Num cenário marcado pela perda de biodiversidade, pela fragmentação dos habitats naturais e pelos impactos crescentes das alterações climáticas, a forma como nos relacionamos com as florestas ganha uma importância renovada. É precisamente dessa relação – muitas vezes distante e superficial – que parte Entre as Árvores, o mais recente espetáculo do Chão de Oliva, que convida o público a percorrer a Quinta da Ribafria, em Sintra, numa experiência que cruza criação artística, conhecimento científico e contacto direto com a natureza.
Em entrevista à Green Savers, a diretora artística Susana C. Gaspar explica como nasceu este projeto inspirado na complexidade do mundo vegetal e nas ligações invisíveis que sustentam os ecossistemas florestais. Através de uma abordagem sensorial e participativa, o espetáculo procura despertar a curiosidade sobre a vida das árvores e incentivar uma reflexão mais profunda sobre a necessidade de proteger os sistemas naturais dos quais dependemos.
Entre as Árvores propõe uma experiência imersiva em contacto direto com a natureza. Como nasceu a ideia de criar um espetáculo centrado na relação entre as árvores e as formas de comunicação que estabelecem entre si?
Em 2026, o Chão de Oliva está a dedicar a sua produção artística ao tema “ecogeografias”, onde estabelecemos uma relação direta entre arte e ciência e nos dedicamos a uma pesquisa artística sobre biodiversidade e alterações climáticas.

O tema que nos propomos a abordar no espetáculo “Entre as Árvores” surge, por isso, de forma muito natural. As árvores são seres complexos que, além de serem fundamentais para a vida humana e para a restante biodiversidade, comunicam de formas inesperadas entre si. Têm sensibilidade, memórias e vivem em comunidade. O espetáculo parte dessa descoberta científica, mas procura ir além da informação. Interessou-nos criar uma experiência sensorial e poética que convida o público a conhecer e interagir com a floresta de outra forma.
A peça inspira-se em obras científicas, literárias e poéticas, bem como em testemunhos de profissionais ligados às florestas. Como foi desenvolvido o processo de investigação e de que forma estas diferentes fontes influenciaram a criação artística?
O texto original recorre a literatura de ciência, livros como A Sabedoria das Árvores de Peter Wohlleben ou Como ler uma árvore, de Tristan Gooley, excertos de poesia, textos originais e relatórios com dados estatísticos e informações sobre as atuais ameaças à biodiversidade. Inspirou-se, também, no livro A Utilidade das Árvores, de Mário de Azevedo Gomes, editado pela Câmara Municipal de Sintra, que permite criar uma ligação ainda mais direta com o território onde esta primeira peça é encenada. Estes diferentes livros e vozes e as conversas que fomos tendo com algumas pessoas inspiraram o processo dramatúrgico. Foi difícil a seleção de todo o material e chegar à “montagem final”, pois tudo nos fascinava. Ainda assim, estamos contentes com o resultado. Com os diferentes textos e testemunhos, conseguimos expressar a pluralidade das características das árvores e aproximarmo-nos delas com uma outra perspectiva.
Nos últimos anos, tem aumentado o interesse público pelo chamado “mundo invisível” das árvores e das florestas. De que forma procuraram traduzir para o palco – ou, neste caso, para a paisagem – conceitos científicos complexos sem perder o rigor nem a dimensão poética?
A natureza é uma fonte inesgotável de novos saberes e de conhecimento científico. Essa linguagem mais técnica, porém, pode causar resistência por parte do público em geral. Acreditamos que a abordagem de livros como A Vida Secreta das Árvores ou Como ler uma árvore têm contribuído para despertar o interesse de mais pessoas. Não é por acaso que alguns desses livros se tornaram bestsellers. Há também uma curiosidade crescente por parte das pessoas, pois nem sempre se ensina na escola ou nem sempre a linguagem científica é clara o suficiente. Como não somos especialistas, não somos biólogas, o nosso processo foi uma espécie de filtro. Tivemos de conseguir compreender tudo, para depois explicar por palavras nossas.

