As projeções climáticas do programa europeu EURO-CORDEX apontam para um aumento da intensidade da precipitação extrema e maior variabilidade atmosférica na Península Ibérica, mesmo num contexto de secas mais prolongadas, revela Carlos Pires, Professor do Departamento de Ciências da Terra e Energia (DCTE) da UL e investigador do Instituto Dom Luiz, em entrevista à Green Savers. Segundo o climatólogo, num planeta mais quente, a atmosfera retém mais vapor de água — cerca de 7% por cada grau Celsius adicional — potenciando episódios de chuva intensa, cheias rápidas e tempestades associadas a rios atmosféricos. O recente “comboio de tempestades” no Atlântico Norte enquadra-se nas previsões sazonais de entidades como o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF), refletindo alterações na dinâmica do jato polar e na Oscilação do Atlântico Norte.
Para Carlos Pires, os episódios extremos que hoje se repetem não são meras exceções estatísticas, mas sinais de uma mudança duradoura do clima, agravada pela exposição criada por décadas de práticas de ordenamento que têm deixado o território vulnerável. Construção em leitos de cheia, impermeabilização excessiva dos solos e ocupação costeira intensiva amplificam os danos. “Em Portugal, muitos dos danos que se repetem hoje em episódios de chuva intensa, cheias, ventos fortes e incêndios têm origem em decisões passadas de planeamento urbano e ocupação do território, especialmente nos anos 1970-1990”, sublinha.
Embora existam instrumentos estratégicos e acesso à informação climática, a adaptação continua desigual e muitas vezes reativa, acrescenta, alertando que uma “assunção parcial” de uma política consertada de adaptação climática “conviverá inevitavelmente com situações de catástrofe”.
Até que ponto é que o agravamento e a maior frequência das tempestades em Portugal podem estar ligados às alterações climáticas?
A resposta é dada pelas projeções climáticas do projeto EURO‑CORDEX (Coordinated Regional Downscaling Experiment para a Europa) através de simulações de modelos físicos ‘state-of-the-art’ do sistema Terra e que fornecem estimativas detalhadas de como o clima na Europa e em particular Portugal, pode mudar ao longo do século XXI sob diferentes cenários de emissões de gases com efeito de estufa (por exemplo, RCP4.5 e RCP8.5). Através da acumulação estatística de eventos nessas simulações decadais é possível averiguar diferenças nas distribuições estatísticas da precipitação, vento (médio e rajadas) e temperatura, comparadas com normais climáticas (de 30 anos) de períodos passados. Em particular na Península Ibérica, apesar de as simulações indicarem uma tendência para secas prolongadas, as observações e simulações recentes de modelos indicam uma tendência para aumento da intensidade da precipitação horária extrema, episódios mais concentrados e com maior risco de cheias rápidas e maior ocorrência de eventos associados a rios atmosféricos. Tal é consistente com uma maior disponibilidade de vapor de água atmosférico num ‘planeta mais quente’, aumentando 7% por cada C de aumento da temperatura média.
Em particular na Península Ibérica, apesar de as simulações indicarem uma tendência para secas prolongadas, as observações e simulações recentes de modelos indicam uma tendência para aumento da intensidade da precipitação horária extrema, episódios mais concentrados e com maior risco de cheias rápidas e maior ocorrência de eventos associados a rios atmosféricos. Tal é consistente com uma maior disponibilidade de vapor de água atmosférico num ‘planeta mais quente’, aumentando 7% por cada C de aumento da temperatura média.
Este chamado “comboio de tempestades” encaixa no que a ciência tem vindo a prever para o Atlântico Norte?
