se na diversificação das matérias-primas utilizadas na produção e importação de biocombustíveis, com uma valorização crescente de resíduos, subprodutos e matérias-primas avançadas. Esta evolução trouxe para o centro do setor uma lógica mais circular, em que resíduos que antes eram vistos sobretudo como um problema de gestão passam a ser encarados como recursos com valor energético. Ao mesmo tempo, assistimos a uma diversificação das próprias soluções, com os biocombustíveis líquidos avançados a coexistirem com o crescimento de outras alternativas gasosas, como é o caso do biometano e do hidrogénio verde, e com novas aplicações em diferentes setores da economia.

Quando a ABA foi criada, a bioenergia avançada era ainda um tema relativamente pouco presente no debate público. Hoje, considera que existe um maior reconhecimento do seu papel na transição energética? O que contribuiu para essa mudança?

Sim, sem dúvida. Foi nesse contexto que a associação surgiu, em 2019, com a missão de dar maior expressão a um setor que, à época, ainda procurava o seu lugar no debate energético nacional. Havia uma necessidade de dar a conhecer o potencial da bioenergia avançada, de aproximar a indústria e os seus principais players dos decisores políticos e também de esclarecer a sociedade civil sobre esta fonte de energia até aqui pouco conhecida ou compreendida. Nos últimos anos, esse cenário mudou. A definição de metas de incorporação de energias renováveis no consumo cada vez mais ambiciosas, tanto a nível europeu como nacional, veio dar maior visibilidade à bioenergia avançada enquanto a indústria começava a dar os seus primeiros passos no mercado português. O desenvolvimento de novos projetos e a maturidade crescente de tecnologias incorporadas ajudaram a demonstrar que não estamos perante uma solução de futuro, mas sim uma já consolidada e com impacto imediato na redução das emissões.

Hoje, é mais claro o contributo que os biocombustíveis avançados, tanto líquidos como gasosos, podem dar à descarbonização de setores onde o leque de alternativas continua a ser limitado, como o transporte pesado, a aviação, o setor marítimo ou a indústria. O crescimento de projetos de escala em Portugal e o desenvolvimento da fileira do biometano, em particular, são sinais dessa evolução. A própria consolidação da ABA, que passou de quatro fundadores para mais de 25 associados, acompanhando toda a cadeia de valor, é também reflexo deste percurso.

Nos últimos anos, Portugal aprovou novos instrumentos estratégicos e legislativos para acelerar a descarbonização. De que forma esse enquadramento político e regulatório tem influenciado o desenvolvimento da bioenergia avançada?

O enquadramento político e regulatório tem sido determinante para o desenvolvimento da bioenergia avançada em Portugal, sobretudo porque estes instrumentos podem dar maior previsibilidade à procura e definir uma trajetória de crescimento para o setor. Estes instrumentos legislativos funcionam como uma bússola que orienta o setor e permitem construir o caminho com maior ou menor previsibilidade e estabilidade. Quanto mais claro e transparente o enquadramento for, maior confiança é dada aos investidores e aos operadores para o desenvolvimento do setor.

Por isso, a definição de metas obrigatórias de incorporação de biocombustíveis avançados e biogás, a par das metas estabelecidas no PNEC e do reforço da ambição europeia através da RED II (e consequentemente da RED III), ajudam a criar um sinal claro para o mercado e para os investidores. Também os novos enquadramentos para setores como a aviação e o transporte marítimo vieram reforçar o papel destas soluções em áreas onde a eletrificação continua a enfrentar limitações. O resultado é visível na evolução do mercado: em 2025, segundo o nosso relatório anual, foram colocadas no mercado nacional 685 759 toneladas de biocombustíveis, sendo que mais de 360 mil toneladas vieram de produção nacional.

A transposição da Diretiva RED III continua a ser aguardada. Que aspetos considera fundamentais para que esse diploma possa criar condições favoráveis ao investimento e ao crescimento do setor?

