Entrevista a Tiago Pires: “O surf só faz sentido se o mar estiver cuidado”

No mês dedicado ao Ambiente e aos Oceanos, Tiago “Saca” Pires alerta para os desafios que continuam a ameaçar a qualidade da água nas praias portuguesas e defende uma maior responsabilidade coletiva na proteção do mar.

Ana Filipa Rego

Junho assinala duas das datas mais importantes do calendário ambiental – o Dia Mundial do Ambiente, celebrado a 5 de junho, e o Dia Mundial dos Oceanos, a 8 de junho. As comemorações acontecem num contexto que merece reflexão: segundo a associação ZERO, Portugal tem este ano menos oito praias distinguidas com o galardão “Praia Zero Poluição” do que em 2025, contabilizando agora 73 zonas balneares com esta classificação.

Para quem passa grande parte da vida dentro de água, estes indicadores têm um significado especial. Surfista profissional e profundo conhecedor da costa portuguesa, Tiago “Saca” Pires acompanha de perto a evolução da qualidade ambiental das praias e considera que, apesar dos progressos registados nas últimas décadas, persistem desafios relacionados com a poluição, a pressão urbanística e a necessidade de reforçar a sensibilização para a proteção dos ecossistemas marinhos.

Em entrevista à Green Savers, Tiago Pires analisa o que estes dados revelam sobre o estado das águas balneares em Portugal, fala do papel dos surfistas na monitorização de problemas ambientais e reflete sobre a importância de preservar o oceano para as gerações futuras. A conversa surge também a propósito da 6.ª edição do Softboard Heroes, o maior evento solidário de surf em Portugal do qual Tiago é organizador, que regressou à Praia da Física, em Santa Cruz, e que já permitiu angariar quase 100 mil euros para associações nacionais.

Junho é marcado pelas celebrações do Dia Mundial do Ambiente e do Dia Mundial dos Oceanos. Que significado têm estas datas para quem passa grande parte da vida dentro de água?

Para nós, surfistas, o mar é o nosso espaço de trabalho e de ligação com a natureza. Por isso, tudo o que diz respeito à sua proteção e preservação tem um grande significado. Ao longo dos anos, ganhamos ainda mais consciência de como o oceano está frágil e de como pequenas atitudes podem fazer a diferença. Estas datas servem para reforçar essa responsabilidade e lembrar que o surf só faz sentido se o mar estiver cuidado.

A associação ZERO anunciou que Portugal tem este ano menos praias classificadas como “zero poluição” do que no ano passado. Como recebeu estes dados?

Recebi esses dados com alguma preocupação, mas também com a noção de que não são totalmente inesperados. Infelizmente, já sabemos que a pressão sobre os ecossistemas marinhos e costeiros é crescente. Estes números devem servir como alerta e incentivo para comportamentos mais responsáveis. Ainda há muito trabalho a fazer, tanto a nível individual como coletivo, para proteger melhor as nossas praias e o oceano.

Enquanto surfista que conhece grande parte da costa portuguesa, sente que a qualidade da água balnear tem evoluído positivamente ou ainda persistem problemas preocupantes?

Nota-se uma evolução positiva. Houve um esforço evidente em infraestruturas e em sensibilização, o que acabou por se refletir na qualidade da água em várias praias que, atualmente, estão muito melhor do que há uma ou duas décadas. Ainda assim, não dá para ignorar que persistem problemas em alguns locais, nomeadamente em zonas mais pressionadas por urbanização ou com sistemas de saneamento menos eficazes. Apesar das melhorias, é um trabalho que não está concluído. Serve como um alerta constante para não baixar a guarda e continuar a investir na proteção da costa.

Os surfistas estão frequentemente entre os primeiros a detetar alterações no estado do mar e das praias. Que sinais de degradação ambiental observa com mais frequência?

Diria que um dos mais notórios é a presença de lixo nas praias e na linha de água, principalmente após períodos de maior chuva ou maior pressão turística. Também é cada vez mais comum encontrar alterações na cor ou no aspeto da água em certos dias, o que muitas vezes está ligado a descargas ou escorrências.

Outro sinal que não passa despercebido é a própria mudança no equilíbrio das praias, zonas que perdem areia mais depressa ou dunas mais frágeis. São indicadores que, para quem está no mar com frequência, mostram que o ecossistema está em constante pressão e que precisa de mais cuidado e atenção.

