Uma nova investigação sugere que erupções vulcânicas explosivas ocorridas há milhares de milhões de anos em Marte poderão ter transportado vapor de água até regiões equatoriais, onde acabou por se transformar em depósitos de gelo subterrâneo que podem ainda hoje existir. O estudo, publicado esta semana na revista Nature Communications, pode ajudar a explicar a presença de hidrogénio detetado perto da superfície em zonas inesperadas do planeta vermelho — uma descoberta com fortes implicações para futuras missões de exploração humana.
Embora se saiba que Marte tem uma superfície rica em gelo, a maioria dos depósitos conhecidos situa-se nas regiões polares. No entanto, medições mais recentes feitas em zonas equatoriais revelaram níveis elevados de hidrogénio próximo da superfície — um sinal que levanta a hipótese de haver gelo em profundidade, onde se pensava não existir.
Para investigar esta possibilidade, a equipa liderada por Saira Hamid, usou modelos climáticos planetários para simular as condições provocadas por erupções vulcânicas explosivas que ocorreram entre 4,1 e 3 mil milhões de anos atrás em Marte. Segundo os modelos, o vapor de água libertado durante estas erupções teria congelado rapidamente na atmosfera fria do planeta, provocando precipitação de gelo e originando camadas de até cinco metros de espessura em apenas três dias de atividade eruptiva.
Este gelo poderia ter-se mantido preservado durante longos períodos se ficasse enterrado sob poeiras ou detritos vulcânicos, o que tornaria possível a sua presença atual debaixo da superfície marciana, mesmo em latitudes equatoriais.
Os cientistas apontam ainda que, durante fases de maior atividade vulcânica, a libertação de ácido sulfúrico para a atmosfera pode ter desencadeado invernos globais em Marte, favorecendo a acumulação sustentada de gelo em várias regiões do planeta.
Os dados obtidos ajudam a explicar os níveis elevados de hidrogénio detetados em áreas onde, até há pouco tempo, se julgava improvável a existência de gelo. Além disso, esta nova compreensão da dinâmica entre vulcanismo e água em Marte poderá ter impacto direto nas estratégias de exploração humana do planeta, nomeadamente em missões que prevejam a utilização de recursos locais.