A transposição da RED III é uma oportunidade importante para consolidar o caminho que tem vindo a ser feito no setor e, sobretudo, para criar as condições de previsibilidade de que investidores e operadores necessitam. No entanto, para que isso aconteça, é necessário que o diploma estabeleça, mais do que metas claras e transparentes, um calendário previsível para a incorporação de biocombustíveis nos diferentes setores e que reconheça de forma autónoma o contributo destas soluções para a descarbonização da economia. É também importante que este enquadramento permita uma maior aposta nas diferentes soluções de bioenergia disponíveis, desde a utilização de misturas mais ricas de biocombustíveis e do HVO nos transportes ao desenvolvimento do biometano, tendo em conta as necessidades e especificidades de cada setor. Isto só é possível se conseguirmos simplificar processos, criarmos mecanismos de apoio e incentivos fiscais, bem como se formos capazes de assegurar uma articulação eficaz entre as diferentes entidades envolvidas. Só com um quadro regulatório claro e estável é possível dar aos operadores a confiança necessária para tomar decisões de investimento com horizontes a médio e longo prazo.

O Plano de Ação para o Biometano é frequentemente apontado como um passo importante para valorizar recursos endógenos e reduzir a dependência energética. Que potencial vê para esta fileira em Portugal e quais são ainda os principais obstáculos ao seu desenvolvimento?

Vejo este potencial refletido em duas dimensões principais. A primeira está relacionada com a redução da dependência energética do exterior: ao valorizar recursos endógenos, o biometano contribui para reforçar a segurança e a autonomia energética do país. A segunda prende-se com a possibilidade de integrar o biometano na infraestrutura de gás existente, permitindo descarbonizar a economia sem exigir a substituição imediata de toda essa infraestrutura. E esta possibilidade tem um impacto significativo em termos ambientais, mas também económicos. É algo particularmente relevante num contexto em que diferentes setores avançam a ritmos distintos na transição energética.

Mas é, naturalmente, uma fileira ainda em fase de consolidação, que começa agora a ganhar maior expressão em Portugal. Persistem desafios relacionados com o licenciamento, a ligação à rede, a certificação e a previsibilidade necessária para concretizar novos projetos e unidades de produção. Ainda assim, o setor tem vindo a conquistar o seu espaço e a demonstrar uma evolução muito concreta. Um dos principais marcos e conquistas aconteceu, por exemplo, este ano, com a primeira emissão de Garantias de Origem (GO) para biometano produzido em Portugal, pela REN, em Aljustrel. É um passo importante para a afirmação desta solução no mercado nacional, pois permite comprovar a origem renovável da energia produzida e criar melhores condições para a sua valorização.

Segundo o relatório semestral da ABA, os biocombustíveis avançados representaram, em 2025, mais de 685 mil toneladas equivalentes de petróleo. O que revelam estes números sobre a maturidade do setor e até onde é possível crescer?

Revelam, primeiramente, que já não falamos apenas de uma solução residual, mas de um volume significativo que é efetivamente incorporado no mercado nacional. Significa isto que a bioenergia avançada ganhou escala e que existe já uma procura concreta por estas soluções. Mas o dado mais importante, a meu ver, é o facto de que esta evolução tem sido acompanhada por uma mudança estrutural do próprio mercado: os biocombustíveis produzidos a partir de matérias-primas avançadas representam hoje a maioria das matérias-primas utilizadas, refletindo uma transição para soluções assentes na valorização de resíduos e subprodutos.

Quanto ao potencial de crescimento, há ainda uma margem muito significativa, sobretudo do lado da produção nacional. O mercado já demonstrou que existe procura e interesse. O desafio passa por conseguir responder-lhe com mais ambição. Portugal tem uma capacidade industrial bastante expressiva, mas não tiramos ainda pleno proveito desta capacidade. Precisamos, por isso, aumentar a recolha e valorização de resíduos, desenvolver novas unidades de produção e, principalmente, biorrefinarias de segunda geração, mas também precisamos de criar condições regulatórias que deem segurança e previsibilidade a estes investimentos.

Um dos argumentos mais frequentemente associados à bioenergia avançada é a valorização de resíduos e subprodutos. Até que ponto esta pode ser uma ferramenta relevante para promover uma economia mais circular em Portugal?

