Entrevista: Em Portugal, “o oceano continua, em grande medida, invisível nas contas nacionais e nos modelos financeiros”

Apesar de ocupar um lugar central na identidade e na economia do País, o oceano permanece subvalorizado nos processos de decisão económica e financeira. Para Stefania Semenova, gestora de projetos da Fundação Oceano Azul, essa invisibilidade compromete a proteção dos ecossistemas marinhos e a resiliência económica a longo prazo.

Ana Filipa Rego

A abordagem tradicional da chamada “economia do mar” continua a tratar o oceano como “uma mercadoria a ser explorada”, orientada por ganhos imediatos e por uma lógica extrativa incompatível com os limites do planeta. Em entrevista à Green Savers, Stefania Semenova, gestora de projetos da Fundação Oceano Azul, defende que o oceano “deve ser entendido como um bem natural partilhado que sustenta a vida, a resiliência e a prosperidade a longo prazo”.

Para a gestora, uma economia azul “verdadeiramente sustentável requer uma transformação fundamental na forma como organizamos e medimos a atividade económica” e “deve ser orientada pela investigação científica, mas existe uma falta persistente de integração do oceano nos processos de decisão de governos e instituições financeiras”. Esta subvalorização “é particularmente preocupante, dado a escala e a aceleração da crise oceânica”, alerta.

Num contexto em que setores como a energia eólica offshore ganham peso estratégico, a salvaguarda passa por “garantir que o seu desenvolvimento esteja rigorosamente alinhado com os objetivos de biodiversidade e com a saúde dos ecossistemas marinhos”, acrescenta a gestora. Stefania Semenova diz ainda que o risco de “bluewashing” é uma “ameaça visível” e exige decisões baseadas na ciência, transparência e regras claras. Cabe ao Estado reorientar subsídios prejudiciais, prevenir práticas danosas na sua origem e tornar visível o valor do capital natural azul. Portugal reúne condições para se afirmar como referência europeia e global, mas apenas se evitar que a economia azul se torne um novo rótulo para práticas antigas num planeta finito.

A Fundação Oceano Azul tem assumido um papel relevante na afirmação da economia azul em Portugal. Porque é que consideram essencial deixar para trás a noção tradicional de “economia do mar”?

Ir além da tradicional “economia do mar” é essencial porque o modelo atual é altamente extrativo e baseado numa procura incessante de crescimento, num planeta cujos recursos são finitos. Esta abordagem tradicional trata o oceano como uma mercadoria a ser explorada, tornando-se num dos principais motores da sua degradação, e por isso, incompatível com a sua recuperação. Não seremos capazes de proteger o oceano sem transformar o sistema económico que sustenta a sua degradação, as alterações climáticas e as crises planetárias mais amplas que enfrentamos hoje. Reconhecendo isto, a Fundação Oceano Azul tem trabalhado para promover exemplos concretos de como poderá ser um futuro baseado numa verdadeira economia azul sustentável.

No cerne desta abordagem está a visão da Fundação de uma economia azul sustentável que altere o paradigma predominante, afastando-se da extração e dos ganhos a curto prazo. Em vez disso, o oceano deve ser entendido como um bem natural partilhado que sustenta a vida, a resiliência e a prosperidade a longo prazo. Esta perspetiva exige valorizar o oceano não apenas pelos bens e serviços imediatos que fornece, mas também pelo seu papel fundamental na regulação climática e na estabilidade dos ecossistemas. Ao integrar as dimensões ambientais, sociais e de equidade na tomada de decisões económicas, este modelo procura afastar-se de atividades prejudiciais e avançar para uma abordagem regenerativa que alinha a atividade económica com os limites planetários e a saúde a longo prazo dos ecossistemas marinhos.

A economia azul defende uma abordagem que coloca a natureza e as comunidades no centro das decisões. Na prática, sentem que esta mudança de paradigma já está refletida nas políticas públicas e nas opções económicas ligadas ao oceano?

