Entrevista: “Temos de garantir que o crescimento do turismo não destrói os recursos do território”

Para José Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, o futuro do turismo passa, cada vez mais, pela capacidade de valorizar os territórios, as suas comunidades e os recursos que lhes dão identidade.

Ana Filipa Rego

O Festival Raízes Vivas, que decorre em Santarém nos dias 25 e 26 de setembro, propõe uma valorização da identidade cultural e gastronómica do Ribatejo, aproximando visitantes dos produtos, saberes, tradições e comunidades locais. A iniciativa coloca também em debate o papel que o turismo pode desempenhar na valorização económica e na preservação dos recursos do território.

Em entrevista à Green Savers, José Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, defende uma mudança de abordagem ao desenvolvimento turístico, assente na valorização do território e das comunidades, em vez de uma lógica centrada apenas no crescimento do número de visitantes.

Para o responsável, o sucesso turístico não deve ser medido apenas pela quantidade de pessoas que chegam a um destino, mas também pelo valor que permanece no território, pelo impacto nas comunidades e pela capacidade de preservar os recursos que lhe dão identidade. A gastronomia, ligada à agricultura, aos produtores, às variedades locais e aos saberes tradicionais, pode assumir, neste processo, um papel que vai além da promoção turística, contribuindo para dar futuro às atividades e modos de produção locais.

O Festival Raízes Vivas pretende valorizar a identidade cultural e gastronómica de Santarém e do Ribatejo. Porque é que é importante falar hoje de identidade territorial quando se fala de desenvolvimento sustentável?

A sustentabilidade deve ser também vista numa ótica social, de reforço da pertença das pessoas às respetivas comunidades, às suas raízes e tradições. O Raízes Vivas é verdadeiramente um festival construído com as comunidades locais, basta ver o envolvimento das associações no seu programa e dinâmica.

A gastronomia pode ser uma ferramenta para preservar paisagens, culturas e modos de produção. Como vê essa relação no caso do Ribatejo?

Vejo uma relação muito forte. Quando valorizamos a gastronomia, estamos necessariamente a valorizar aquilo que está por detrás dela.

Um prato tradicional não começa na cozinha. Começa na terra, na agricultura, na pecuária, nos produtores, nas variedades locais, nas técnicas e nos conhecimentos que foram passando de geração em geração.

No Ribatejo, a gastronomia está profundamente ligada à paisagem e à atividade agrícola. Valorizar os produtos e a cozinha ribatejana significa também dar maior visibilidade a quem produz e criar razões económicas para que determinados modos de produção e determinadas tradições continuem vivos.

É por isso que a gastronomia pode ser muito mais do que promoção turística. Pode ser uma política de valorização do território.

Que papel podem ter os produtos locais e de época na construção de um modelo turístico mais sustentável?

Podem ter um papel fundamental, porque aproximam o turismo da economia local e reduzem a distância entre quem visita e quem produz. Promover produtos locais significa fazer com que uma parte maior do valor gerado pelo turismo permaneça no território. E trabalhar com produtos de época significa também respeitar os ciclos naturais, a agricultura e a própria identidade gastronómica de cada região.

No caso do Ribatejo, podemos transformar isso numa experiência turística: levar o visitante aos mercados, às explorações agrícolas, às adegas, aos restaurantes, aos produtores e aos espaços onde esses produtos são transformados. O visitante deixa de ser apenas consumidor e passa a compreender a origem daquilo que consome.

Como encontrar o equilíbrio entre promover um território e garantir que os seus recursos não são sobre explorados?

Esse é talvez um dos maiores desafios do turismo contemporâneo: crescer sem destruir aquilo que torna um destino atrativo. Não devemos medir o sucesso turístico apenas pelo número de visitantes. Temos de olhar também para o valor que esses visitantes deixam no território, para o impacto económico nas comunidades, para a preservação dos recursos e para a qualidade da experiência.

No fundo, temos de passar de uma lógica de quantidade para uma lógica de valor e equilíbrio.

De que forma a estratégia turística pode contribuir para valorizar quem produz e aproximar os visitantes da realidade agrícola do Ribatejo?

Pode fazê-lo criando uma ligação muito mais direta entre turismo, agricultura, gastronomia e território. O Raízes é sobre isto.

O visitante que chega ao Ribatejo deve ter a possibilidade de perceber que por detrás de um vinho, de um queijo, de uma carne, de um azeite ou de um prato tradicional existe uma paisagem, uma exploração agrícola, uma família, um conhecimento e uma história.

É aqui que vejo uma grande oportunidade para o turismo: contar melhor a história de quem produz.

Podemos criar experiências de visita a produtores, provas, rotas gastronómicas, experiências agrícolas, programas ligados às vindimas, à agricultura, à gastronomia e às tradições rurais.

E há uma questão muito importante: quando o turismo valoriza economicamente aquilo que é produzido no território, está também a contribuir para que essas atividades tenham futuro.

No fundo, queremos que o visitante não leve apenas uma fotografia do Ribatejo. Queremos que leve uma experiência, uma memória e uma compreensão maior daquilo que torna este território único.

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