O chamado ‘comboio de tempestades’ no Atlântico Norte, ocorrido entre dezembro de 2025 e início de fevereiro de 2026, esteve de acordo com as previsões dos modelos meteorológicos do ECMWF e NOAA às escalas sinótica, mensal e sazonal para o inverno no Hemisfério Norte de 2025-26. Tal deveu-se ao persistente regime dinâmico de escala planetária em que a corrente circumpolar do jato polar, habitualmente posicionada no intervalo 50-60N, ter estado mais fraca e deslocada para latitudes médias inferiores 40-50N. Em alternativa, uma corrente de ‘jato forte’, contribui para o ‘aprisionamento’ do ar ártico em latitudes elevadas. No referido regime (de fase negativa da Oscilação do Atlântico Norte), o jato apresentou meandros e bifurcações que contribuíram para trazer massas de ar ártico muito frio, tendo justificado as acumulações anómalas de neve na América do Norte, Ásia e Europa. Além disso, é na região do jato que se dá o grande contraste térmico em latitude separando ar tropical e polar, formando a superfície frontal polar (SFP). É na SPF que se formam as depressões frontais e tempestades, que tipicamente no Atlântico têm a sua génese no mar das Caraíbas e que transportam grandes quantidades de humidade, por vezes na forma de longos rios atmosféricos (com 5000 a 7000 km de extensão).
O chamado ‘comboio de tempestades’ no Atlântico Norte, ocorrido entre dezembro de 2025 e início de fevereiro de 2026, esteve de acordo com as previsões dos modelos meteorológicos do ECMWF e NOAA às escalas sinótica, mensal e sazonal para o inverno no Hemisfério Norte de 2025-26.
A falta do anticiclone dos Açores, apontada por vários especialistas, pode vir a ser mais frequente num planeta mais quente?
O anticiclone dos Açores (AA) faz parte de uma cintura de anticiclones semi-permanentes sub-tropicais oceânicos (no Pacífico e Atlântico Norte e Sul e Índico) e que existem no ramo descendente da célula meridional de Hadley, fundamental para a manutenção de balanços globais de energia e momento angular na atmosfera terrestre à escala global. Portanto, o anticiclone dos Açores, é digamos que uma ‘necessidade física incontornável’. Numa atmosfera globalmente mais quente, a extensão meridional (i.e. em latitude) dessa célula de circulação é maior, acarretando um deslocamento do AA para norte e maior frequência de períodos de bloqueio. Do ponto de vista sazonal, no Verão, tal leva a situações de vagas de calor mais extensas, enquanto no inverno, os modelos apontam para uma maior variabilidade e intermitência, da posição e intensidade do AA com alternância entre invernos muito ‘tempestivos’ e com secas duradouras.
O anticiclone dos Açores (AA) faz parte de uma cintura de anticiclones semi-permanentes sub-tropicais oceânicos (no Pacífico e Atlântico Norte e Sul e Índico) e que existem no ramo descendente da célula meridional de Hadley, fundamental para a manutenção de balanços globais de energia e momento angular na atmosfera terrestre à escala global
Estamos a lidar com episódios excecionais ou com sinais claros de que o clima está a mudar de forma duradoura?
Os episódios excecionais (de precipitação, vento, temperatura etc.), em geral raros e extremos existem nas caudas da distribuição estatística, em geral acumulada com observações de 30 anos (normal climática recomendada pela Organização Meteorológica Mundial). A comparação dessas distribuições nos últimos, pelo menos 100 anos, tem manifestado alteração dos momentos estatísticos, nomeadamente a média, desvio padrão (aferidor da intensidade da variabilidade) e da curtose (aferidor da probabilidade de extremos). Em climas passados do século XX, terá havido evidentemente fenómenos meteorológicos extremos, mas que tem agora um período estatístico médio de retorno mais curto, que é devido ao deslocamento da média e aumento do desvio padrão. O clima, resultado do forçamento radiativo devido a gases de estufa, apresentará uma certa inércia térmica, mesmo que esse forçamento fosse revertido ‘hoje’, tal como um gigantesco comboio que necessita de uma travagem com muitos km de antecedência antes da chegada à estação final. Desse modo, o clima, à escala das próximas décadas está a mudar de forma duradoura, à qual é somada a variabilidade natural de escalas da ordem de milhares de anos ligadas a variações astronómicas do Sol e dos movimentos da Terra.
