Entrevista: “Muitas empresas estão habituadas a soluções baseadas em plásticos ou metais e têm receio de experimentar alternativas”



Muitas empresas portuguesas continuam presas a soluções tradicionais em plástico e metal, mas a AlmaScience prova que é possível apostar em tecnologia sustentável sem comprometer desempenho ou lucro. Em entrevista à Green Savers, Carlos Silva, Presidente e CEO da AlmaScience, explica como o laboratório transforma investigação em protótipos funcionais com impacto real na indústria. O objetivo é impulsionar a eletrónica verde e materiais circulares no mercado nacional.

Criada em 2020, a AlmaScience surgiu para colmatar uma lacuna na inovação nacional: aproximar a investigação científica das necessidades reais das empresas. Com uma equipa multidisciplinar que junta químicos, engenheiros, especialistas em design e negócio, o laboratório desenvolve soluções práticas como sensores de papel biodegradáveis, rótulos de hidrogel e sistemas inteligentes para retalho, mostrando que sustentabilidade e desempenho podem coexistir.

O projeto desafia a resistência das empresas a abandonar métodos convencionais, defendendo que materiais naturais e processos de baixo impacto ambiental podem ser igualmente eficazes. Iniciativas como o PaperWeight AI ou a PetriTag comprovam que produtos verdes podem ser comercialmente viáveis e escaláveis. Para Carlos Silva, Portugal tem potencial para liderar a transição para a eletrónica verde, mas é preciso coragem empresarial, regulamentação adequada e pioneiros que abram caminho à inovação sustentável.

A AlmaScience nasceu com um propósito muito claro de promover a eletrónica verde. O que motivou a criação deste laboratório e que lacuna veio colmatar no panorama nacional da inovação?

A AlmaScience nasceu em 2020 com o objetivo de responder diretamente a um problema do nosso mercado – a necessidade de se encurtar a distância entre a investigação de ponta e as necessidades reais da indústria na área da sustentabilidade. Acreditamos que ao facilitar este contacto, conseguimos fazer parte da solução para aumentar a competitividade e promover a adoção de tecnologias por parte do tecido empresarial português.

Cinco anos depois, o balanço é muito positivo porque os líderes de mercado valorizam esta agilidade na execução e a entrega de protótipos funcionais.

Como é que a AlmaScience concilia o rigor científico com a necessidade de criar soluções tecnológicas que tenham aplicação prática e valor comercial?

Na AlmaScience, o rigor científico e a aplicabilidade prática não são objetivos separados — trabalham em conjunto desde o primeiro dia com o intuito de criar soluções sustentáveis, que do ponto de vista ecológico quer do ponto de vista económico.

A nossa equipa multidisciplinar inclui cerca de 25 doutorados e mestres em áreas como química, ciência dos materiais e eletrónica, mas também especialistas em desenvolvimento de produto e negócio. Esta combinação garante que a excelência científica está sempre ao serviço de uma aplicação prática.

O nosso processo começa com um workshop de inovação com cada parceiro, onde mapeamos os seus desafios reais. A partir daí, construímos agendas de I&D com objetivos comerciais claros, marcos mensuráveis e prazos definidos. Trabalhamos em ciclos curtos, com provas de conceito rápidas e protótipos funcionais.

Os nossos investigadores não estão isolados em laboratórios — integram equipas que trabalham lado a lado com as empresas. O segredo está em falar simultaneamente a linguagem da ciência e a linguagem dos negócios, garantindo que cada projeto tem viabilidade técnica e comercial.

O vosso laboratório em Almada é descrito como um espaço de investigação aplicada. Pode explicar-nos o que distingue este modelo de um laboratório tradicional de investigação?

Tal como o nome indica, o facto de sermos um laboratório de investigação aplicada significa que tudo o que desenvolvemos tem aplicação prática. Para nós, passar da teoria à prática é a premissa mais importante, por isso, trabalhamos com foco na aplicabilidade e escalabilidade industrial desde a fase de conceção. Quando chega o momento de testar em contexto real, estamos 100% preparados para o fazer.

A AlmaScience aposta em materiais naturais e processos de baixo impacto ambiental. Quais são os principais desafios em trabalhar com este tipo de materiais em vez dos convencionais?

O principal desafio é demonstrar que materiais naturais como o papel e a celulose podem ter o mesmo desempenho — ou até superior — que os materiais convencionais, mas de forma sustentável.

Trabalhar com materiais naturais exige inovação constante. Temos de desenvolver processos de funcionalização que permitam criar sensores, componentes eletrónicos e materiais ativos a partir de papel, mantendo a fiabilidade e a eficiência que o mercado exige.