A valorização de resíduos e subprodutos pode ser uma das ferramentas mais concretas para acelerar a economia circular em Portugal, porque permite transformar esses excedentes que muitas vezes são encarados como um problema de gestão num recurso com valor energético. Aliás, esta é a própria premissa de um modelo mais circular. Resíduos agrícolas, florestais, urbanos e industriais que, de outra forma, poderiam ser incorretamente descartados ou desperdiçados, podem ser convertidos em fontes de energia, reduzindo simultaneamente a utilização de matérias-primas de origem fóssil. O próprio percurso do setor demonstra este potencial, sendo que, segundo o nosso último relatório anual, as matérias-primas avançadas (AVA) e os Óleos Alimentares Usados (OAU) representam já 97% dos recursos utilizados na produção nacional de biocombustíveis e 90% das matérias-primas e subprodutos associados à importação de biocombustíveis.

Mas o verdadeiro potencial desta lógica vai muito além da bioenergia avançada. Quando falamos de economia circular, falamos também da capacidade de criar cadeias de valor nacionais, em que a recolha, o tratamento e a transformação de resíduos podem gerar atividade económica, criar novos postos de emprego e trazer valor acrescentado para a economia portuguesa. Ao mesmo tempo, ao apostarmos num modelo económico mais circular, estamos simultaneamente a reduzir a dependência de recursos e de energia importados. É uma forma de tornar o país mais resiliente e de aproveitar melhor os recursos endógenos, em vez de continuarmos a depender do exterior para responder a necessidades energéticas que podem ser parcialmente satisfeitas através de soluções nacionais.

A eletrificação é frequentemente apresentada como a principal solução para a descarbonização dos transportes. Que papel devem desempenhar os combustíveis renováveis e a bioenergia avançada neste processo, sobretudo nos setores mais difíceis de eletrificar?

Costumo dizer que Portugal está a avançar a velocidades diferentes nesta missão de descarbonizar e que, para que a transição energética seja eficaz, resiliente e equilibrada do ponto de vista ambiental e económico, não podemos depender apenas de uma única solução. A eletrificação terá, naturalmente, um papel relevante, mas não será suficiente para responder a todas as necessidades. É sobretudo nos setores mais difíceis de eletrificar, como o transporte pesado e de mercadorias, a aviação, o transporte marítimo e a indústria, que os combustíveis renováveis e a bioenergia avançada podem desempenhar um papel determinante. São setores com necessidades específicas de autonomia, desempenho e densidade energética que tornam a eletrificação mais complexa.

A bioenergia avançada tem ainda a vantagem de poder ser integrada nas infraestruturas e nos equipamentos existentes, permitindo reduzir emissões sem exigir uma substituição imediata de toda a frota ou infraestrutura energética. É uma solução madura e com impacto imediato na descarbonização, enquanto outras soluções tecnológicas continuam a ganhar escala. Não se trata, por isso, de colocar a eletrificação e a bioenergia em oposição, mas sim de as tornar complementares. A transição energética será tanto mais eficaz quanto mais diversificado for o seu mix de soluções, permitindo descarbonizar diferentes setores ao ritmo a que cada um consegue evoluir e evitando que os custos e as limitações de uma única tecnologia condicionem o processo como um todo.

Portugal tem condições para se afirmar como um produtor relevante de combustíveis renováveis e de biometano ou corre o risco de ficar dependente de tecnologia e produção desenvolvidas noutros mercados?

Portugal tem condições para se afirmar como um importante polo de produção de bioenergia avançada, mas esse potencial exige maior investimento e, sobretudo, uma melhor utilização da capacidade que já temos instalada. Atualmente, utilizamos menos de 40% da capacidade total disponível para a produção de biocombustíveis, o que significa que existe ainda uma margem significativa para crescer sem partir necessariamente do zero. Temos recursos endógenos, conhecimento técnico, capacidade industrial e uma cadeia de valor, com diferentes operadores, que se tem consolidado de forma muito significativa nos últimos anos. O desafio está em transformar esta base numa maior capacidade produtiva e num maior número de projetos à escala nacional. E é aqui que continuamos a encontrar alguns dos principais obstáculos, nomeadamente desafios regulatórios.