O clima, à escala das próximas décadas está a mudar de forma duradoura, à qual é somada a variabilidade natural de escalas da ordem de milhares de anos ligadas a variações astronómicas do Sol e dos movimentos da Terra
A dificuldade em fazer previsões meteorológicas mais estáveis reflete uma maior complexidade do sistema climático?
Crê-se que se entende aqui ‘dificuldade de previsões mais estáveis’ como ‘previsões de um clima mais estacionário’. A estabilidade e complexidade são termos com definições rigorosas em modelação. O sistema climático é essencialmente a camada externa do planeta, formado por diferentes subsistemas: litosfera, hidrosfera, criosfera, atmosfera e biosfera, em complexa interação não linear, numa panóplia de escalas temporais e espaciais. Trata-se de um sistema aberto sujeito a forçamentos externos provenientes do interior da Terra, astronómicos e nos últimos séculos da antroposfera. Os modelos físicos evoluem no sentido de incluir cada vez mais escalas espácio-temporais e fenomenologia do mais variado tipo (física, química, biológica) e em sentido lato mesmo acoplando-se com modelos económicos e demográficos que governam a antroposfera. Portanto, o sistema é e será sempre complexo. A não estacionaridade do clima (ou seja, a alteração climática) é devida à não estacionaridade dos forçamentos externos antropogénicos, magmáticos e astronómicos e não propriamente à complexidade dos modelos sempre em crescendo.
O modo como o território português está organizado permite responder adequadamente a fenómenos como ventos extremos, cheias repentinas ou forte agitação marítima?
Uma resposta adequada a esta pergunta exige o confronto entre o risco climático (presente e futuro, para pior) e a resiliência de todas as infraestruturas, procedimentos, avisos precoces, apoio efetivo antecipado às populações etc. Uma política consertada de adaptação climática exige, entre muitas outras coisas, um nível de segurança maior das infraestruturas, exigido a nível legislativo, acarretando inevitavelmente muitos custos que tem de ser assumidos. A sua assunção parcial, igualmente legítima, especialmente em países de parcos recursos económicos, conviverá inevitavelmente com situações de catástrofe. Desse modo, a adaptação climática global só fará sentido como um esforço compreendido por todos e por todos os governos.
Uma política consertada de adaptação climática exige, entre muitas outras coisas, um nível de segurança maior das infraestruturas, exigido a nível legislativo, acarretando inevitavelmente muitos custos que tem de ser assumidos. A sua assunção parcial, igualmente legítima, especialmente em países de parcos recursos económicos, conviverá inevitavelmente com situações de catástrofe
De que forma é que a construção em leitos de cheia, zonas costeiras ou encostas tem contribuído para agravar os efeitos das tempestades?
A construção em leitos de cheia, zonas costeiras e encostas contribui significativamente para agravar os efeitos das tempestades em Portugal, porque aumenta a exposição das pessoas e bens, altera os processos naturais de escoamento e reduz a resiliência do território; nos leitos de cheia pela obstrução do fluxo de água e redução das áreas de retenção e infiltração no terreno; nas zonas costeiras porque reduz a capacidade de dissipação de ondas que seria exercida por dunas; nas encostas mal drenadas porque aumenta risco de deslizamentos de terra e desabamentos durante chuvas intensas.
A construção em leitos de cheia, zonas costeiras e encostas contribui significativamente para agravar os efeitos das tempestades em Portugal, porque aumenta a exposição das pessoas e bens, altera os processos naturais de escoamento e reduz a resiliência do território
As cidades estão a ser pensadas tendo em conta o excesso de solo impermeabilizado e o risco crescente de inundações?
Em Portugal, algumas cidades estão a começar a ser planeadas para lidar com o excesso de solo impermeabilizado e o risco crescente de inundações, mas a abordagem ainda é incompleta e desigual entre municípios. Algumas medidas corretivas têm sido aplicadas tais como: pavimentos permeáveis em passeios e estacionamentos, jardins de chuva e bacias de retenção temporária, corredores verdes que absorvem águas pluviais e reduzem picos de cheia e finalmente o redimensionamento de sistemas de drenagem com base em cenários de precipitação futura, como é o exemplo do Canal Adutor de Cheias de Lisboa, tecnicamente parte do Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL) 2016-2030.
