O betão é o material de construção manufaturado mais utilizado no mundo. Em entrevista à Green Savers, Ana Paula Rodrigues, diretora de sustentabilidade da Secil, precisamente por essa centralidade, a empresa “entende que a sustentabilidade na construção passa por tornar este material cada vez mais eficiente do ponto de vista ambiental”.
A responsável defende que a descarbonização do setor passa por uma “abordagem integrada e progressiva, combinando eficiência energética, inovação tecnológica e investimento em soluções estruturais que permitam reduzir significativamente a pegada carbónica do cimento no longo prazo”.
E sublinha que a Secil tem vindo a desenvolver novas gamas de cimentos low-carbon e betões otimizados, com menor pegada ambiental e melhor desempenho ao longo do ciclo de vida. Paralelamente, apostam em soluções “inovadoras” como a construção modular, através da KREAR, joint venture entre a Secil e o Grupo Casais, a impressão 3D e o betão sensorizado, que “permitem reduzir desperdícios, acelerar processos construtivos e melhorar a monitorização e a manutenção das estruturas, respondendo a desafios cada vez mais relevantes no setor da construção”.
O betão continua a ser um material essencial para o desenvolvimento das cidades e das infraestruturas. Como é que a Secil concilia essa necessidade com a pressão crescente para reduzir o impacto ambiental da sua produção?
O betão é o material de construção manufaturado mais utilizado no mundo, sendo essencial para garantir infraestruturas seguras, duráveis e resilientes. Precisamente por essa centralidade, a Secil entende que a sustentabilidade na construção passa por tornar este material cada vez mais eficiente do ponto de vista ambiental.
Essa conciliação faz-se através de uma abordagem integrada à cadeia de valor, desde a produção do clínquer até ao produto final. A eficiência energética dos processos industriais, a incorporação de materiais alternativos às matérias-primas virgens, e a incorporação de resíduos e a sua valorização, em substituição de combustíveis fósseis, são alguns dos exemplos para conseguir diminuir a intensidade carbónica das emissões.
Um excelente exemplo é o caso dos resíduos de construção e demolição, que inclui betão recuperado transformado em agregados para a produção de novos betões, permitindo responder às exigências da construção moderna, assegurando simultaneamente desempenho técnico, longevidade das estruturas e um menor impacto ambiental ao longo do seu ciclo de vida.
Sendo a indústria cimenteira responsável por uma fatia relevante das emissões globais de CO₂, quais são hoje os maiores obstáculos à descarbonização do setor?
A indústria cimenteira enfrenta desafios específicos na descarbonização porque as suas emissões têm duas origens distintas: combustão e processo.
No caso da combustão, que são cerca de 40% das emissões associadas ao consumo energético dos combustíveis, podem ser endereçadas através de projetos de eficiência energética e inovação industrial. É o caso da nossa fábrica no Outão, a que chamamos Clean Cement Line (CCL), que aposta na redução do consumo de energia; na substituição progressiva de combustíveis fósseis por combustíveis alternativos; e na produção própria de energia.
Os restantes 60% das emissões resultam do próprio processo químico de produção do clínquer, inerente à transformação do calcário, e não podem ser eliminados apenas com ganhos de eficiência. A mitigação desta componente exige desde a produção de cimentos com menor incorporação de clínquer, até ao desenvolvimento e a implementação de novas tecnologias, nomeadamente soluções de captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS).
A descarbonização do setor passa, assim, por uma abordagem integrada e progressiva, combinando eficiência energética, inovação tecnológica e investimento em soluções estruturais que permitam reduzir significativamente a pegada carbónica do cimento no longo prazo.
O projeto Clean Cement Line, no Outão, tem sido apontado como um exemplo de boas práticas a nível europeu. O que distingue este projeto de outras unidades industriais mais convencionais?
O Clean Cement Line, no Outão, ainda em fase de otimização, distingue-se por representar uma transformação profunda do processo produtivo. É o resultado de um investimento estratégico da Secil na modernização industrial, com foco na eficiência energética, na redução da pegada carbónica e na preparação da indústria para os desafios futuros.
Hoje, é considerada uma das unidades de produção de cimento mais sustentáveis da Europa. O projeto irá permitir reduzir cerca de 20% das emissões de CO₂ e do consumo de energia térmica, aumentando a autonomia energética da unidade. Cerca de 30% da eletricidade consumida será produzida internamente, através de sistemas de recuperação de calor do processo produtivo (Waste Heat Recovery) e da integração de energia solar térmica.