Embora a mudança de paradigma em direção a uma economia azul centrada na natureza esteja a ganhar impulso, ainda não se reflete totalmente nas escolhas económicas globais. Uma economia azul verdadeiramente sustentável exige mais do que pequenos ajustes ao sistema atual; requer uma transformação fundamental na forma como organizamos e medimos a atividade económica. O modelo económico atual muitas vezes externaliza os custos ambientais e sociais e recompensa a degradação. Por exemplo, apenas cerca de 3% do investimento global é atualmente direcionado para iniciativas positivas para a natureza, enquanto os restantes 97% continuam a financiar atividades ambientalmente prejudiciais (UNEP, 2023). Este desequilíbrio ilustra como os fluxos financeiros e os incentivos permanecem desalinhados com a saúde a longo prazo do oceano e o bem-estar das comunidades.

Há, no entanto, um maior reconhecimento de que o oceano não é apenas um espaço para a atividade humana, mas um sistema vivo que fornece serviços essenciais ao clima, à biodiversidade e às sociedades. O seu papel como regulador climático, sumidouro de carbono e reservatório de biodiversidade é fundamental para a resiliência planetária. Modelos económicos que não têm em conta estas funções permanecem estruturalmente limitados. Isto sublinha a necessidade de uma transformação mais profunda em direção a uma economia azul sustentável, na qual a natureza e as comunidades não sejam considerações periféricas, mas centrais na forma como as políticas são concebidas, os investimentos são direcionados e o sucesso económico é definido.

Posto isto, estão a surgir avanços importantes ao nível das políticas. Podem ser observados progressos significativos em instrumentos regulatórios como a Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa da UE (CSRD) e a Diretiva de Diligência de Sustentabilidade Empresarial (CSDDD), que exigem às empresas que divulguem e abordem os seus impactos ambientais. Estes instrumentos representam uma mudança em direção a uma maior responsabilidade, mesmo que a sua eficácia dependa de uma implementação e fiscalização robustas.

Ao nível nacional, Portugal apresenta um exemplo emergente através do Pacto da Bioeconomia Azul, uma agenda mobilizadora ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência que reúne mais de 80 empresas, instituições de investigação e atores públicos. O Pacto centra-se na reindustrialização de setores estratégicos, integrando a biotecnologia azul nas cadeias de valor, promovendo a utilização sustentável dos recursos marinhos para impulsionar a inovação, a descarbonização e a criação de emprego. Ilustra como os princípios da economia azul podem começar a traduzir-se em ação industrial e políticas concretas.

Apesar deste progresso, o oceano continua, em grande medida, invisível nas contas nacionais e nos modelos financeiros. Como resultado, os interesses das comunidades e o valor a longo prazo dos ecossistemas continuam frequentemente subordinados aos retornos económicos de curto prazo. A transição de um conceito de nicho para uma política geral continua a ser um processo em curso. Em particular, os interesses das comunidades e o valor a longo prazo dos ecossistemas são frequentemente secundários face aos retornos económicos imediatos nos processos de tomada de decisão.

Fala-se cada vez mais do risco de algumas iniciativas se apresentarem como “azuis” sem alterarem verdadeiramente os seus modelos de atuação. Esse fenómeno é visível em Portugal? Como distinguir projetos sérios de simples estratégias de comunicação?

O risco de “bluewashing” é uma ameaça visível que devemos combater através da tomada de decisões baseada na ciência e da transparência. Projetos sérios relacionados com financiamento podem ser distinguidos de meras estratégias de comunicação pela sua adesão a padrões “azuis” de elevada integridade, como os estabelecidos pelas Nações Unidas, que exigem a clara exclusão de atividades prejudiciais e alinhamento com os objetivos climáticos. Além disso, iniciativas genuínas concentram-se em dados “relevantes para investimento” e em relatórios rigorosos sobre biodiversidade, em vez de declarações vagas sobre sustentabilidade.

Em Portugal, um dos projetos da Fundação Oceano Azul, o Blue Bio Value, demonstra como isto pode funcionar na prática. O programa apoiou mais de 96 startups que atuam ao longo da cadeia de valor dos recursos marinhos para desenvolver soluções sustentáveis e prontas para o mercado. Ao centrar-se em soluções sustentáveis orientadas pela investigação e na construção de capacidades dentro da bioeconomia marinha, o BBV ilustra como os projetos podem ir além da comunicação para gerar um impacto ambiental e social tangível.