Que decisões tomadas no passado, ao nível do planeamento urbano, ajudam a explicar os danos que hoje se repetem?
Em Portugal, muitos dos danos que se repetem hoje em episódios de chuva intensa, cheias, ventos fortes e incêndios têm origem em decisões passadas de planeamento urbano e ocupação do território, especialmente nos anos 1970-1990. Essas decisões definiram padrões de vulnerabilidade que persistem, mesmo com avanços técnicos recentes. As causas específicas são: 1) a construção em leitos de cheia e margens de rios, 2) a ocupação do litoral sem recuos estratégicos, 3) a impermeabilização excessiva do solo, 4) a ocupação de encostas e áreas florestais e finalmente 5) a falta de normas construtivas adaptadas a extremos.
Em Portugal, muitos dos danos que se repetem hoje em episódios de chuva intensa, cheias, ventos fortes e incêndios têm origem em decisões passadas de planeamento urbano e ocupação do território, especialmente nos anos 1970-1990
Os instrumentos de planeamento territorial têm, de facto, incorporado o risco climático de forma eficaz?
Em Portugal, a integração do risco climático no ordenamento do território existe formalmente, mas a sua eficácia prática é desigual e ainda limitada. O enquadramento político e legal tem sido feito pela APA (Agência Portuguesa do Ambiente), DGT (Direção Geral do Território), Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (ENAAC 2020 e atualizações) e ainda através de Planos Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas (PMAAC). O que mudou inclui agora a Cartografia de risco de inundação (em articulação com a Diretiva Europeia das Cheias), a Delimitação de áreas vulneráveis à erosão costeira, devidas à subida do nível do mar em cenários futuros. Quanto à eficácia, há efetivamente algumas limitações. Muitos PDM usam dados históricos e não cenários futuros e tratam o risco como condicionante técnica, não como elemento estruturante do modelo territorial. Persistem construções em áreas de risco, sendo rara a relocalização preventiva rara enquanto a adaptação é muitas vezes apenas reativa (após eventos extremos).
Muitos PDM usam dados históricos e não cenários futuros e tratam o risco como condicionante técnica, não como elemento estruturante do modelo territorial. Persistem construções em áreas de risco, sendo rara a relocalização preventiva rara enquanto a adaptação é muitas vezes apenas reativa (após eventos extremos)
As principais infraestruturas do país estão preparadas para resistir a rajadas de vento da ordem dos 160 km/h?
O dimensionamento estrutural em Portugal segue os Eurocódigos, em especial o
Eurocódigo 1 (ações do vento), sendo o território dividido em zonas de vento. Num cenário em que fenómenos como por exemplo o fenómeno de ‘sting-jet’ de 28 de janeiro de 2026 na região centro, sejam mais frequentes, os níveis de exigência deverão aumentar. As maiores infraestruturas como grandes obras de arte (pontes, viadutos, aeroportos) e linhas aéreas de energia elétrica foram concebidas para suportar rajadas de pelo menos 160 km/h, uma vez que Infraestruturas críticas usam coeficientes de segurança superiores. No entanto, no edificado corrrente, muitos edifícios anteriores aos anos 1990 não foram projetados segundo Eurocódigos. Coberturas leves, painéis publicitários e estruturas temporárias são os elementos mais frágeis com danos que começam frequentemente acima de 100–120 km/h.
No edificado corrrente, muitos edifícios anteriores aos anos 1990 não foram projetados segundo Eurocódigos. Coberturas leves, painéis publicitários e estruturas temporárias são os elementos mais frágeis com danos que começam frequentemente acima de 100–120 km/h
De que maneira um melhor ordenamento do território poderia ajudar a evitar quedas de árvores, falhas de energia e o isolamento de comunidades?