A poluição marinha é muitas vezes associada aos plásticos, mas existem outras formas de contaminação menos visíveis. Quais são as que mais o preocupam?

Preocupam-me bastante as contaminações menos óbvias, como as descargas de águas residuais e os contaminantes químicos que acabam por chegar ao mar. Não costumam ser facilmente identificáveis a olho nu, mas têm impacto direto na qualidade da água e nos ecossistemas.

Até que ponto a qualidade da água influencia a prática do surf e a saúde dos praticantes?

Quando a água está limpa, o surf é mais seguro e agradável. Porém, quando existem níveis de contaminação elevados, o risco de infeções, irritações e outros problemas de saúde aumenta significativamente, algo que qualquer surfista já sentiu em algum momento. Para além do impacto imediato no bem-estar, também há uma questão de consciência. Não se trata apenas de surfar boas ondas, temos de nos certificar que o oceano continua saudável e utilizável no futuro.

Considera que existe hoje uma maior consciência ambiental por parte da comunidade surfista relativamente ao que acontecia há uma ou duas décadas?

Sem dúvida. Sente-se não só na forma como os surfistas olham para o mar, mas também nas escolhas do dia a dia e na forma como participam em iniciativas de proteção ambiental. Claro que há ainda um longo caminho a percorrer, contudo é inquestionável que a informação e a proximidade constante com o oceano ajudaram a criar uma geração mais atenta e mais responsável. Atualmente fala-se mais sobre estes temas e age-se mais, o que já representa uma evolução importante.

Que papel podem desempenhar os surfistas na monitorização e denúncia de situações de poluição costeira?

Os surfistas estão no mar com muita frequência e em diferentes condições, o que lhes permite perceber rapidamente quando algo não está normal. Para além dessa observação, também podem ter um papel ativo na denúncia e na sensibilização, seja através de canais oficiais, associações ou até das redes sociais.

Portugal é frequentemente promovido como um destino de excelência para o surf. A preservação da qualidade ambiental das praias deve ser encarada também como uma questão económica e turística?

Claro. Portugal construiu uma reputação internacional muito forte como destino de surf e a maior parte dessa atratividade está diretamente ligada à qualidade das suas praias, das ondas e do ambiente natural que as rodeia. Se queremos continuar a atrair turistas e eventos de referência, é fundamental investir na conservação da costa e na qualidade da água, além de também investir na economia local, nos negócios ligados ao turismo e na sustentabilidade de um setor que tem um peso cada vez maior em muitas regiões do país.

Na sua opinião, quais são os principais desafios que Portugal enfrenta na prevenção da poluição costeira e marinha?

Penso que um dos principais desafios passa por prevenir a poluição antes de ela chegar ao mar. Por norma, o problema não começa na costa, mas sim nos rios, nas cidades ou em atividades que acabam por ter impacto nos ecossistemas marinhos. Logo, é primordial continuar a investir em infraestruturas, fiscalização e gestão eficiente dos recursos hídricos.

Por outro lado, existe também um desafio relacionado com a sensibilização e a mudança de comportamentos. A proteção do oceano não depende apenas das entidades públicas ou das organizações ambientais; depende de todos nós. Quanto maior consciência tivermos sobre a importância de preservar as praias e os oceanos, mais capacidade teremos para proteger este património para as próximas gerações.

Acredita que as políticas públicas e os investimentos realizados têm sido suficientes para proteger os ecossistemas marinhos e a qualidade das águas balneares?

Penso que foram dados passos importantes nos últimos anos e que há uma maior preocupação com a proteção dos ecossistemas marinhos e da qualidade das águas balneares. Os resultados alcançados em muitas zonas costeiras provam que os investimentos realizados tiveram impacto positivo.

No entanto, há margem para fazer mais. As pressões sobre a costa e os oceanos continuam a aumentar, seja pelo crescimento urbano, pelo turismo ou pelas alterações climáticas. Portanto, deve existir uma continuidade no investimento e na prevenção, para que os progressos alcançados não sejam colocados em causa no futuro.

Que comportamentos individuais continuam a fazer falta para reduzir o impacto humano nos oceanos?

