Dia Mundial do Ambiente: “Tenho confiança que vamos ultrapassar o desafio das alterações climáticas antropogénicas”

A propósito do Dia Mundial do Ambiente, falámos com Filipe Duarte Santos. Apesar do agravamento dos impactos climáticos, o presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS) acredita que ainda existe margem para cumprir os objetivos do Acordo de Paris.

Ana Filipa Rego

Numa altura em que o Dia Mundial do Ambiente volta a colocar a sustentabilidade no centro do debate público, Filipe Duarte Santos, geofísico, professor universitário e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), considera que a principal mudança dos últimos anos foi a crescente perceção de que as alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem uma realidade presente. Os fenómenos extremos, os impactos económicos e a consolidação do conhecimento científico contribuíram para uma consciencialização mais ampla de um problema que hoje atravessa áreas tão diversas como a energia, a saúde, a segurança e a competitividade económica.

Ao longo desta entrevista à Green Savers, o  especialista em alterações climáticas analisa os desafios da transição energética, o papel das empresas, dos consumidores e da regulação, e alerta para o elevado custo da inação climática. Embora reconheça as dificuldades associadas à descarbonização da economia global e à crescente fragmentação geopolítica, mantém uma perspetiva de confiança assente na capacidade histórica de adaptação da humanidade e na evolução das soluções tecnológicas disponíveis para enfrentar a crise climática.

O Dia Mundial do Ambiente volta a colocar a sustentabilidade na agenda pública. Na sua perspetiva, o que é que mudou de forma mais significativa na forma como a sociedade encara a crise climática nos últimos anos?

O que mudou mais significativamente foi a passagem de uma perceção das alterações climáticas como um problema distante e abstrato para a consciência crescente de que se trata de uma realidade já presente no quotidiano das sociedades. Os fenómenos extremos tornaram-se mais intensos e alguns mais frequentes, os impactos económicos são cada vez mais visíveis e o conhecimento científico consolidou-se de forma inequívoca. Ao mesmo tempo, a questão climática deixou de ser apenas ambiental para passar a envolver questões de segurança, saúde pública, energia, competitividade económica e justiça intrageracional e intergeracional.

Ainda estamos a tempo de limitar o aquecimento global a níveis considerados seguros, ou essa janela de oportunidade está já perigosamente reduzida?

A janela de oportunidade continua aberta, mas está claramente a estreitar-se de forma acelerada. Cada ano de atraso torna mais difícil atingir os objetivos do Acordo de Paris de manter a temperatura média da atmosfera à superfície abaixo de 2 °C, relativamente ao período pré-industrial. Limitar o aquecimento global exige reduções muito rápidas das emissões globais de gases com efeito de estufa nesta década e nas próximas e uma transformação profunda dos sistemas energéticos, industriais e urbanos para realizar a transição dos combustíveis fósseis para fontes primárias de energia descarbonizadas. Não estamos perante um problema sem solução tecnológica, mas perante um enorme desafio político, económico e social.

Em várias ocasiões tem sublinhado que a transição energética exige cooperação global. Hoje, num contexto geopolítico mais fragmentado, essa cooperação está mais difícil do que nunca?

Sim, a fragmentação e conflitualidade geopolítica atual dificulta muito a cooperação internacional precisamente num momento em que ela é muito necessária. A competição geoestratégica entre grandes potências, as guerras, as tensões comerciais e a crescente securitização da energia criam obstáculos adicionais à transição energética. Contudo, os impactos gravosos das alterações climáticas continuam a ser um problema global que nenhum país pode resolver isoladamente. A descarbonização da economia mundial exige cooperação tecnológica, financeira e institucional à escala planetária. Presentemente os EUA já estão a investir mais em combustíveis fósseis do que a China, porque esta tem uma oferta abundante de eletricidade devido à aposta que faz no uso das energias renováveis.

Portugal tem sido apontado como um dos países europeus com melhores resultados na integração de renováveis. Esse desempenho é estrutural ou ainda frágil face aos desafios futuros?

Portugal teve progressos muito importantes, sobretudo na eletricidade renovável, beneficiando de condições naturais favoráveis e de políticas consistentes ao longo de vários anos. Nos anos de 2023, 2024 e 2025 a incorporação de energias renováveis no consumo total de eletricidade foi de 61%, 71% e 68%, respetivamente. No conjunto dos 27 países da UE os valores correspondentes foram bastante mais baixos: 44%, 47% e 49%. No entanto, persistem fragilidades estruturais. Portugal está atrasado no desenvolvimento e instalação de sistemas autónomos de armazenamento em baterias (stand-alone) à escala da rede elétrica, fundamentais para reforçar a estabilidade e a segurança do sistema elétrico muito dependente de renováveis. A segurança face à intermitência das renováveis tem sido quase exclusivamente assegurada pelo bombeamento hídrico. Para além da eletrificação da economia, Portugal deveria desenvolver mais a utilização dos combustíveis de baixo carbono, em particular o biometano para ajudar à transição energética. A dependência energética externa continua elevada e o setor dos transportes tem tido grande dificuldade em se descarbonizar. O sucesso alcançado é real, mas a transição ainda está longe de concluída.