Um melhor ordenamento do território atua diretamente sobre a exposição e vulnerabilidade de pessoas e infraestruturas, e pode reduzir significativamente os impactos de eventos extremos, como ventos fortes, chuva intensa ou neve. No caso de Portugal, quedas de árvores podem ser prevenidas com medidas como o planeamento florestal em mosaico e gestão preventiva do solo. Falhas de energia poderiam ser evitadas com enterramento de parte da rede, apesar dos elevados custos, e redes elétricas e transporte com segurança incorporada. O isolamento de comunidades (por falta de energia ou telecomunicações em casos extremos), dá-se especialmente de zonas rurais remotas ou em zonas baixas, suscetíveis de alagamento. Em ambos os casos, há que planear medidas específicas de resgate, salvamento e realojamento.
Quedas de árvores podem ser prevenidas com medidas como o planeamento florestal em mosaico e gestão preventiva do solo. Falhas de energia poderiam ser evitadas com enterramento de parte da rede, apesar dos elevados custos, e redes elétricas e transporte com segurança incorporada
Que impacto têm a gestão das florestas e dos espaços urbanos na dimensão dos estragos causados pelo vento e pela chuva intensa?
A gestão das florestas e dos espaços urbanos tem impacto direto e muitas vezes decisivo na dimensão dos estragos provocados por vento forte e precipitação intensa. A vulnerabilidade ao vento é reduzida pela densidade do povoamento, a altura média das árvores, o tipo de espécie (raízes superficiais vs. profundas) e o histórico de podas. Monoculturas extensivas e contínuas (e.g. pinheiro e eucalipto) podem ser mais suscetíveis a derrube em eventos extremos em situações de encharcamento reduzindo a estabilidade radicular. Florestas diversificadas e estruturadas em mosaico reduzem o efeito dominó através da colocação de uma sequência de espécies aumentando em altura de barlavento para sotavento, exercendo uma deflexão dinâmica do vento para níveis superiores. No que respeita à vulnerabilidade a cheias em espaços florestais, a infiltração da água no solo é essencial, mantendo solos resistentes à erosão, complementados com manutenção de linhas de água desassoreadas. Em espaços urbanos é essencial reduzir a área impermeabilizada (asfalto e betão), construir sistemas de drenagem com capacidade de cheias centenárias e impedir a ocupação de leitos de cheia.
A gestão das florestas e dos espaços urbanos tem impacto direto e muitas vezes decisivo na dimensão dos estragos provocados por vento forte e precipitação intensa
A instalação de infraestruturas junto ao litoral tem tido em conta o aumento da erosão costeira e da violência do mar?
Em Portugal, a instalação de infraestruturas junto ao litoral tem evoluído gradual, lenta e em geral de forma reativa no sentido de considerar o aumento da erosão costeira e da violência do mar. Todavia a abordagem ainda é incompleta e heterogénea. As maiores limitações e os grandes desafios são as infraestruturas antigas, construídas antes da consciência do risco crescente; a pressão urbanística em cidades costeiras densas, por vezes contornando normas preventivas; a escassez de financiamento e não priorização da construção de barreiras costeiras e finalmente a incerteza científica, dado que a erosão costeira é altamente variável localmente.
Em Portugal, a instalação de infraestruturas junto ao litoral tem evoluído gradual, lenta e em geral de forma reativa no sentido de considerar o aumento da erosão costeira e da violência do mar. Todavia a abordagem ainda é incompleta e heterogénea
Os avisos meteorológicos, por si só, são suficientes sem uma estratégia de prevenção territorial pensada a longo prazo?
A resposta à questão é ‘Não’. Os avisos de chuva, vento, ondas de calor e agitação marítima permitem por si só, numa situação normal e coordenada, uma gestão reativa e de curto prazo no sentido de ativar proteção civil, alertar a população com medidas de precaução e reduzir vítimas imediatas. Os avisos não resolvem a construção em leitos de cheia, a urbanização excessiva de zonas costeiras, as redes de drenagem subdimensionadas, as florestas densas e mal geridas e as infraestruturas expostas e não reforça linhas elétricas. Mesmo com aviso atempado, os danos materiais serão elevados. Por isso, a exposição e vulnerabilidade ao risco só será efetiva com estratégias territoriais de longo prazo de adaptação climática.