Que papel concreto tem desempenhado a Fundação Oceano Azul para assegurar que a economia azul assenta em conhecimento científico, sustentabilidade ambiental e impacto real no território?

A Fundação Oceano Azul é uma fundação de conservação da natureza centrada no oceano, que trabalha para restaurar e manter a saúde e a produtividade do oceano em benefício da vida no planeta. Os seus esforços concentram-se em apoiar a implementação de Áreas Marinhas Protegidas eficazes e baseadas na ciência, ao mesmo tempo que promovem o compromisso internacional de proteger 30% dos oceanos do mundo.

Reconhecendo que a proteção do oceano exige mais do que a conservação isolada, a Fundação atua na interseção entre conservação, advocacia internacional e políticas, quadros e economia. Neste último domínio, promove um modelo sustentável, fundamentado ecologicamente, socialmente equitativo e alinhado com os objetivos globais de sustentabilidade. Isto inclui defender mecanismos legais e financeiros que valorizem adequadamente os serviços dos ecossistemas, apoiar a cooperação internacional na governação do oceano e promover a integração do Capital Natural Azul na tomada de decisão pública e privada. Ao desafiar políticas oceânicas desatualizadas e catalisar mudanças sistémicas na forma como os recursos marinhos são valorizados e geridos, a Fundação garante que a economia azul se baseie na ciência, na sustentabilidade ambiental e em impactos tangíveis.

Em última análise, a abordagem da Fundação baseia-se no princípio de que só restaurando e mantendo a saúde do oceano poderá a economia azul tornar-se um caminho credível para um futuro sustentável e resiliente às alterações climáticas.

Com base nesta abordagem, a Fundação tem desempenhado um papel de liderança na ligação entre ciência e a economia, para assegurar que a economia azul tenha um impacto territorial concreto. Contribuiu para a criação do consórcio português INOVAMAR e do Pacto da Bioeconomia Azul, no valor de 139 milhões de euros, que alinha mais de 80 entidades nacionais em setores industriais regenerativos baseados em recursos marinhos.

Adicionalmente, estamos a colaborar com a London School of Economics para reavaliar o “Capital Natural Azul”. Esta iniciativa procura garantir que os serviços ecológicos cruciais e as funções sistémicas do oceano, como a fixação de carbono, o ciclo de nutrientes e a criação de biomassa, sejam finalmente refletidos na tomada de decisões económicas. Embora ainda esteja nas fases iniciais, a iniciativa reúne um grupo internacional e interdisciplinar de especialistas em economia, direito, finanças, ciências sistémicas, com o objetivo de redefinir o conceito de Capital Natural Azul e identificar estratégias para mudar mentalidades, criando uma ponte para a sua adoção generalizada. A iniciativa pretende demonstrar que um oceano saudável é um bem natural partilhado, a salvaguardar e investir, e não uma mercadoria a explorar de forma insustentável, promovendo o reconhecimento e valorização do Capital Natural Azul, enquanto apoia uma mudança sistémica na forma como este é reconhecido nas áreas de economia, finanças e direito.

A ciência do oceano tem hoje o peso necessário nas decisões políticas associadas à economia azul ou continua a ser subvalorizada?

A ciência oceânica continua a ser subvalorizada na tomada de decisões políticas e económicas, sendo frequentemente tratada como secundária face ao ganho financeiro imediato. Os sistemas naturais do oceano são muitas vezes invisíveis nas previsões económicas, porque os seus benefícios – como o ciclo de nutrientes, a fixação de carbono, a resiliência dos ecossistemas e a proteção costeira – raramente são tidos em conta nos modelos económicos ou nos quadros de política. Argumentamos que uma economia azul “verdadeira” deve ser orientada pela investigação científica, mas existe uma falta persistente de integração do oceano nos processos de decisão de governos e instituições financeiras. Esta subvalorização é particularmente preocupante, dado a escala e a aceleração da crise oceânica. O aquecimento dos oceanos, a acidificação, o declínio da biomassa e a rápida perda de biodiversidade estão já a perturbar a química, a biologia e a capacidade do oceano de regular o clima.

