Entrevista: “A verdadeira questão já não é quanto custa investir em sustentabilidade, mas sim quanto custa ignorá-la”

Para Bárbara Bouçon, Managing Director do district.space, integrar a sustentabilidade na estratégia é uma forma de criar valor, reduzir riscos e preparar as empresas para um contexto económico e social cada vez mais exigente.

Ana Filipa Rego

Em entrevista à Green Savers, Bárbara Bouçon, Managing Director do district.space explica que a sustentabilidade não pode ser tratada como um custo adicional ou como uma iniciativa pontual, devendo estar presente nas decisões que definem o negócio. No district.space, os princípios ESG estão integrados desde a origem e influenciam escolhas como as localizações, os parceiros, os materiais utilizados e os programas desenvolvidos para as comunidades.

Esta visão estende-se também à forma como os espaços de trabalho podem contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos e para a regeneração urbana. A empresa defende que impacto positivo e rentabilidade podem caminhar lado a lado, através de modelos que promovam a eficiência, atraiam talento, reforcem a ligação às comunidades e tornem as organizações mais resilientes. “A sustentabilidade não é um departamento nem um conjunto de indicadores. É a forma como gerimos o negócio todos os dias”, sublinha Bárbara Bouçon.

O district.space nasceu com critérios ESG integrados desde o início. Na prática, como é que esses princípios influenciam as decisões estratégicas e operacionais da empresa?

No district.space, os princípios ESG não foram acrescentados ao projeto numa fase posterior, fazem parte da sua criação e orientam todas as decisões estratégicas e operacionais. Influenciam a forma como escolhemos as localizações, os parceiros com quem trabalhamos, os materiais que utilizamos, os programas que desenvolvemos para a comunidade e até a forma como planeamos a expansão da rede.

Procuramos que cada novo espaço tenha um impacto positivo no território onde se insere, privilegiando práticas de economia circular, soluções que promovam a eficiência na utilização dos recursos e uma relação próxima com o tecido empresarial e associativo local. Mais do que minimizar impactos negativos, queremos contribuir para criar valor duradouro para as empresas, para as pessoas e para as cidades. Para nós, a sustentabilidade não é um departamento nem um conjunto de indicadores. É a forma como gerimos o negócio todos os dias.

Muitas organizações falam hoje de sustentabilidade, mas nem sempre conseguem traduzi-la em ações concretas. O que é que distingue uma estratégia sustentável genuína de uma mera ação de comunicação?

A diferença está na coerência entre aquilo que a organização comunica e a forma como toma decisões. Quando a sustentabilidade faz parte da estratégia, influencia escolhas estruturais do negócio, não depende de campanhas pontuais nem surge apenas para responder a exigências regulatórias. Por outro lado, uma estratégia sustentável exige compromisso de longo prazo e traduz-se em ações consistentes, mesmo quando estas implicam investimentos ou mudanças na forma de trabalhar. Aliás, é precisamente essa continuidade que lhe confere credibilidade.

Hoje, colaboradores, investidores e clientes conseguem distinguir facilmente quando existe uma preocupação genuína e quando estamos apenas perante uma narrativa. A sustentabilidade deixou de ser uma questão reputacional para passar a ser um verdadeiro fator de confiança e de competitividade.

Ainda existe a ideia de que investir em sustentabilidade implica custos acrescidos. A sua experiência mostra que é possível conciliar impacto positivo e rentabilidade?

Sem dúvida. A verdadeira questão já não é quanto custa investir em sustentabilidade, mas sim quanto custa ignorá-la. Organizações mais eficientes na utilização dos recursos, capazes de atrair talento, responder às expectativas dos investidores e antecipar as exigências do mercado, tornam-se mais resilientes e competitivas.

A sustentabilidade não deve ser encarada como um custo adicional, mas como uma forma de reduzir riscos e de criar valor a longo prazo – um valor que se manifesta em eficiência operacional, retenção de talento, confiança dos parceiros e capacidade de preparar o negócio para um contexto económico cada vez mais exigente.

A nossa experiência demonstra que impacto positivo e rentabilidade não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, quando a sustentabilidade é integrada desde a génese de um projeto, torna-se um motor de crescimento e não um fator de limitação.

A dimensão ambiental tende a dominar o debate sobre ESG. Considera que os aspetos sociais e de governação continuam a receber menos atenção do que merecem?

Sim. A dimensão ambiental é essencial, mas não podemos esquecer que a sustentabilidade depende do equilíbrio entre os três pilares do ESG. Questões como a qualidade das condições de trabalho, a diversidade, a inclusão, a transparência, a ética ou a relação com as comunidades têm um impacto direto na capacidade das organizações criarem valor de forma sustentável. Um edifício energeticamente eficiente, por si só, não torna um projeto sustentável, se não contribuir para melhorar a experiência das pessoas ou gerar impacto positivo no território onde se insere.

Nos próximos anos, acredito que as dimensões social e de governação ganharão um peso crescente, exatamente porque são determinantes para construir organizações mais resilientes e preparadas para o futuro.

De que forma é que os espaços de trabalho podem contribuir para reduzir a pegada ambiental das empresas e dos seus colaboradores?