Os avisos não resolvem a construção em leitos de cheia, a urbanização excessiva de zonas costeiras, as redes de drenagem subdimensionadas, as florestas densas e mal geridas e as infraestruturas expostas e não reforça linhas elétricas
Que papel pode o ordenamento do território desempenhar para reduzir a dependência constante de respostas de emergência?
O ordenamento do território pode desempenhar um papel estruturante e transformador na redução da dependência constante de respostas de emergência, atuando antes do desastre — na redução da exposição e da vulnerabilidade.
As autarquias têm acesso à informação climática necessária para planear medidas de adaptação eficazes?
Em Portugal, a maioria das autarquias tem acesso formal a informação climática relevante, mas o nível de capacidade para a usar eficazmente é muito desigual. As autarquias podem recorrer a três tipos de informação: 1) Projeções climáticas (dados do IPMA, projeções regionais europeias como o EURO-CORDEX e informação integrada da Agência Portuguesa do Ambiente (APA); 2) Mapas de risco (Cartografia de risco de inundação, de suscetibilidade a movimentos de vertente, e de risco costeiro e subida do nível do mar) e 3) Enquadramento estratégico através da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas e dos Planos Municipais de Ação Climática (obrigatórios para municípios desde 2021). A interpretação da informação é difícil uma vez que as projeções climáticas são probabilísticas, sendo política e tecnicamente complexo converter isso, por exemplo em índices urbanísticos, proibições de construção e recuo estratégico costeiro. Além disso, alguns dados estão à escala regional e não municipal. Finalmente as limitações financeiras podem limitar a implementação soluções estruturais ou suportar custos de adaptação preventiva. No sentido de colmatar e mitigar algumas das referidas limitações, foi lançado e concluído o projeto do ‘Roteiro Nacional para a Adaptação 2100’, liderado pelo Prof. Pedro Matos Soares do Instituto Dom Luiz e pela APA.
Em Portugal, a maioria das autarquias tem acesso formal a informação climática relevante, mas o nível de capacidade para a usar eficazmente é muito desigual
O que é que falta para uma articulação mais eficaz entre Proteção Civil, IPMA e planeamento do território?
Para uma articulação eficaz entre Proteção Civil, IPMA e planeamento do território, é necessária 1) a integração de dados climáticos e riscos em plataformas compartilhadas, 2) protocolos claros de decisão entre alerta licenciamento e ordenamento, 3) capacitação técnica conjunta e interdisciplinar, 4) planeamento preventivo e de longo prazo, com critérios vinculativo, 5) ciclo de monitorização, avaliação e atualização contínua. Em suma: a articulação não é apenas administrativa, mas estratégica e operacional, conectando ciência, prevenção e gestão do território.
Que mudanças deveriam ser feitas nas políticas de ordenamento do território perante o aumento de fenómenos meteorológicos extremos?
As mudanças nas políticas são de natureza preventiva e adaptativa e dividem-se em várias famílias. A primeira é a incorporação de cenários climáticos futuros com previsão de zonas de risco com base em extremos esperados de recorrência mínima de 1 ano, permitindo planear construções, infraestruturas e serviços urbanos para resistirem a condições futuras, não apenas atuais. A segunda é o planeamento territorial preventivo com o recuo estratégico em zonas costeiras vulneráveis à subida do nível do mar e tempestades costeiras, a inibição da ocupação de leitos de cheia e áreas de risco de deslizamento de vertentes, criar zonas tampão e corredores verdes que absorvam água e reduzam impactos de enchentes e exigir normas de construção resilientes a ventos fortes e chuva intensa. A terceira medida é a gestão integrada de recursos naturais com florestas diversificadas e mosaicos florestais para reduzir risco de queda de árvores e incêndios, bem como ecossistemas naturais para retenção de água e regulação de cheias. Implementar infraestruturas verdes urbanas, como jardins de chuva, pavimentos permeáveis, reservatórios temporários. A quarta medida é a redução das vulnerabilidades urbanas planeando arborização e permeabilização adequada, acessos e evacuações em condições de cheia. Todas estas medidas devem ser contextualizadas com uma integração intersectorial e ser permanente acompanhadas e atualizadas perante uma mudança climática em constante progresso.