No entanto, os quadros de governação global têm tido dificuldades em acompanhar esta evidência científica, resultando em respostas políticas fragmentadas e frequentemente reativas, e não preventivas. A integração limitada da ciência marinha na tomada de decisões não só enfraquece os resultados ambientais, como também compromete a resiliência económica e social a longo prazo.

Em última análise, esta lacuna reflete uma falha estrutural mais profunda na forma como o oceano tem sido governado e como tem sido visto, principalmente, como um recurso ou espaço de exploração, em vez de um sistema vivo complexo e interconectado que sustenta a estabilidade planetária. A ciência oceânica deve ocupar um lugar central na tomada de decisões se a economia azul quiser proporcionar sustentabilidade real, resiliência climática e benefícios duradouros.

A formação e a capacitação, sobretudo das gerações mais jovens, são frequentemente apontadas como determinantes. Que importância têm, de facto, para garantir uma economia azul com futuro?

A educação e o desenvolvimento de capacidades são fatores decisivos porque muitas empresas, instituições financeiras e governos continuam a não ter consciência de como as suas decisões impactam o oceano ou de como se define o espaço de soluções. Na prática, isto significa que é necessário construir um historial de projetos bem-sucedidos e integrar o oceano nos currículos escolares e universitários, de forma a familiarizar os futuros decisores com a economia azul e a proteção dos oceanos. A literacia oceânica molda a forma como a sociedade percebe e valoriza o Capital Natural Azul. Não traz apenas conhecimento sobre os ecossistemas marinhos, mas também uma compreensão do oceano como um sistema vivo que desempenha um papel vital na regulação climática, na segurança alimentar e também na resiliência económica. A educação desenvolve esta capacidade ao fomentar conhecimento crítico e respeito pelos limites da natureza, enquanto capacita as futuras gerações a basearem as suas escolhas em evidência científica e não em retornos de curto prazo. Fortalece ainda o envolvimento público e a responsabilidade social, criando apoio às decisões e sendo essencial para uma economia azul resiliente.

Para a geração mais jovem, uma economia azul com futuro oferece oportunidades significativas de inovação em resposta aos desafios globais. Envolver os jovens desde cedo através da educação garante que estejam conscientes dos desafios oceânicos e equipados com o conhecimento e as competências para tomar decisões informadas, contribuindo para uma sociedade que valoriza, protege e, gradualmente, constrói uma economia oceânica regenerativa.

Sendo a economia azul apresentada como um modelo inclusivo, que não se limita às zonas costeiras, de que forma pode Portugal assegurar que os benefícios chegam também ao interior do país?

A economia azul deve ser abordada como uma cadeia de valor económica nacional e não como um conjunto de atividades limitado às áreas costeiras. Para garantir que os seus benefícios cheguem às regiões interiores de Portugal, deve ser vista como uma mudança económica sistémica que influencia a inovação e as cadeias de fornecimento onde quer que estejam localizadas. Embora muitas atividades marinhas ocorram ao longo da costa, grande parte da criação de valor através da investigação, transformação, serviços digitais, finanças e manufatura avançada pode ser gerada no interior, tornando a economia azul relevante para todo o país.

O Pacto da Bioeconomia Azul ilustra esta abordagem inclusiva, reunindo cerca de 80 entidades nacionais, incluindo 50 empresas de diferentes dimensões e setores e 30 organizações de investigação e inovação, que podem estar localizadas em todo o território nacional, para desenvolver soluções prontas para o mercado nos setores da alimentação, rações e biotecnologia. Paralelamente, a inovação na bioeconomia azul está a criar novos setores industriais que recorrem a recursos, competências e conhecimentos terrestres para apoiar produtos de base marinha. Ao contabilizar também o valor do Capital Natural Azul de Portugal ao nível do Orçamento do Estado, os benefícios económicos de um oceano saudável podem ser refletidos na tomada de decisões públicas, fortalecendo a resiliência económica em todo o país, incluindo nas regiões interiores.

A aposta na energia eólica offshore surge como uma prioridade estratégica. Que salvaguardas considera essenciais para compatibilizar este desenvolvimento com a proteção dos ecossistemas marinhos?