Outro desafio é a mudança de mentalidade. Muitas empresas estão habituadas a soluções baseadas em plásticos ou metais e têm receio de experimentar alternativas. Por isso, é fundamental demonstrar através de protótipos funcionais e testes reais que as nossas soluções são não só sustentáveis, mas também comercialmente viáveis e competitivas.

Felizmente, contamos com uma base florestal extraordinária em Portugal e com conhecimento profundo sobre transformação de celulose. Isto dá-nos uma vantagem competitiva natural para liderar esta transição para materiais mais sustentáveis e funcionais.

Um dos conceitos centrais que defendem é o da “vida útil apropriada”. Pode explicar-nos melhor esta ideia e como é que ela se traduz na prática dos vossos projetos?

Este conceito é uma consequência natural da nossa aposta em desenvolver soluções economicamente sustentáveis. Ou seja, acreditamos que a tecnologia deve durar exatamente o tempo que for útil, porque depois de cumprir a sua missão, passa a ser apenas um resíduo. E este aspeto é particularmente relevante em áreas como a eletrónica. As nossas soluções respeitam o ciclo de vida do produto, evitam desperdícios e encaixam-se num futuro circular.

Como é que a AlmaScience procura sensibilizar os seus parceiros e clientes para esta visão mais sustentável da tecnologia, que contraria a lógica do “quanto mais durável, melhor”?

Com a aplicação prática. A viabilidade prática e financeira do produto são os dois fatores que mais interessam aos nossos parceiros. Se demonstrarmos que, além de sustentáveis, as nossas soluções são comercialmente viáveis, o resto deixa de ser relevante. E para esta mudança de mentalidade tem contribuído o facto de a sustentabilidade já ser uma exigência natural por parte dos grandes líderes e das maiores empresas.

A AlmaScience tem desenvolvido soluções para diferentes setores – retalho, logística, alimentação e bebidas, entre outros. Há algum projeto que considere particularmente emblemático do vosso trabalho e da vossa filosofia?

Temos muito orgulho em todos os projetos, mas existem três que demonstram a polivalência da AlmaScience e que refletem o nosso posicionamento enquanto centro de inovação colaborativo com impacto real.

O PaperWeight AI, ou sensores de papel para prateleiras inteligentes em retalho. Ou seja, estes sensores comunicam diretamente para o armazém e avisam quando as prateleiras estão desfalcadas. Isto permite perceber em tempo real se é necessário repor os produtos, evitando falhas e tornando o processo mais eficiente. A PaperWeight AI (www.paperweight.ai) é a primeira spin-off da AlmaScience e a primeira spin-off originada por um CoLab nacional. Neste momento tem projetos-piloto a decorrer e/ou a iniciar em breve com diversos retalhistas em Portugal e no estrangeiro.

Temos também a PetriTag, que é um sensor biodegradável que se coloca em embalagens alimentares para deteção precoce de contaminação bacteriana.

Ou o GELA, que é um rótulo de arrefecimento rápido à base de hidrogel celulósico. Este gel acelera significativamente o processo de arrefecimento, de modo que uma garrafa de cerveja fica fria em poucos minutos. O projeto-piloto está em curso com um grande produtor de bebidas nacional.

Além deste projetos, o impacto da AlmaScience mede-se também em inovação gerada: entre 2020 e 2024 iniciámos 24 processos de patente, abrangendo 11 tecnologias distintas, e participámos em várias Agendas Mobilizadoras do PRR e projetos internacionais. Estes números refletem a nossa capacidade de transformar conhecimento em propriedade intelectual e valor económico.

O PaperWeight AI foi recentemente distinguida com o Prémio Nacional de Inovação. Que impacto espera que esta tecnologia tenha no setor do retalho e quais são os próximos passos na sua evolução?

O PaperWeight AI vai certamente revolucionar as prateleiras de todos os supermercados, porque o retorno de investimento é quase imediato e porque os estudos demonstram que, hoje em dia, os retalhistas estão a perder 2 a 6% das vendas por falhas na reposição. Não temos dúvidas de que as vantagens deste sistema, juntamente com a simplicidade da instalação e operação e a eficiência na recolha e tratamento de dados, vão ser rapidamente percebidas.

Este sistema é benéfico não só para os retalhistas como para os clientes e marcas porque os produtos passam a estar sempre disponíveis. E, sem ruturas de stock, não se perdem vendas.

O PetriTag e o GELA são exemplos de produtos com uma forte componente de utilidade prática. Como é que conseguem transformar ideias inovadoras em soluções prontas a integrar-se nos processos das empresas?