Os espaços de trabalho podem desempenhar um papel muito relevante, porque permitem otimizar a utilização dos recursos e reduzir desperdícios. Modelos flexíveis evitam áreas subutilizadas, promovem uma ocupação mais eficiente dos edifícios e reduzem investimentos redundantes em infraestruturas. Ao mesmo tempo, decisões relacionadas com eficiência energética, reutilização de mobiliário, economia circular ou gestão inteligente dos consumos também contribuem para diminuir o impacto ambiental da operação.

Existe, ainda, uma componente comportamental importante. Trabalhar diariamente num espaço onde todas estas práticas fazem parte da cultura promove a sensibilização dos utilizadores e incentiva hábitos mais responsáveis, tanto dentro como fora do contexto profissional.

A regeneração urbana é uma das apostas do district.space. Que papel pode desempenhar o setor privado na revitalização sustentável das cidades?

O setor privado tem um papel fundamental, porque reúne capacidade de investimento, inovação e execução. Quando este investimento é orientado por uma visão de longo prazo, pode ir muito além da recuperação física dos edifícios e contribuir para dinamizar a economia local, atrair novas empresas, criar emprego e reforçar a vitalidade das comunidades. Acreditamos que a regeneração urbana deve ser entendida como um processo integrado. Não basta reabilitar património, é necessário criar condições para que as pessoas queiram viver, trabalhar e investir nesses territórios.

É esta lógica que procuramos aplicar no district.space. Cada unidade é pensada em função da realidade da cidade onde se insere, estabelecendo parcerias locais, promovendo iniciativas de impacto e contribuindo para criar ecossistemas de colaboração que perduram para além do espaço físico.

Como é que um espaço de cowork pode gerar impacto social positivo nas comunidades onde está inserido?

Um espaço de cowork pode ser muito mais do que um local de trabalho. Pode funcionar como uma plataforma de ligação entre empresas, empreendedores, instituições, associações e comunidade local. Ao promover programas de formação, eventos, parcerias com organizações da região e oportunidades de colaboração entre os seus membros, cria redes de conhecimento e de cooperação que dificilmente surgiriam de forma espontânea.

Sente que as empresas que procuram os vossos espaços estão hoje mais preocupadas com critérios de sustentabilidade do que há cinco anos? O que mudou?

Sem dúvida. Há cinco anos, a sustentabilidade era, frequentemente, encarada como um fator diferenciador, mas hoje começa a assumir-se como um verdadeiro critério de decisão. Os empresários têm dúvidas mais fundamentadas, procuram compreender as práticas ambientais e sociais dos espaços onde se instalam e valorizam organizações que consigam demonstrar compromisso, através de ações e práticas concretas e não apenas de intenções.

Ao mesmo tempo, existe uma maior pressão por parte de investidores, clientes e colaboradores, que esperam níveis crescentes de responsabilidade, transparência e compromisso. Muitas organizações perceberam que estas questões têm um impacto muito direto e significativo na sua reputação, na capacidade de atrair talento e até na competitividade do negócio. Ainda existe caminho a percorrer, mas a mudança de mentalidade já é bastante evidente.

Na sua opinião, quais são os principais obstáculos que ainda impedem as empresas portuguesas de integrarem a sustentabilidade no centro da sua estratégia?

O principal obstáculo continua a ser a perceção de que a sustentabilidade representa apenas uma obrigação regulatória ou um centro de custos. Enquanto for encarada dessa forma, dificilmente será integrada nas decisões estratégicas da organização. Existe, também, alguma dificuldade em medir o impacto das iniciativas e em relacionar essas métricas com indicadores de negócio. Quando as empresas conseguem perceber que a sustentabilidade pode contribuir para aumentar a eficiência, reduzir riscos, atrair talento ou facilitar o acesso a investimento, a perspetiva altera-se significativamente.

Mais do que falta de intenção, diria que muitas organizações ainda enfrentam um desafio de integração. A sustentabilidade não pode estar concentrada numa área específica, tem de fazer parte da cultura da empresa e envolver a liderança, porque só assim influencia a forma como o negócio cresce.

Face aos desafios climáticos e sociais atuais, que mudanças considera urgentes na forma como as organizações pensam o crescimento e a criação de valor?

Precisamos de ultrapassar uma visão de curto prazo centrada, exclusivamente, nos resultados financeiros. O crescimento continuará a ser essencial, mas terá de ser acompanhado por uma maior responsabilidade na utilização dos recursos, na valorização das pessoas e na forma como as organizações contribuem para os territórios onde atuam.

As empresas mais competitivas serão aquelas que conseguirem integrar desempenho económico, impacto social e sustentabilidade ambiental numa única estratégia, deixando de tratar estas dimensões como objetivos independentes.

No futuro, a criação de valor será cada vez mais medida pela capacidade das organizações gerarem confiança junto de colaboradores, investidores, clientes e comunidades. Essa confiança não se constrói apenas através do que as empresas dizem, mas sobretudo pelas decisões que tomam e pelo impacto que deixam. É essa visão integrada que fará a diferença nas organizações mais preparadas para o futuro.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.