À medida que a energia eólica offshore se torna uma prioridade estratégica, a salvaguarda essencial consiste em garantir que o seu desenvolvimento esteja rigorosamente alinhado com os objetivos de biodiversidade e com a saúde dos ecossistemas marinhos. Acreditamos que qualquer expansão da economia azul, incluindo as energias renováveis, deve evitar a abordagem “prejudicial e extrativa” do passado e, em vez disso, operar dentro dos limites planetários. Tal exige avaliações de impacte ambiental (e social) abrangentes e uma valorização holística do capital natural da área, de modo a prevenir práticas danosas antes de estas ocorrerem. Isto significa, por exemplo, que os projetos de energia eólica offshore devem ser concebidos para apoiar – e não comprometer – a produtividade e a resiliência do sistema oceânico, garantindo que a aposta na energia limpa não se faz à custa da vida marinha.

As salvaguardas essenciais incluem o planeamento de projetos energéticos com base numa abordagem baseada no ecossistema e no Ordenamento do Espaço Marítimo, de forma a assegurar que as infraestruturas evitam áreas ecologicamente sensíveis, têm em conta os impactos cumulativos de múltiplas atividades e reduzem os conflitos com outros utilizadores do oceano. Devem ser realizadas Avaliações de Impacte Ambiental rigorosas em todas as fases de desenvolvimento, acompanhadas por cartografia e monitorização contínuas da biodiversidade e dos habitats marinhos, para orientar uma localização responsável dos projetos. Soluções híbridas e positivas para a natureza, como a conceção de estruturas offshore que proporcionem habitat ou a combinação de parques eólicos flutuantes com aquacultura de baixo impacte ou iniciativas de restauro, podem gerar energia ao mesmo tempo que apoiam a regeneração dos ecossistemas. A energia offshore deve também estar alinhada com os objetivos climáticos, de biodiversidade e de política pública, incluindo metas nacionais de proteção e iniciativas da UE como o Pacto Ecológico Europeu e o Horizonte Europa, de forma a acelerar tecnologias que sejam simultaneamente positivas para a energia e para a natureza. Por fim, o envolvimento das comunidades locais, de cientistas e de outros utilizadores do oceano nos processos de decisão é crucial para garantir que o desenvolvimento da energia offshore respeita os limites ecológicos, promove a coexistência e contribui para uma economia azul regenerativa e sustentável.

Ainda é comum ouvir que proteger o oceano pode travar o crescimento económico. Como respondem a esse argumento?

O argumento de que proteger o oceano prejudica o crescimento económico reflete um mal-entendido fundamental; na realidade, a proteção marinha é a base para a criação de valor a longo prazo. Um oceano saudável e em funcionamento fornece benefícios essenciais à sociedade e, portanto, à economia, permitindo que os sistemas planetários operem de forma estável. Processos como o ciclo de nutrientes, a regulação climática e a produção de oxigénio são frequentemente dados como garantidos precisamente porque historicamente funcionaram de forma fiável.

No entanto, a abordagem atual, extrativa e prejudicial ao oceano, e à natureza em geral, tratando-a como um recurso “gratuito”, oculta o declínio da rede de segurança natural ao focar-se estritamente no crescimento económico de curto prazo. Quando os impactos negativos são excluídos da tomada de decisão e o verdadeiro valor da natureza funcional e viva é tratado como uma externalidade, alimenta-se uma espiral de degradação dos próprios ativos dos quais a sociedade e a economia dependem. Isto cria riscos ocultos que só se materializam quando se ultrapassam limites críticos.

Esta dinâmica pode também ser medida em termos económicos. Se continuarmos com o “business as usual”, dois terços das empresas cotadas poderão perder 8,4 biliões de dólares de valor nos próximos 12 anos devido à degradação do oceano (WWF, 2021). Pelo contrário, a transição para uma economia azul sustentável poderia reduzir estas perdas em até 5 biliões de dólares. As Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) não devem, portanto, ser vistas como um “custo” para os governos, mas como os investimentos essenciais de capital que são. Elas salvaguardam serviços críticos, como o armazenamento de carbono, a geração de biodiversidade e a resiliência dos ecossistemas, que sustentam o funcionamento futuro do planeta e, por sua vez, a oportunidade económica e a produtividade a longo prazo.