Precisamos, por isso, de criar condições para transformar os recursos e capacidade instalada em energia e valor dentro do país. Isso passa, principalmente, por garantir um quadro regulatório estável e previsível, capaz de sustentar decisões de investimento a médio e longo prazo. Na ABA, defendemos as misturas mais ricas e metas mais ambiciosas precisamente porque acreditamos que são um instrumento para criar essa dinâmica e dar maior escala ao setor.

Para além da redução das emissões, que impacto económico poderá o desenvolvimento da bioenergia avançada ter em termos de investimento, criação de emprego e dinamização dos territórios?

Mencionei anteriormente o potencial da bioenergia avançada na criação de emprego. O desenvolvimento de novas unidades de produção e biorrefinarias cria oportunidades de trabalho em várias frentes, desde a recolha e gestão de resíduos agrícolas e florestais até à operação industrial, investigação e desenvolvimento e certificação, contribuindo para a criação de emprego mais qualificado. Mas, para mim, a dinamização dos territórios é uma das dimensões mais relevantes deste impacto.

Muitos dos resíduos que podem alimentar esta fileira estão distribuídos por todo o território nacional, o que permite levar a atividade económica e o emprego qualificado que resultam do investimento no setor para fora dos grandes centros urbanos e contribuir, desta forma, para a fixação de população em territórios de baixa densidade. Estamos perante um modelo de produção que é essencialmente mais descentralizado e que cria um efeito multiplicador de investimento, inovação e atividade económica em torno de cada unidade. É uma oportunidade concreta para valorizar recursos locais, criar novas cadeias de valor e contribuir para combater a desertificação do interior.

Ao longo destes sete anos, a ABA tem procurado aproximar decisores políticos, indústria e comunidade científica, nomeadamente através da B+Summit. Considera que o diálogo entre estes diferentes atores é hoje mais sólido ou continuam a existir barreiras que dificultam a implementação de projetos?

Sim, considero que esse diálogo é hoje mais sólido e mais estruturado do que era há sete anos. Existe hoje uma maior proximidade entre empresas, decisores políticos, reguladores e comunidade científica, e espaços como a B+Summit, que já organizamos tanto a nível nacional como europeu e com várias edições, têm sido importantes precisamente para criar esse ponto de encontro e permitir uma discussão mais informada sobre os desafios e oportunidades da bioenergia avançada. Essa dimensão de diálogo estende-se também ao contexto europeu, através da cooperação da ABA com algumas das principais associações que representam o setor dos biocombustíveis líquidos e gasosos, como a EWABA – European Waste-based & Advanced Biofuels Association e a European Biogas Association. Esta ligação permite-nos acompanhar mais de perto a evolução das políticas europeias, partilhar conhecimento e trazer para Portugal experiências e perspetivas de outros mercados. Para a ABA, este trabalho de aproximação sempre foi uma parte essencial da nossa missão.

Dito isto, é natural que existam ainda barreiras que dificultam o desenvolvimento do setor. Continuamos a precisar de que este diálogo se traduza em processos mais céleres e numa maior articulação entre entidades e operadores. É também por isso que continuamos a investir em iniciativas como a B+Summit e, mais recentemente, os Brinner Talks, que são encontros trimestrais, organizados pela ABA e pelos seus associados, nos quais se promove a reflexão e o debate sobre o papel da bioenergia avançada na matriz energética nacional. Mais do que criar espaços de diálogo, queremos aproximar diferentes intervenientes, dentro e fora de Portugal, e contribuir para um setor mais informado, resiliente e conectado.

Que lições retirou a associação destes sete anos de atividade e de que forma essas aprendizagens influenciam as prioridades para a próxima década?

Uma das principais lições que se retira destes sete anos é que uma atuação consistente e articulada entre empresas, academia, reguladores e decisores políticos pode gerar resultados concretos. Quando existe uma representação organizada e um trabalho continuado, é possível dar maior visibilidade ao setor e reforçar a sua influência no debate político. A própria razão de ser da ABA nasceu dessa necessidade. Depois, por outro lado, aprendemos que promover a literacia sobre o setor é um trabalho que não se extingue apenas no público em geral, mas também engloba empresas e entidades representativas. A necessidade de esclarecer e desmistificar os diferentes conceitos abrangidos pela bioenergia avançada e de demonstrar também o crescimento do setor é fundamental e requer de nós, associações e empresas do setor, um investimento extra.