O projeto permite uma elevada taxa de utilização de combustíveis alternativos, em detrimento dos combustíveis fósseis, bem como a introdução de materiais substitutos do clínquer, produzindo um Low Carbon Clinker, contribuições essências para o decréscimo das emissões.
A forte aposta na digitalização, no controlo avançado do processo e na valorização de subprodutos reforça uma lógica de economia circular, tornando o CCL uma verdadeira plataforma de inovação industrial. Esta abordagem será agora replicada na nossa unidade da Maceira, através do projeto ProFuture, financiado ao abrigo do PRR.
A redução de cerca de 20% nas emissões de CO₂ e no consumo de energia foi um objetivo desde o início ou um resultado que acabou por superar as expectativas?
Foi um objetivo assumido desde o início. A modernização da fábrica teve precisamente como ponto de partida responder a essa ambição: tornar o processo de produção mais eficiente, reduzindo a sua pegada carbónica sem comprometer a fiabilidade industrial. Este investimento enquadra-se nos compromissos de descarbonização assumidos pela Secil a nível europeu e global.
A possível redução de 20% das emissões de CO₂ dá-nos esperança na capacidade de transformar a indústria pesada. O CCL demonstra que este é um caminho de melhoria contínua, que a Secil pretende aprofundar, tornando os seus processos cada vez mais eficientes e sustentáveis. Por isso o projeto vai ser replicado na Maceira.
Uma parte significativa da energia utilizada na fábrica é assegurada através da recuperação de calor e de energia solar térmica. Que vantagens concretas trouxe esta aposta na produção própria de energia?
A recuperação de calor permite valorizar energia que é inerente ao processo de produção de cimento e que, de outra forma, seria perdida, convertendo-a em eletricidade utilizável no próprio sistema produtivo. A integração de energia solar térmica, aplicada sobretudo à secagem de matérias-primas e combustíveis alternativos, reforça esse aproveitamento e contribui para uma utilização mais racional dos recursos disponíveis.
Esta aposta reforça a autonomia energética da unidade, reduz a exposição à volatilidade dos mercados energéticos e contribui para uma operação mais previsível, eficiente e com menor impacto ambiental.
Na prática, que contributo pode dar um projeto como o CCL para o cumprimento das metas nacionais e europeias de neutralidade carbónica até 2050?
Ao reduzir de forma significativa as emissões de CO₂ e o consumo energético numa unidade industrial de grande escala, o Clean Cement Line (CCL) contribui diretamente para o cumprimento das metas intermédias definidas para 2030, que são determinantes para a trajetória de neutralidade carbónica até 2050.
Este projeto está alinhado com os roteiros nacionais e internacionais de descarbonização do setor, nomeadamente pela ATIC, GCCA e Cement Europe. Em paralelo, o CCL materializa os compromissos de redução de emissões assumidos pela Secil, incluindo a meta aprovada pela Science Based Targets initiative (SBTi), que prevê uma redução de 30,4% das emissões do Grupo Secil até 2030, face a 2020.
Mais do que um projeto isolado, o CCL funciona como um case study replicável, permitindo escalar soluções tecnológicas e operacionais que podem ser aplicadas noutras unidades e contextos industriais, acelerando a descarbonização do setor como um todo.
Para além da eficiência dos processos industriais, a Secil tem vindo a desenvolver produtos mais sustentáveis, nomeadamente ao nível do betão. Que mudanças estão a ser introduzidas e que impacto podem ter no setor da construção?
Não basta tornar o processo produtivo mais eficiente do ponto de vista ambiental, é essencial que essa evolução também se reflita no que colocamos no mercado. A estratégia da Secil passa por melhorar de forma contínua toda a cadeia de valor, desde a produção até ao produto final.
Neste sentido, temos vindo a desenvolver novas gamas de cimentos low-carbon e betões otimizados, com menor pegada ambiental e melhor desempenho ao longo do ciclo de vida. Paralelamente, apostamos em soluções inovadoras como a construção modular, através da KREAR, joint venture entre a Secil e o Grupo Casais, a impressão 3D e o betão sensorizado, que permitem reduzir desperdícios, acelerar processos construtivos e melhorar a monitorização e a manutenção das estruturas, respondendo a desafios cada vez mais relevantes no setor da construção.
A inovação estende-se também às formulações que temos vindo a otimizar através da integração de ferramentas digitais, inteligência artificial e análise de big data para ajustar os materiais em tempo real às exigências específicas de cada projeto, garantindo maior durabilidade, melhor desempenho técnico e um menor impacto ambiental ao longo do ciclo de vida.