Que responsabilidades deve assumir o Estado na criação de regras claras que incentivem o investimento, sem colocar em causa a saúde dos oceanos?

O Estado deve assumir a responsabilidade de estabelecer regras claras que reorientem subsídios prejudiciais e implementem regulamentos para prevenir práticas danosas na sua origem. Isto inclui integrar o Capital Natural Azul nos orçamentos e contas nacionais, tornando visível para todos os decisores o valor económico, social e estratégico completo de um oceano saudável. Ao implementar estes quadros, o Estado fornece a certeza e a confiança necessárias às instituições financeiras e aos investidores para direcionar capital para indústrias sustentáveis, em vez de extrativas. Esta abordagem permite uma tomada de decisão verdadeiramente informada, com perspetiva de longo prazo, garantindo que os benefícios de manter sistemas naturais em funcionamento são plenamente contabilizados ao lado dos retornos monetários.

A colaboração intersetorial entre instituições de investigação, empresas e organismos públicos permite o desenvolvimento de novos produtos, serviços e tecnologias que incorporam o valor dos recursos marinhos tanto nas cadeias de valor tradicionais como nas emergentes. Regulamentos bem concebidos, monitorização e incentivos transparentes não só protegem o oceano, como também podem estimular a inovação, atrair novos investimentos e fomentar o desenvolvimento de setores emergentes sustentáveis. Desta forma, o Estado não apenas salvaguarda o oceano, como também contribui para desbloquear o potencial económico de uma economia azul regenerativa, criando oportunidades que beneficiam a sociedade, a indústria e as gerações futuras.

Portugal reúne condições para se afirmar como uma referência europeia ou mesmo global na economia azul? O que falta para dar esse salto?

Portugal possui as condições essenciais para se tornar uma referência europeia e global na economia azul. Com a quinta maior Zona Económica Exclusiva da Europa, o país dispõe de um vasto território marítimo que oferece uma plataforma única para expandir a atividade económica sustentável, promover a inovação e reforçar a investigação e desenvolvimento ligados ao oceano. A economia azul portuguesa beneficia de uma diversidade de setores, incluindo o turismo costeiro, os recursos vivos marinhos e os serviços baseados no oceano, apoiados por uma forte rede de plataformas de inovação.

Para dar o próximo salto, Portugal – e qualquer país que persiga uma economia azul regenerativa – deve adotar uma abordagem sistémica. Isto significa integrar o Capital Natural Azul na contabilidade nacional e nos orçamentos públicos, redirecionar financiamento e subsídios para soluções sustentáveis e desenvolver quadros jurídicos e económicos que reflitam o valor intrínseco dos sistemas marinhos vivos. Também é necessário garantir que o valor do Capital Natural Azul esteja incorporado tanto na tomada de decisão pública como na privada. A educação e o desenvolvimento de competências são igualmente essenciais. Programas especializados que combinem conhecimento sobre economia azul com negócios, tecnologia e finanças irão preparar a força de trabalho para inovar, gerir cadeias de valor sustentáveis e transformar investigação em soluções prontas para o mercado.

Atividades tradicionais, como a pesca, enfrentam desafios crescentes. Como podem integrar-se numa lógica de economia azul sem perder sustentabilidade económica e social?

Atividades tradicionais, como a pesca, podem ser integradas num quadro de economia azul ao passar-se de um foco no rendimento de curto prazo para um modelo que valorize o papel do peixe no ecossistema mais amplo. Isto não significa acabar com a pesca, mas sim evoluir o setor para apoiar a gestão responsável e garantir que a biodiversidade e os serviços ecossistémicos sejam reconhecidos como o “capital” que sustenta o futuro social e económico da indústria. Esta mudança protege os meios de subsistência das comunidades costeiras, mantendo a produtividade a longo prazo dos oceanos de que dependem.