É por isso que, na ABA, dinamizamos, entre outras iniciativas, um relatório anual, onde reunimos e analisamos os principais dados e indicadores do setor, procurando dar uma visão rigorosa sobre a sua evolução e contribuir para um debate mais informado. Este objetivo de contribuir para a literacia do setor é algo que ambicionamos continuar na próxima década. Felizmente, temos hoje um debate mais estruturado, mas isso não significa que todos os conceitos estejam consolidados ou que o conhecimento sobre o setor seja transversal. À medida que surgem novas tecnologias e novos enquadramentos regulatórios, surge também a necessidade de continuar a esclarecer e a aproximar estes temas de diferentes públicos. É um trabalho que não tem fim e que queremos continuar a fazer, com cada vez mais rigor e informação.

Se tivesse de identificar três medidas prioritárias para acelerar o desenvolvimento da bioenergia avançada em Portugal, quais seriam?

A primeira seria, sem dúvida, concluir a transposição da RED III para o enquadramento nacional, com obrigações robustas e específicas de incorporação de biocombustíveis avançados, líquidos e gasosos. Precisamos de metas claras e previsíveis para orientar o desenvolvimento do setor. Depois, destacaria a importância de reforçarmos o mercado do biometano, criando melhores condições para a ligação à rede e para a sua integração no mercado energético. Precisamos de um enquadramento estável e previsível que dê confiança aos operadores e investidores e permita acelerar a concretização dos projetos. E, por fim, a necessidade de reforçar a produção nacional, aproveitando melhor a capacidade industrial que já temos instalada e criando condições para novos projetos e unidades de produção. Se conseguirmos conjugar estabilidade regulatória, mecanismos de mercado funcionais e capacidade produtiva, podemos transformar a bioenergia avançada num ativo estratégico para a autonomia energética e para a competitividade da economia portuguesa.

Olhando para 2035, como gostaria que fosse o setor da bioenergia avançada em Portugal? Que metas considera realistas e que papel espera que a ABA continue a desempenhar nesse percurso?

Em 2035, gostaria de ver a bioenergia avançada totalmente integrada na matriz energética nacional, com maior capacidade para responder à procura interna e com uma produção nacional mais forte e competitiva. Gostaria de ver essa evolução traduzida, por exemplo, em aviões a utilizar SAF produzido a partir de matérias-primas sustentáveis, mais embarcações movidas a biocombustíveis e uma maior incorporação de biocombustíveis avançados no transporte rodoviário, através de misturas mais ricas. Tudo isto acompanhado por uma utilização mais eficiente da capacidade industrial que já temos, pela entrada em funcionamento de novas unidades de produção e pelo desenvolvimento de projetos de maior escala.

No caso do biometano, em concreto, considero realista a ambição de termos uma fileira plenamente consolidada, com uma rede de projetos distribuída pelo território e capaz de aproveitar de forma mais eficiente os resíduos agrícolas, pecuários, urbanos e agroindustriais disponíveis. O PAB estabelece já uma trajetória concreta de crescimento, sendo possível aumentar de forma significativa o peso do biometano na substituição do gás natural. Para 2035, seria desejável que estivéssemos a meio desse caminho, com os projetos necessários já em funcionamento e outros em fase avançada de concretização.

Quanto ao papel da ABA, gostaria que continuássemos a ser, cada vez mais, uma voz representativa do setor, mas também um agente ativo na promoção de conhecimento e diálogo, contribuindo para que a ambição e as metas definidas possam traduzir-se em resultados concretos e palpáveis. Se hoje estamos sobretudo a discutir o potencial da bioenergia avançada, gostaria que em 2035 estivéssemos a discutir os resultados concretos que Portugal conseguiu alcançar e o exemplo que podemos ser para outros países nesta área.

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