Acreditamos que esse olhar distanciado, e também através da abordagem poética, pode ajudar a que outras pessoas percebam melhor alguns desses conceitos também. A dimensão poética ficou sempre presente na nossa abordagem. Deixamos que a paisagem despertasse a nossa imaginação, sem perder o rigor científico. Também tivemos a premissa, desde o ínicio, de alcançar diferentes públicos. E é por isso que surge a versão geral para “crescidos” e a versão adaptada para a infância. São experiências que acontecem em simultâneo para adultos e crianças, que têm acesso à mesma informação, mas com linguagens distintas (uma mais poética, e outra mais leve e brincada).
O espetáculo desafia o público a interagir com o espaço natural da Quinta da Ribafria. Que papel desempenham os espectadores na construção da experiência e como é que essa participação influencia cada sessão?
Sim, existe um convite a essa proximidade com a natureza. Trocar no tronco das árvores, cheirar, sentir. É uma experiência também muito sensorial. Como são grupos pequenos em cada sessão, existe uma cumplicidade muito forte entre atrizes e público e entre as pessoas do público também. Há uma partilha constante – pois todos são conduzidos através da experiência sonora e numa espécie de “bolha” dentro da paisagem. Acreditamos que cada sessão será diferente, consoante a interação do público. Se tivermos outra temporada num outro espaço o impacto será certamente diferente, pois o contexto natural que nos rodeia também será distinto. É, por isso, um espetáculo muito flexível e que poderá contar com diferentes abordagens.
A relação entre arte e natureza está no centro do ciclo Ecogeografias. Que potencial considera que as artes performativas têm para promover uma maior consciência ambiental e uma ligação mais profunda aos ecossistemas?
A natureza e a arte têm uma ligação histórica profunda. Há vários séculos que as encontramos em diálogo em diferentes formatos, quer seja em pinturas, esculturas ou mesmo no teatro. As artes performativas têm o poder de criar uma ligação direta e emocional com o público. Queremos, por isso, que este seja um espaço de partilha, sensibilização, mas que também crie memórias e ação junto do público, para que seja possível espoletar pequenas mudanças na forma como cada pessoa se relaciona com o planeta e, mais concretamente, com as árvores e florestas.
A escolha da Quinta da Ribafria, em Sintra, parece particularmente simbólica para este projeto. De que forma é que as características deste espaço influenciaram a dramaturgia, a encenação e o percurso proposto ao público?
A escolha da Quinta da Ribafria foi determinante desde o início do processo criativo. Ao desenvolver um espetáculo site-specific, procurámos que cada momento dialogasse com as características deste espaço, valorizando o seu património natural e criando uma relação de proximidade entre os espectadores e a paisagem. As árvores, os percursos, a luz, os sons naturais e a história deste espaço influenciaram a forma como a narrativa foi construída e como o público a experiencia.
Além disso, é um lugar que tem uma identidade própria e uma forte ligação ao território de Sintra, local com o qual o Chão de Oliva e a Companhia de Teatro de Sintra também têm uma ligação muito forte, pelo que fazia todo o sentido que fosse também um dos protagonistas deste espetáculo.
Num contexto marcado pela perda de biodiversidade e pelos impactos das alterações climáticas, acredita que o teatro pode contribuir para uma reflexão mais ampla sobre a forma como nos relacionamos com o mundo natural?
Acreditamos que sim. O teatro tem a capacidade de transformar temas complexos em experiências humanas e emocionais. Embora, por si só, não resolva os desafios ambientais que enfrentamos, pode criar espaços de reflexão, de diálogo e de questionamento que ajudam a despertar novas formas de olhar para o mundo.
O teatro tem ainda uma dimensão coletiva muito importante. É uma experiência vivida em comunidade, onde diferentes pessoas partilham o mesmo tempo e o mesmo espaço. Isso torna-o um lugar privilegiado para pensar os grandes desafios do presente e imaginar, em conjunto, formas mais sustentáveis de habitar o planeta.