Quando falamos de neutralidade carbónica até 2050, estamos a falar de um objetivo realista ou mais de um horizonte político desejável?

É um objetivo necessário, mas extremamente exigente. Do ponto de vista tecnológico, muitos dos instrumentos fundamentais já existem ou estão em rápido desenvolvimento. O principal problema não é apenas tecnológico, mas sobretudo político, económico e social. A neutralidade carbónica implica alterações profundas nos padrões de produção, consumo, mobilidade e uso do território. É um objetivo realista apenas se houver continuidade política, investimento sustentado e cooperação internacional.

A Europa tem vindo a reforçar a regulação através de instrumentos como a CSRD. Estas exigências estão a acelerar a mudança nas empresas ou a criar mais burocracia do que impacto real?

Existe inevitavelmente um aumento da complexidade regulatória, mas a transparência é indispensável para evitar distorções e falsas alegações ambientais. A CSRD representa um avanço importante porque obriga as empresas a integrarem os riscos climáticos e de sustentabilidade na sua estratégia e na sua governação. O desafio é garantir que estas exigências produzem mudanças substantivas e não apenas relatórios formais.

No debate público, fala-se cada vez mais de greenwashing. A proliferação de métricas e relatórios ESG ajuda a clarificar ou acaba por gerar mais ruído?

Há um risco de excesso de métricas e de complexidade. Contudo, o problema não é a existência de métricas, mas a falta de capacidade de resposta, comparabilidade e credibilidade. O greenwashing tornou-se um problema sério porque algumas empresas utilizam a sustentabilidade mais como instrumento de comunicação e de promoção da imagem exterior do que um instrumento de transformação efetiva para assegurar um desenvolvimento sustentável, integrando critérios de responsabilidade ambiental, impacto social e ética administrativa na geração de valor a longo prazo. Por isso, precisamos de indicadores mais robustos, verificáveis e internacionalmente comparáveis.

As empresas são frequentemente apontadas como parte do problema climático. Na sua visão, estão hoje mais próximas de serem parte da solução ou o equilíbrio ainda é insuficiente?

As empresas desempenham um papel central em ambas as dimensões. Muitos dos problemas ambientais atuais resultaram de modelos económicos altamente dependentes dos combustíveis fósseis e da exploração intensiva e por vezes insustentável de recursos. Por outro lado, as empresas constituem o vetor principal da componente económica do desenvolvimento sustentável e são essenciais para conseguir a transição energética. Hoje existe uma consciência crescente no mundo empresarial de que sustentabilidade, inovação e competitividade estão cada vez mais interligadas, embora o ritmo de transformação continue insuficiente no que respeita à urgência climática.

Como é que avalia o papel dos consumidores na aceleração da transição energética? Têm realmente poder para influenciar o comportamento das empresas?

Os consumidores têm influência, sobretudo quando as suas escolhas se tornam coletivamente significativas. No entanto, não devemos transferir exclusivamente para os indivíduos a responsabilidade da transição. As opções dos consumidores dependem dos instrumentos e infraestruturas disponíveis, dos preços, da informação, do conhecimento e das políticas públicas. A transformação estrutural exige ação coordenada entre governos, empresas e sociedade civil. Esta integra a mudança de comportamentos dos consumidores a nível individual e coletivo, conseguida por meio do conhecimento e da consciencialização da gravidade crescente dos impactos das alterações climáticas.

O setor dos combustíveis fósseis continua a ter um peso determinante na economia global. O que é que explica a persistência desta dependência, apesar do avanço das renováveis?

Os 27 membros da atual UE reduziram as suas emissões de 40% de 1990 a 2024 o que é singular no panorama mundial. Apesar deste sucesso a UE teve em 2024 uma dependência de 69% nos combustíveis fósseis. Portugal teve uma dependência menor de 64%. A nível mundial os combustíveis fósseis constituem cerca de 80% do consumo final de energia desde há 50 anos. A economia global moderna foi construída ao longo de mais de dois séculos com base nos combustíveis fósseis. Existe uma enorme inércia tecnológica, económica e institucional. Além disso, petróleo, gás e carvão têm a vantagem de uma elevada densidade energética, continuam relativamente abundantes e acessíveis, dispõem de infraestruturas instaladas gigantescas e forte relevância geopolítica. As renováveis estão a crescer rapidamente, mas substituir integralmente os combustíveis fósseis implica uma transformação dos sistemas industriais e energéticos de enorme complexidade.