Temos estado também a trabalhar em projetos com maior grau de complexidade técnica, como é o caso da plataforma flutuante em betão que desenvolvemos em parceria com a Etermar Energia, no âmbito da Aliança para a Transição Energética. Trata-se de um projeto que evidencia o potencial do betão enquanto material estratégico para soluções associadas às energias renováveis e à construção em ambiente marítimo. A sua relevância tem vindo a ser reconhecida internacionalmente, tendo sido destacada na Expo Osaka 2025, no Japão, e apresentada no evento Business2Sea, em Matosinhos.
Os clientes e parceiros da Secil estão hoje mais atentos às questões ambientais? Tem sentido uma maior procura por soluções com menor pegada carbónica?
Hoje existe uma consciência muito mais alargada sobre a importância da preservação ambiental, que atravessa a sociedade como um todo e se reflete, naturalmente, no setor da construção. Os clientes estão mais informados e atentos ao impacto ambiental dos materiais que utilizam, o que se traduz numa procura crescente por soluções com menor pegada carbónica e maior transparência na informação.
No caso da Secil, esta evolução é visível no dia a dia, através de um interesse crescente por cimentos e betões mais sustentáveis, mas também por dados objetivos que suportem as decisões. Para que a sustentabilidade seja comunicada como um atributo, como acontece já há muito tempo com a qualidade, a transparência e o rigor são essenciais. Exemplo disso são as Declarações Ambientais de Produto (DAP), que a Secil disponibiliza em todas as áreas de negócio, permitindo aos clientes avaliar o desempenho ambiental dos produtos com base em informação verificada e comparável. Além disso, a certificação ambiental ISO 14001 das fábricas de cimento e das centrais de betão reflete um compromisso contínuo com a gestão ambiental, a melhoria dos processos e a redução dos impactos associados à atividade industrial.
Esta procura não se limita a grandes projetos ou ao cumprimento de requisitos regulamentares. Resulta também de uma mudança gradual de mentalidade, em que a sustentabilidade passa a ser encarada como um critério relevante de decisão, a par do desempenho técnico, da durabilidade e da segurança, reforçando a importância de uma abordagem baseada em dados e no ciclo de vida dos materiais.
A transição energética na indústria pesada exige investimento significativo. Que papel devem ter as políticas públicas e os mecanismos de apoio neste processo?
As políticas públicas têm um papel essencial na criação de condições que permitam às empresas avançar com projetos de descarbonização de grande escala.
É fundamental garantir enquadramentos regulatórios estáveis, previsíveis e alinhados com os objetivos climáticos, assim como mecanismos de financiamento eficazes, que reconheçam o esforço de inovação e a complexidade destes investimentos. Instrumentos como fundos europeus, financiamento verde ou programas de apoio à inovação são determinantes para acelerar a adoção de novas tecnologias, assegurar a competitividade da indústria europeia e permitir que setores que consomem muita energia contribuam para as metas de neutralidade carbónica.
Olhando para o futuro, como antevê a evolução da indústria cimenteira e que papel pretende a Secil assumir nesse caminho?
A indústria cimenteira está a entrar numa nova fase de transformação, marcada pela aceleração da descarbonização e pela integração crescente de inovação tecnológica. A evolução do setor passará por processos produtivos mais eficientes, pela redução contínua da intensidade carbónica dos materiais, pela incorporação de soluções de economia circular e pelo desenvolvimento de produtos mais duráveis e adaptados a novos contextos construtivos.
Nesse caminho, a Secil pretende assumir um papel ativo, contribuindo de forma consistente para a transformação do setor. Para isso, continuará a investir na modernização das suas unidades industriais, na inovação ao longo da cadeia de valor e no desenvolvimento de soluções com menor impacto ambiental. Paralelamente às medidas já em implementação, a captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) será uma tecnologia determinante para endereçar as emissões residuais associadas ao processo produtivo.
Tal como tem vindo a ser discutido no setor, nomeadamente na recente Conferência PT Carbon Link, o CCUS é encarado como uma solução de médio e longo prazo, que complementa as soluções já em curso. Esta solução será fundamental para alcançar a neutralidade carbónica, mas terá de ver garantidas as condições que viabilizem a concretização do investimento, nomeadamente no desenvolvimento da infraestrutura de transporte do carbono capturado e locais para o armazenamento do mesmo.
O objetivo da Secil é afirmar o cimento e o betão como materiais essenciais para a construção de infraestruturas mais sustentáveis, resilientes e alinhadas com os desafios do futuro.









