Entrevista: “Cada Vinha Velha é um património vivo e a sua preservação depende do compromisso de todos”

José Carlos Fernandes, Diretor de Viticultura da Aveleda, defende, em entrevista à Green Savers, a valorização das Vinhas Velhas como um património essencial para a biodiversidade, a resiliência climática e o futuro sustentável do Douro.

Ana Filipa Rego

Num momento em que a sustentabilidade e a adaptação às alterações climáticas assumem um papel central no setor agroalimentar, as Vinhas Velhas do Douro destacam-se como um exemplo de equilíbrio entre produção agrícola e preservação dos ecossistemas. Para José Carlos Fernandes, Diretor de Viticultura da Aveleda, estas vinhas constituem verdadeiros reservatórios de biodiversidade e conhecimento acumulado ao longo de gerações, reunindo uma diversidade de castas e uma capacidade de adaptação ao território que lhes confere uma resiliência única perante fenómenos climáticos extremos.

Através da iniciativa “Guardiões das Vinhas Velhas”, a Quinta Vale D. Maria procura sensibilizar o público para a importância de conservar este património vivo e travar o seu abandono. Mais do que preservar uma paisagem classificada, trata-se de proteger um modelo agrícola que contribui para a sustentabilidade da região, valoriza as comunidades locais e demonstra que a conservação dos recursos naturais pode caminhar lado a lado com a criação de valor económico e cultural para as gerações futuras.

As Vinhas Velhas são frequentemente descritas como um património único do Douro. Do ponto de vista ambiental e agrícola, o que é que torna estas vinhas tão valiosas e merecedoras de preservação?

 As Vinhas Velhas são um património irrepetível do Douro. Resultam de séculos de observação, experiência e adaptação por parte dos viticultores, integrando uma elevada diversidade de castas e uma forte ligação ao ecossistema envolvente. São verdadeiros repositórios de conhecimento agrícola tradicional e de património genético, que continuam a ensinar-nos como produzir vinho de forma equilibrada, resiliente e adaptada ao território.

Que riscos enfrentam atualmente as Vinhas Velhas, nomeadamente perante os desafios das alterações climáticas e da crescente pressão sobre os territórios rurais?

O principal risco é a falta de valorização económica. As Vinhas Velhas têm custos de produção elevados e, muitas vezes, o valor pago pelas uvas não reflete esse esforço. Quando a rentabilidade deixa de existir, aumenta a pressão para abandonar ou substituir estas vinhas por modelos mais produtivos. Esse processo representa uma perda irreversível de património, de biodiversidade e da identidade da paisagem duriense.

De que forma a iniciativa “Guardiões das Vinhas Velhas” contribui para a conservação da biodiversidade e para a proteção da paisagem duriense?

Esta iniciativa contribui para quebrar o ciclo de abandono que ameaça muitas Vinhas Velhas. Ao valorizar a sua importância ecológica, paisagística e cultural, ajuda a criar consciência sobre a necessidade da sua preservação. Estamos a proteger uma componente essencial da paisagem classificada do Douro, mas também um elemento central da identidade da região e da sua biodiversidade.

Preservar Vinhas Velhas é também uma forma de promover uma viticultura mais sustentável? Que benefícios ambientais podem resultar dessa aposta?

Sem dúvida. As Vinhas Velhas representam uma das expressões mais completas de viticultura sustentável. A diversidade de castas, o equilíbrio natural entre plantas e a integração harmoniosa na paisagem tornam-nas sistemas agrícolas altamente resilientes. São um exemplo de como é possível produzir uvas de qualidade respeitando os equilíbrios naturais do território.

Qual é o papel destas vinhas na adaptação da região do Douro aos impactos das alterações climáticas?

As Vinhas Velhas têm demonstrado uma enorme capacidade de adaptação às alterações climáticas. As suas raízes profundas permitem aceder a reservas de água inacessíveis às vinhas mais jovens, reduzindo o impacto dos períodos de seca. Além disso, a sua adaptação ao longo de décadas ou séculos torna-as particularmente resistentes aos fenómenos climáticos extremos que hoje observamos com maior frequência.

A diversidade de castas presente nas Vinhas Velhas pode ser considerada uma vantagem em termos de resiliência agrícola e adaptação futura? Porquê?

Sem dúvida. A mistura de dezenas de castas cria um verdadeiro mecanismo natural de mitigação do risco. Em anos em que determinadas castas sofrem mais com condições adversas, outras respondem melhor e compensam essas quebras. Esta diversidade traduz-se numa maior estabilidade produtiva e qualitativa ao longo do tempo, algo que raramente encontramos em vinhas monovarietais.