Em vários estudos tem alertado para o impacto económico das alterações climáticas. Estamos a subestimar o custo da inação?

Claramente. Muitas análises económicas continuam a subavaliar os riscos sistémicos associados às alterações climáticas, incluindo o custo dos impactos sobre os recursos hídricos, agricultura, florestas, biodiversidade, saúde, infraestruturas, os movimentos migratórios, seguros, estabilidade financeira e segurança alimentar. Os países menos industrializados e os mais pobres sofrem os impactos mais gravosos, especialmente aqueles cuja economia tem uma elevada dependência na agricultura. O custo da inação será muito superior ao custo da mitigação e adaptação, sobretudo se ultrapassarmos determinados limiares climáticos críticos. Aquilo que é determinante é considerar ou não as alterações climáticas como uma questão ética de solidariedade intrageracional e intergeracional.

A descarbonização implica mudanças profundas em setores como a construção, a mobilidade ou a indústria pesada. Qual é, na sua opinião, o setor mais difícil de transformar?

Os setores industriais mais difíceis de descarbonizar são cimenteiras, siderurgias, química e petroquímica, transporte marítimo, aviação e transporte rodoviário de longa distância, devido à elevada intensidade energética e à dependência de combustíveis fósseis. A descarbonização destes setores constitui um desafio tecnológico significativo onde a inovação será crítica. Existe já muito conhecimento sobre várias soluções tecnológicas, tais como o hidrogénio verde e a captura de dióxido de carbono em instalações industriais com emissões elevadas tais como as cimenteiras e as centrais térmicas de biomassa (BECCS-Bioenergy with Carbon Capture and Storage), ou diretamente da atmosfera.

A aposta em tecnologias como captura de carbono e combustíveis sintéticos é uma solução indispensável ou corre o risco de adiar mudanças estruturais mais profundas?

O dióxido de carbono capturado pode ser utilizado ou sequestrado em formações geológicas subterrâneas seguras (CCS- Carbon Capture and Storage). Note-se que com moléculas de hidrogénio obtidas na produção de hidrogénio verde e com moléculas de dióxido carbono capturado é possível produzir combustíveis sintéticos, incluído aqueles que são usados nos atuais motores de combustão interna. De acordo com a Agência Internacional de Energia o cumprimento das metas do Acordo de Paris só é possível com o uso das tecnologias de captura de carbono. A utilização destas tecnologias tem sido economicamente viável sobretudo na indústria dos combustíveis fósseis para extrair gás natural e petróleo dos reservatórios, o que lhes confere uma imagem negativa no contexto da problemática do clima. Porém. é um domínio de I&D muito promissor. Para resolver o problema das alterações climáticas e satisfazer a procura galopante de energia à escala global, resultante da IA e da digitalização da economia, será necessário recorrer a toda a multiplicidade de processos de geração de energia de baixo carbono disponíveis.

Quando olha para o modelo de desenvolvimento atual, considera que estamos perante um problema tecnológico, político ou cultural?

Estamos perante um problema simultaneamente tecnológico, político, económico e cultural. Dispomos já de muitas soluções tecnológicas relevantes. O principal desafio reside na dificuldade das sociedades em alterar modelos de produção, consumo e de poder económico resultante da situação de lock-in da indústria de combustíveis fósseis. A sustentabilidade envolve componentes ambientais, económicas e ambientais e depende da nossa capacidade de incorporar uma visão ética do futuro nas nossas decisões atuais.

Num plano mais pessoal, depois de décadas a estudar o sistema climático e os impactos humanos, olha para o futuro com mais esperança ou preocupação  e porquê?

Olho para o futuro cada vez mais a partir do conhecimento que tenho obtido sobre o passado do homem e das suas civilizações. O futuro é uma incógnita, mas aquilo que virá a ser depende sobretudo do passado e do presente. Estou a escrever um livro para a editora Springer em que descrevo a história da relação entre as mudanças climáticas naturais e a evolução dos Hominínios, ou seja, os humanos atuais e todas as espécies da nossa árvore evolutiva desde há seis milhões de anos. Restamos apenas nós, em grande parte porque desenvolvemos uma extraordinária capacidade de adaptação a alterações ambientais rápidas e violentas geradas principalmente por mudanças climáticas naturais. Tenho confiança que vamos ultrapassar o desafio das alterações climáticas antropogénicas.

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