Depois dos incêndios devastadores de 2017, dos quais Pedrógão Grande é o grande símbolo, assistiu-se a uma mobilização política e estrutural para evitar novos episódios de tamanha destruição.
Apostou-se no reforço do registo dos terrenos, criou-se a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) para “colmatar as principais lacunas” nas respostas aos fogos e melhorar a articulação entre entidades, houve uma redução do número de incêndios (mas não se refletiu na dimensão da área ardida), mais investimento foi canalizado para os meios de combate, incrementou-se a monitorização e a consciencialização da população sobre o assunto.
Contudo, este ano parece que todos esses esforços saíram porta fora. Ao dia 19 de agosto, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) contabilizava 201.419 hectares de área ardida desde o início do ano, com 6.480 incêndios, 45% em povoamento e 42% em zonas de matos. O ano de 2025 é já considerado o segundo pior desde 2017 em termos da dimensão da área ardida.
Os impactos não são meramente económicos. Refletem-se em vidas humanas destruídas, em vidas não-humanas perdidas, em paisagens reduzidas a cinzas e a uma Natureza enegrecida pela voracidade das chamas.

O que continua a falhar? Quais as principais causas e consequências? Helena Freitas, Professora Catedrática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, bióloga e investigadora científica, ajuda-nos a perceber o que está a acontecer e onde é preciso atuar com urgência.
Em 2017, os incêndios de grandes dimensões que marcaram a paisagem portuguesa serviram de mote para uma séria de promessas governamentais de que um desastre como esse não voltaria a acontecer. Contudo, este ano voltámos a ser confrontados dolorosamente com fogos massivos no Norte e Centro do país. Continuamos a falhar na prevenção? Mudou alguma coisas nos últimos oito anos?
Houve avanços pontuais: o BUPi ajudou a começar a responder à fragmentação fundiária, a criação da AGIF trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal, a vigilância tecnológica progrediu, a proteção civil ganhou meios, e os contratos de meios aéreos tornaram-se mais transparentes. Mas no essencial pouco mudou.
A floresta continua dominada por monoculturas inflamáveis, a governança permanece dispersa e incoerente, e as comunidades rurais continuam abandonadas e sem retorno económico justo.
E continuamos a falhar em reconhecer o declínio silencioso dos ecossistemas. O aumento da acumulação de biomassa – alimentado por primaveras mais longas e produtivas e pelo abandono das práticas agro-silvo-pastoris – intensifica o risco de incêndio. Ao mesmo tempo, solos e árvores vivem sob stress hídrico, perdendo fertilidade, biodiversidade e resiliência. Esta degradação invisível não entra nos modelos simplificados de gestão e torna o território ainda mais vulnerável.
O que tornou estes incêndios tão avassaladores? Sabe-se que há mão criminosa em alguns, negligência noutros, mas a dimensão que os fogos assumiram deve-se realmente a quê? É às alterações climáticas, à falta de limpeza dos terrenos, à composição da própria floresta?
A conjugação de três fatores: alterações climáticas (ondas de calor, secas prolongadas, ventos imprevisíveis), abandono rural (perda de agricultura e pastorícia extensivas, que antes geriam combustíveis) e a composição da floresta (monoculturas de eucalipto e pinheiro, matos e espécies exóticas infestantes).
Mas o fogo alastra porque encontra paisagens fragilizadas por um processo ecológico mais profundo: combustíveis finos acumulados em excesso, solos empobrecidos e ecossistemas que já perderam parte da sua capacidade de regeneração. A faísca pode ser criminosa ou negligente, mas a catástrofe nasce de uma paisagem em colapso funcional.
Pelas redes sociais, que são terreno fértil para esse tipo de coisas, circulam várias teorias sobre motivações para o fogo posto. Uns dizem que existem interesses económicos subjacentes, para libertação de área florestada para construção, para instalação de painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas, para a exploração mineral, como o lítio, para a exploração de madeira. Haverá alguma ponta de verdade nestas alegações?
Existem interesses sobrepostos na floresta portuguesa, mas não há provas consistentes de que os grandes incêndios sejam deliberadamente provocados para abrir espaço a projetos económicos. O que existe é um modelo económico que depende de matéria-prima barata e tolera uma floresta de risco.
A verdadeira conspiração é estrutural: manter um sistema florestal insustentável, onde os custos coletivos – incêndios, erosão, perda de biodiversidade – são tornados invisíveis. Invisíveis como o declínio progressivo da resiliência ecológica, que não aparece nas contas, mas condiciona todo o futuro.