Transformamos ideias em soluções reais porque trabalhamos desde o início com os utilizadores finais. Cada projeto nasce de um desafio concreto identificado em conjunto com a indústria. A partir daí, aplicamos metodologias ágeis de I&D, com ciclos curtos de prototipagem e validação em contexto real. A nossa equipa combina ciência, engenharia e design de produto, garantindo que cada inovação é tecnicamente sólida, escalável e pronta a integrar-se nos processos industriais sem fricção.

A AlmaScience é uma organização sem fins lucrativos e trabalha num modelo de ecossistema com vários parceiros. De que forma esta abordagem colaborativa contribui para acelerar a inovação sustentável?

Esta abordagem permite uma enorme sinergia entre todos os envolvidos e a proximidade com que trabalhamos permite partilhar conhecimento, desafios e recursos. Por exemplo, os nossos investigadores não estão isolados; eles fazem parte de equipas multidisciplinares que incluem especialistas em produto, negócio e desenvolvimento de produto. Esta abordagem faz com que todos trabalhem em equipa e em simultâneo para um objetivo comum, sem se perder tempo com teorias que depois são inviáveis na prática.

Com nove associados de áreas tão distintas, como se garante uma visão comum e uma coordenação eficaz entre entidades académicas, empresariais e institucionais?

A chave está no propósito partilhado: transformar ciência em impacto sustentável. O nosso modelo de governação e os grupos de trabalho temáticos asseguram alinhamento entre academia, indústria e instituições. Trabalhamos com objetivos e métricas comuns, ciclos curtos de decisão e comunicação constante. Esta proximidade cria sinergias reais e garante que todos remam na mesma direção — inovação com propósito e valor para o mercado.

Que papel desempenham entidades como a Universidade Nova de Lisboa ou a Imprensa Nacional – Casa da Moeda neste ecossistema de inovação?

A Universidade Nova de Lisboa e a Imprensa Nacional – Casa da Moeda são pilares do nosso ecossistema: a NOVA assegura excelência científica e a INCM aporta visão industrial e experiência em inovação aplicada. Mas o valor da AlmaScience vem também da diversidade dos restantes associados — empresas, centros de investigação e entidades públicas — que trazem desafios reais, know-how especializado e recursos complementares. É esta combinação única que torna o ecossistema vivo, colaborativo e orientado para resultados com impacto sustentável.

Olhando para os próximos anos, quais são as áreas de investigação ou os setores onde vê maior potencial para a eletrónica verde e os materiais funcionais sustentáveis?

Os próximos anos serão decisivos para afirmar Portugal como referência em eletrónica verde e materiais sustentáveis. Vejo grande potencial em setores como embalagem inteligente, saúde, retalho e energia, onde a combinação entre sustentabilidade e digitalização cria novas oportunidades. Temos o talento, os recursos e o ecossistema, falta apenas acreditar mais na nossa capacidade de liderar e transformar conhecimento em impacto global.

Que ambições tem para a AlmaScience a médio prazo? Há planos de expansão internacional ou novos projetos em perspetiva?

A médio prazo gostava de ver a AlmaScience reconhecida como uma referência em inovação sustentável aplicada, com mais spin-offs bem-sucedidas e que tivesse duplicado a atual rede de associados. Isto seria sinal de que a nossa capacidade de investimento também seria maior, logo poderíamos assumir mais projetos e mais ambiciosos.

Daqui a 10 anos gostava que quando se pensasse em tecnologia sustentável, em Portugal ou no resto do mundo, a AlmaScience estivesse no top of mind enquanto laboratório de referência.

Na sua opinião, o que falta ainda a Portugal para se afirmar como um polo de referência na inovação sustentável e na tecnologia verde?

Falta que a sociedade e os decisores passem da teoria à prática, mais concretamente:

Que as empresas tenham coragem para implementar as mudanças que ser sustentável envolve, sobretudo nas cadeias de fornecimento e processos produtivos.

Do ponto de vista regulatório, é necessária regulamentação adequada que penalize o impacto ambiental negativo e incentive alternativas verdes, de modo a que seja vantajoso optar pela inovação sustentável.

E existe ainda a barreira da cultura do quanto mais duradouro, melhor. Mas, como já referi, em tecnologia, o importante é que esta dure enquanto for útil. É urgente comunicar melhor ao mercado e aos consumidores em geral sobre as vantagens de termos uma economia circular efetiva.

A par disto, falta um pioneiro que adote estas tecnologias, comprove a sua eficiência – e todos os outros vão querer seguir.

 

 

 

 

 

 






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