O espetáculo foi concebido para públicos de diferentes idades e inclui versões áudio adaptadas para crianças e adultos. Quais foram os principais desafios de criar uma experiência simultaneamente acessível, educativa e artisticamente estimulante para toda a família?
O maior desafio foi encontrar uma linguagem que conseguisse envolver diferentes públicos sem simplificar em excesso os conteúdos nem perder a dimensão artística da criação. Procurámos construir um espetáculo que despertasse a curiosidade das crianças, mas que também proporcionasse momentos de reflexão aos adultos.

As versões áudio adaptadas permitem precisamente responder às diferentes formas de receção do espetáculo, tornando a experiência mais inclusiva e adequada às várias idades. O nosso objetivo nunca foi criar um espetáculo “para crianças” ou “para adultos”, mas sim uma experiência partilhada, onde cada pessoa, a partir da sua sensibilidade e do seu conhecimento, possa estabelecer uma relação própria com as árvores, com a floresta e com as questões ambientais que o espetáculo levanta.
Entre as Árvores integra várias medidas de acessibilidade, incluindo folhas de sala em braille, percurso adaptado e interpretação em Língua Gestual Portuguesa. Até que ponto a inclusão tem sido uma preocupação crescente nas criações do Chão de Oliva?
A inclusão e acessibilidade tem sido uma preocupação no trabalho mais recente desenvolvido pelo Chão de Oliva e faz parte da forma como pensamos os nossos projetos desde o início. Mais do que acrescentar medidas de acessibilidade no final do processo, procuramos que estejam integradas na conceção artística de cada criação, permitindo que um número cada vez maior de pessoas possa usufruir plenamente da experiência. Ainda estamos a aprender a fazê-lo, num processo de tentativa-erro, mas temos feito esse esforço, acompanhando o trabalho que também outras entidades artísticas têm feito.
Em Entre as Árvores, essa preocupação traduz-se em diferentes respostas de acessibilidade, como as folhas de sala em braille, a interpretação em Língua Gestual Portuguesa (será no dia 25 de julho) e os recursos áudio pensados para diferentes públicos (audidescrição, versão geral e versão infância e versão em inglês). Estas medidas refletem o compromisso de tornar a cultura mais inclusiva e de eliminar barreiras que continuam a limitar o acesso de muitas pessoas às artes performativas. Acreditamos que uma criação artística só está verdadeiramente completa quando pode ser vivida por públicos diversos.
Depois de mergulharem no universo das árvores e das florestas durante este processo criativo, que mensagem ou sensação gostariam que os espectadores levassem consigo quando regressarem ao quotidiano?
Gostaríamos que os espectadores saíssem da Quinta da Ribafria com um olhar diferente sobre as árvores e sobre a natureza que os rodeia. Muitas vezes passamos diariamente por estes seres vivos sem reparar na sua importância, na sua complexidade ou na forma como sustentam a vida no planeta.
Se o espetáculo conseguir despertar mais curiosidade, mais atenção e um maior sentimento de pertença em relação ao mundo natural, acreditamos que já terá cumprido uma parte importante da sua missão. Não esperamos que o público saia com respostas fechadas, porém com vontade de observar, de fazer perguntas e de estabelecer uma relação mais próxima e consciente com as árvores e com os ecossistemas de que fazemos parte.
No fundo, esperamos que esta experiência permaneça para além da última cena e que funcione como um convite a cuidar da natureza, reconhecendo que o nosso futuro está profundamente ligado ao equilíbrio e à preservação da biodiversidade. Além disso, queremos também que seja um incentivo para as pessoas continuarem a visitar o património natural de Sintra, em particular a Quinta da Ribafria. É um espaço rico em biodiversidade e história que merece ser (re)descoberto.