A cobertura mediática, reativa aos acontecimentos, tem-se focado muito nos danos a propriedades, nos prejuízos económicos. Mas há outros danos, talvez ainda incalculáveis, relativamente aos impactos na Natureza, na biodiversidade, nos animais, selvagens e domésticos. Vários fogos atingiram áreas protegidas e zonas de ocorrência de espécies ameaçadas, como o lobo-ibérico. Considera que os fogos terão um forte impacto na biodiversidade em Portugal? Poderá desviar o país do caminho em direção às metas internacionais de 2030?
Os incêndios devastam ecossistemas inteiros, atingem áreas protegidas e reduzem o habitat de espécies ameaçadas. As perdas não são apenas económicas: são ecológicas e muitas vezes irreversíveis. Isto compromete o cumprimento das metas internacionais de restauro da natureza e biodiversidade até 2030.
Quando os ecossistemas ultrapassam limiares críticos (tipping points), deixam de se regenerar e colapsam em estados degradados, pobres em biodiversidade e altamente inflamáveis. Cada incêndio não é apenas um episódio, é um passo potencial em direção ao ponto de não retorno.
Especificamente sobre o lobo, a sul do rio Douro está a subpopulação mais vulnerável da subespécie ibérica, nos distritos de Aveiro, Viseu e Guarda. Com esta tremenda perda de habitat e de presas selvagens, é possível que se venham a registar declínios ainda maiores?
Esta subpopulação já era a mais vulnerável. A perda de habitat e de presas selvagens causada pelos incêndios aumenta ainda mais a sua fragilidade. O risco é de declínios populacionais acentuados, maior dependência do gado doméstico e intensificação de conflitos.
A paisagem queimada não é neutra: ao perder fertilidade e estrutura, reduz também a base ecológica de que dependem tanto o lobo como as suas presas. A continuidade desta população está em causa sem medidas urgentes de proteção e restauro.
Muitas das zonas afetadas são também áreas onde ainda persistem algumas formas de pastorícia tradicional, extensiva. Poderá essa prática ancestral, e em desaparecimento, ser ainda mais pressionada? Considera que a perda da pastorícia extensiva pode ser uma das causas do estado vulnerável das florestas e paisagens serranas, por onde o fogo passou?
A pastorícia extensiva é uma prática em declínio e os incêndios aceleram essa perda. Contudo, é precisamente a ausência de pastorícia – que controlava matos e geria a biomassa – uma das causas da vulnerabilidade atual.
O paradoxo é que, ao desaparecer, a pastorícia deixou espaço para a acumulação descontrolada de combustíveis, criando ecossistemas mais inflamáveis e menos produtivos. Recuperar práticas agro-silvo-pastoris é essencial tanto para a economia rural como para restaurar a resiliência ecológica perdida.
A Ciência diz-nos que os incêndios tenderão a ser mais frequentes e de maiores dimensões à medida que as alterações climáticas avançam. É de esperar que fenómenos como este que agora vivemos voltem a acontecer? A culpa é mesmo das alterações climáticas?
Sim. A ciência é clara: à medida que o clima aquece, os incêndios serão mais frequentes, mais intensos e mais longos. Surgem já fenómenos de “sexta geração”, em que o fogo cria o seu próprio clima.
Mas reduzir o problema apenas às alterações climáticas seria ilusório. O que se está a passar é um declínio estrutural dos ecossistemas, marcado pela acumulação de biomassa, perda de fertilidade do solo e stress hídrico crescente. Estes fatores silenciosos aumentam a probabilidade de que cada fogo empurre a paisagem mais perto de um limiar crítico.
O que deveria mudar para reforçar a prevenção e combate aos incêndios? É aumentar as penas aos perpetradores de tais crimes, como alguns pedem, é uma reforma profunda da floresta? Como é que podemos incutir maior resiliência e proteção à floresta em Portugal?
A floresta portuguesa tem de deixar de ser um barril de pólvora para se tornar um território fértil, multifuncional e resiliente.
A solução exige uma reforma estrutural da floresta, com diversificação de espécies, mosaicos resilientes, integração da agricultura e da biodiversidade; uma nova economia florestal, com menos extrativismo, mais produtos de valor acrescentado e sustentáveis; uma governança descentralizada, com técnicos e meios próximos do território, com gestão conjunta; instrumentos inovadores, como bancos públicos de terras, pagamentos por serviços de ecossistema, créditos de biodiversidade; e a participação das comunidades, através de incentivos claros, serviços dos ecossistemas, retorno justo e restauro da confiança social.
E sobretudo, o reconhecimento de que a degradação invisível – perda de fertilidade, colapso funcional, pontos de não retorno – já está em curso. Sem integrar esta realidade nas políticas, continuaremos a gerir sintomas e não causas.









