Foi na jazida fossilífera do Vale Cortiço, na Formação de Santa Susana, perto de Torres Vedras, que um grupo de cientistas, liderado por Mário Cardoso Mendes, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, descobriu uma nova espécie de conífera até agora desconhecida para a Ciência.
Num nível rochoso que se acredita ter sido formado há cerca de 130 milhões de anos, durante o Hauteriviano, do Período Cretácico Inferior, a equipa, composta também por Jiří Kvaček (Museu Nacional de Praga) e por James Doyle (Universidade da Califórnia), encontrou vestígios fossilizados de uma planta que terá pertencido à família de coníferas Cheirolepidiaceae, extinta há 65,5 milhões de anos, “possivelmente devido a alterações de carácter ambiental”, explica Mário Cardoso Mendes.

Imagem: Cortesia de Mário Cardoso Mendes, investigador do MARE.
Em declarações à ‘Green Savers’, o cientista português, que é também o primeiro autor do artigo publicado recentemente na revista ‘Review of Paleobotany and Palynology’ que dá conta da descoberta, diz-nos que a nova espécie foi batizada com o nome científico Pseudofrenelopsis dinisii, em homenagem a Pedro Dinis, investigador do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra e do MARE, “em reconhecimento pela investigação científica que tem desenvolvido no Cretácico e Cenozóico de Portugal”.
Sobre os traços que caracterizam a P. dinisii, do género dos frenelopsídeos, Mário Mendes detalha que terá apresentado “ramos divididos em nós e entrenós e folhas de tipo Brachyphyllum, dispostas em espiral, envolvendo totalmente os nós a partir dos quais emergia uma única folha”. As folhas tinham tricomas (estruturas semelhantes a pequenos pêlos) pronunciados e “na cutícula abaxial encontravam-se estomas dispostos em filas unisseriadas”, acrescenta o investigador.
Devido às folhas de tamanho reduzido, aos estomas afundados (os ‘poros’ das plantas que permitem trocas gasosas com o ambiente e a libertação de vapor de água) e a uma cutícula (revestimento impermeável que envolve os órgãos das plantas) “moderadamente espessa”, como nos diz Mário Mendes, acredita-se que a P. dinisii terá evoluído para adaptar-se a “condições de stress hídrico devido à existência de clima árido a semiárido ou à presença de condições salinas”. Ou seja, era uma espécie capaz de sobreviver em ambientes com pouca disponibilidade de água doce e, por isso, especialmente adaptada a condições de seca.
No entanto, apesar de os frenelopsídeos serem habitualmente considerados “indicadores de aridez e/ou significativa salinidade ambiental”, os autores deste trabalho argumentam que “a sua ocorrência em diferentes habitats e sob diversificadas condições ambientais não valida esta interpretação”.
Além disso, a análise da presença de esporos e de grãos de pólen na jazida do Vale Cortiço não indica “a existência de influência marinha e nem tampouco de ambiente marcadamente árido”, diz-nos Mário Mendes, “pelo que, os restos vegetais recolhidos, ter-se-ão depositado sob clima quente a temperado e com humidade significativa, talvez sazonal”.
Esta nova espécie terá apresentado traços que a assemelham a um outro frenelopsídeo, a Pseudofrenelopsis zlatkoi, também ela descrita recentemente e que foi encontrada na região de Leiria, e que terá vivido há aproximadamente 110 milhões de anos. Contudo, a P. dinisii difere da P. zlatkoi “por não apresentar entrenós tão longos e sulcados”, elucida o investigador.
“O estudo realizado permitiu descrever para a Ciência uma nova espécie até então desconhecida, contribuindo de forma inegável para um melhor conhecimento e compreensão da biodiversidade do passado da Terra e, bem assim, da sua relação com as condições paleoambientais vigentes”, destaca Mário Mendes.