O investimento em adaptação às alterações climáticas está a acompanhar aquilo que a ciência já demonstra?
Não completamente. Em Portugal, o investimento em adaptação às alterações climáticas tem aumentado nos últimos anos, mas ainda não acompanha totalmente o ritmo e a escala dos riscos projetados pela ciência climática. A magnitude do investimento atual é menor do que a necessária para reduzir efetivamente a exposição e a vulnerabilidade. A nível internacional o panorama é muito desigual, com contraste entre políticas efetivas europeias e negacionistas atualmente por parte dos EUA.
Em Portugal, o investimento em adaptação às alterações climáticas tem aumentado nos últimos anos, mas ainda não acompanha totalmente o ritmo e a escala dos riscos projetados pela ciência climática. A magnitude do investimento atual é menor do que a necessária para reduzir efetivamente a exposição e a vulnerabilidade. A nível internacional o panorama é muito desigual, com contraste entre políticas efetivas europeias e negacionistas atualmente por parte dos EUA
Como podem os cenários climáticos futuros passar a pesar mais nas decisões de licenciamento urbano e industrial?
Para que os cenários climáticos futuros passem a ter um peso real nas decisões de licenciamento urbano e industrial em Portugal, é necessário transformar a informação científica em critério vinculativo de decisão, integrando prevenção e resiliência no processo de aprovação de projetos, exigindo por exemplo que incluam avaliação do risco climático futuro com limites e datas (por décadas). Esta tarefa será muita mais versátil e facilitadora usando mapas de risco dinâmicos e instrumentos digitais. Além uma monitorização, fiscalização e atualização dos projetos e obras contínuas são fundamentais.
O país está a aprender com os episódios extremos do passado ou continua a responder caso a caso?
Em Portugal, há sinais de que o país está a aprender com episódios extremos do passado, mas a resposta ainda é fortemente marcada pela gestão caso a caso, especialmente fora das áreas metropolitanas e na gestão de infraestruturas mais antigas. Portugal tem vindo a evoluir num ciclo gradual. Primeiro dão os eventos extremos (cheias, ventos, incêndios, ondas de calor). Depois há a resposta de emergência (proteção civil, evacuações, reparações). De seguida vem a aprendizagem (investigação, relatórios técnicos, correção de protocolos) e finalmente a prevenção parcial (alterações em normas, reforço de infraestruturas, planos municipais). O problema é por vezes a descoordenação nesta sequência, nomeadamente a aplicação da aprendizagem na prevenção à posteriori.
Em Portugal, há sinais de que o país está a aprender com episódios extremos do passado, mas a resposta ainda é fortemente marcada pela gestão caso a caso, especialmente fora das áreas metropolitanas e na gestão de infraestruturas mais antigas
Até que ponto é que a população compreende a ligação entre alterações climáticas, planeamento do território e riscos meteorológicos?
Em Portugal, a consciência da população sobre a ligação entre alterações climáticas, planeamento do território e riscos meteorológicos existe, mas ainda é limitada e desigual. A perceção tende a ser mais forte em casos imediatos, como cheias, incêndios ou ondas de calor, e menos clara quando se trata de conceitos de longo prazo, como ordenamento preventivo e resiliência estrutural. Existem barreiras de várias naturezas à compreensão: 1) a complexidade científica: cenários, probabilidades e incertezas são difíceis de comunicar, 2) A memória temporal: impactos futuros não geram a mesma atenção que eventos recentes, 3) as diferenças regionais: cidadãos em zonas menos afetadas por eventos recentes tendem a subestimar os riscos e 4) a falta de integração na educação formal: poucos currículos escolares ou programas de formação cívica ligam explicitamente clima, território e risco e finalmente a desinformação aberrante em certo tipo de redes sociais.
A consciência da população sobre a ligação entre alterações climáticas, planeamento do território e riscos meteorológicos existe, mas ainda é limitada e desigual