Que práticas de gestão vitícola têm sido implementadas para garantir a longevidade destas vinhas e, simultaneamente, reduzir o impacto ambiental da produção?

O princípio fundamental é o respeito pela vinha e pela sua história. O nosso papel é compreender o equilíbrio existente e dar-lhe continuidade, intervindo apenas quando necessário. Procuramos preservar a estrutura original da vinha, respeitar a sua diversidade e garantir que as intervenções realizadas não comprometem o legado que recebemos das gerações anteriores.

Como é possível conciliar a preservação deste património vitícola com a necessidade de manter a atividade economicamente viável para os produtores?

A preservação só será sustentável se existir uma valorização económica adequada. Os produtores têm de ser compensados pelo esforço acrescido que estas vinhas exigem e pelo valor patrimonial, ambiental e qualitativo que geram. Sem essa valorização, será muito difícil travar o abandono e garantir a sua continuidade para as próximas gerações.

Através da nova Adega Expositiva – Guardiã das Vinhas Velhas, pretendem também sensibilizar o público para a importância da conservação deste património. Que papel pode o enoturismo desempenhar na promoção de uma maior consciência ambiental?

O enoturismo é uma das formas mais eficazes de aproximar o consumidor da realidade da vinha. Quando as pessoas compreendem o que é uma Vinha Velha, o esforço necessário para a preservar e a riqueza que encerra, passam naturalmente a valorizar mais os vinhos que dela resultam. Na Quinta Vale D. Maria, a paisagem e as Vinhas Velhas são parte integrante da experiência enoturística e um veículo privilegiado de sensibilização ambiental.

Considera que os consumidores estão hoje mais atentos à origem dos vinhos e às práticas de sustentabilidade associadas à sua produção? Como se reflete essa tendência no setor?

Claramente. Hoje o consumidor procura cada vez mais conhecer a origem dos produtos, a sua história e o impacto da sua produção. Essa tendência está a incentivar os produtores a adotarem práticas mais sustentáveis e a comunicar melhor o esforço que realizam na proteção do território e dos recursos naturais.

Que contributo podem dar iniciativas como esta para a valorização das comunidades locais e para a preservação do conhecimento agrícola tradicional do Douro?

Contribuem para valorizar o conhecimento acumulado ao longo de gerações e para reforçar o orgulho das comunidades no seu património. Ao dar visibilidade às Vinhas Velhas, estas iniciativas ajudam a preservar saberes tradicionais e a sensibilizar toda a cadeia de valor, desde o agricultor até ao consumidor final.

Existem metas ou projetos futuros da Aveleda relacionados com a proteção das Vinhas Velhas e a promoção de práticas mais sustentáveis na região?

A proteção das Vinhas Velhas e a promoção de uma viticultura mais sustentável fazem parte da nossa atividade diária e da nossa visão de longo prazo. Acreditamos que este é o caminho para responder às exigências dos consumidores, aos desafios ambientais e à necessidade de preservar o património vitícola da região.

Na sua perspetiva, que medidas deveriam ser prioritárias para assegurar a preservação deste património nas próximas décadas?

A prioridade deve ser travar o abandono das Vinhas Velhas. Para isso, são fundamentais políticas de incentivo económico, programas de apoio técnico, investigação aplicada e iniciativas de transmissão de conhecimento. Não basta preservar as vinhas, é igualmente essencial garantir que existe conhecimento para as gerir corretamente e assegurar a sua continuidade.

O que gostaria que os visitantes levassem consigo, não apenas sobre o vinho, mas também sobre a importância da conservação da paisagem e dos ecossistemas do Douro?

Gostaria que os visitantes saíssem com uma compreensão mais profunda da ligação entre vinho, paisagem, biodiversidade e comunidade. Que percebessem que cada Vinha Velha é um património vivo e que a sua preservação depende do compromisso de todos. E que nos deixassem também a sua perspetiva, porque ouvir quem nos visita é uma forma importante de continuarmos a melhorar.

Num momento em que a sustentabilidade é um tema central para o setor agroalimentar, que exemplo acredita que o projeto “Guardiões das Vinhas Velhas” da Quinta Vale D. Maria pode dar a outras regiões vitivinícolas, em Portugal e no estrangeiro?

Gostaríamos que este projeto da Quinta Vale D. Maria demonstrasse que a preservação do património vitícola não é incompatível com a inovação e com a criação de valor. O respeito pelo legado recebido deve ser encarado como um investimento no futuro. Se conseguirmos conservar estas vinhas e transmitir o seu valor às próximas gerações, estaremos a dar um exemplo relevante não apenas para o Douro, mas para outras regiões vitivinícolas em Portugal e no mundo.

 

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