Para tornar esta integração credível para aqueles cujas vidas dependem da captura diária, a economia azul deve ser enquadrada como uma estratégia para proteger o “capital biológico” que sustenta os meios de subsistência locais e o património costeiro. Os pescadores tradicionais são frequentemente os primeiros a sentir os impactos da degradação oceânica, e devem estar no centro da transição de um modelo orientado pelo volume para um modelo orientado pelo valor. Isto implica apoiar o setor com investimentos em rastreabilidade, tecnologia melhorada e cadeias de abastecimento mais curtas, permitindo que os pescadores obtenham maior valor de mercado pelos produtos capturados de forma sustentável, em vez de competir numa corrida para o fundo com a extração industrial.

Ao estabelecer co-gestão baseada na ciência e proteger áreas críticas de “berçário” através de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs), não estamos a restringir a pesca, mas a garantir o “capital” necessário para mares produtivos e resilientes. Em última análise, a Fundação vê a economia azul como um meio de assegurar que o oceano continue a ser uma fonte de riqueza e dignidade para a próxima geração de pescadores, passando de um modelo de esgotamento para um modelo de gestão responsável a longo prazo, em que um oceano saudável é a única garantia de rendimento estável.

Até que ponto a economia azul pode ser decisiva para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em particular o ODS 14, dedicado à proteção da vida marinha?

A economia azul é decisiva para alcançar o ODS 14 porque procura redirecionar o significativo fluxo de capital global das atividades prejudiciais para soluções positivas para o oceano. Sem esta mudança financeira, qualquer progresso na criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) corre o risco de ser minado por incentivos de mercado que favorecem a extração e a degradação. Continuar com o “business as usual” deterioraria ainda mais a saúde dos oceanos, colocando em risco um enorme valor económico e ecológico global. Por contraste, uma economia azul verdadeiramente sustentável alinha a busca da prosperidade económica com a necessidade urgente de proteger a vida marinha, transformando a gestão responsável dos oceanos num motor de inovação, investimento e benefício social a longo prazo. Desta forma, torna-se não apenas uma ferramenta de apoio, mas um motor principal para atingir as metas de 2030 estabelecidas pelo ODS 14.

Existe o risco de a economia azul se tornar apenas um novo rótulo para práticas antigas. Se daqui a uma década continuarmos a falar de economia azul, mas o estado do oceano tiver piorado, onde é que Portugal terá falhado?

Existe um risco significativo de a economia azul se tornar um “novo rótulo para práticas antigas” se não formos além da busca de crescimento incessante num planeta finito. Uma economia azul sustentável não é um complemento aos caminhos de desenvolvimento existentes, mas uma mudança necessária no paradigma económico. À medida que o oceano enfrenta pressões crescentes devido às alterações climáticas, à perda de biodiversidade e à poluição, é imperativo incorporar o capital natural na tomada de decisão económica, valorizando o oceano não apenas pelos bens e serviços imediatos que fornece, mas também pelo seu papel na regulação climática, na resiliência dos ecossistemas e na habitabilidade global.

Portugal terá falhado se, daqui a uma década, continuarmos a tratar o oceano como um recurso infinito e invisível nos nossos modelos financeiros e previsões nacionais. O sucesso exige uma  transição da extração para a regeneração. Se o estado do oceano continuar a deteriorar-se, será porque não redefinimos o conceito de “valor” e permitimos que interesses financeiros de curto prazo sobreponham os limites científicos e ecológicos. Os setores económicos dependentes dos ecossistemas marinhos – desde a pesca e aquacultura até à biotecnologia e ao turismo – devem operar dentro dos limites planetários. Setores emergentes, como a biotecnologia marinha e a bioeconomia azul, oferecem um verdadeiro potencial, mas o seu sucesso é inseparável da saúde do sistema oceânico do qual dependem.

Esta responsabilidade não recai apenas sobre Portugal; trata-se de um esforço multilateral para alcançar este objetivo. Contudo, como um dos líderes na área dos oceanos, o país deve dar o exemplo. Nesta visão, a economia azul, as finanças e o direito não são apenas ferramentas para o crescimento; são instrumentos de regeneração, resiliência e de um futuro verdadeiramente sustentável.

*Entrevista publicada originalmente na edição em papel de março de 2026

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