Reduzir o consumo de plástico descartável, fazer uma gestão mais responsável dos resíduos, evitar deixar lixo nas praias e respeitar os espaços naturais são, por exemplo, gestos simples que, quando multiplicados por milhares de pessoas, fazem uma enorme diferença.

Além disso, quando conhecemos e valorizamos um ecossistema, tendemos naturalmente a protegê-lo melhor. A sensibilização e a educação continuam a ser ferramentas indispensáveis para promover hábitos mais conscientes e uma relação mais sustentável com os oceanos.

O Softboard Heroes regressa este mês para a sua sexta edição. Como nasceu a ligação a este projeto e o que o motiva a continuar envolvido?

O Softboard Heroes nasceu de forma muito natural, a partir da vontade de criar algo diferente no surf, que juntasse boas energias e uma causa solidária. A ideia foi ganhando forma com base nessa visão e acabou por se transformar num projeto muito especial ao longo dos anos. É precisamente isso que me motiva a continuar. O impacto que o evento tem nas instituições que apoiamos, ver o crescimento da iniciativa, onde já doámos mais de 100 mil euros, a forma como as pessoas se identificam com o conceito e o contributo real que conseguimos dar faz com que valha sempre a pena continuar.

Ao longo das várias edições, a iniciativa já angariou um valor significativo para associações nacionais. Qual considera ser o principal impacto do evento?

Acho que o principal impacto do Softboard Heroes vai muito além do valor angariado. Claro que os donativos são importantes e fazem diferença concreta no trabalho das associações, mas o mais marcante é a forma como o evento consegue juntar pessoas em torno de uma energia positiva e de um propósito comum. Ao longo das edições, criou-se uma dinâmica muito própria, onde o surf, a diversão e a solidariedade se cruzam de forma natural. Esse espírito acaba por inspirar quem participa e também quem acompanha.

O surf tem demonstrado uma crescente capacidade de mobilização para causas sociais e ambientais. Como vê esta evolução?

Cada vez mais vejo a comunidade a envolver-se em causas sociais e ambientais de forma consistente. Essa capacidade de mobilização mostra que o surf vai muito além do desporto. É uma cultura que consegue criar impacto e dar visibilidade a temas importantes. Acho que isso é uma das maiores forças da modalidade nos dias de hoje.

O evento reúne atletas, figuras públicas e participantes de diferentes idades e níveis de experiência. Que mensagem procura transmitir através desta diversidade?

A principal mensagem é a de que o surf e, sobretudo, este tipo de iniciativas, são para todos. Não interessa o nível de experiência, a idade ou a notoriedade de cada um; o que importa é a vontade de participar e de contribuir para uma causa comum. O Softboard Heroes é um evento inclusivo e descontraído, onde todos se encontram no mesmo espaço com o mesmo objetivo. No fundo, é isso que torna o evento tão especial e genuíno.

Na sua opinião, o desporto pode ser uma ferramenta eficaz para sensibilizar para temas como a solidariedade, a conservação dos oceanos e a sustentabilidade?

Seguramente. O desporto consegue chegar às pessoas de uma forma muito direta e emocional, capaz de sensibilizar para causas como a solidariedade, a conservação dos oceanos e a sustentabilidade. Quando estas mensagens surgem integradas numa experiência positiva e envolvente, como acontece no surf, tendem a ser mais facilmente interiorizadas.

Que legado gostaria que iniciativas como o Softboard Heroes deixassem junto das gerações mais jovens?

Gostaria que o principal legado fosse a ideia de que o surf e o desporto, no geral, podem ser muito mais do que competição. Que podem ser espaços de partilha, inclusão e responsabilidade social, onde todos têm lugar e onde é possível fazer a diferença. Se as gerações mais jovens levarem consigo essa noção, de que podem divertir-se, evoluir e, ao mesmo tempo, contribuir para algo maior, então o objetivo destas iniciativas está realmente a ser cumprido.

Se tivesse de deixar uma mensagem aos portugueses neste mês dedicado ao ambiente e aos oceanos, qual seria?

Diria que o oceano não é algo distante, está mesmo ao nosso lado e faz parte da nossa vida quotidiana, mesmo quando não nos apercebemos disso. Tudo o que fazemos em terra acaba, de uma forma ou de outra, por chegar ao mar. Cada gesto conta. Cuidar do oceano é, no fundo, cuidar de nós próprios e do futuro que queremos deixar.

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