A proliferação de espécies invasoras, levadas, intencionalmente ou não, pelos humanos para ecossistemas dos quais não são naturais, é considerada uma das grandes ameaças atuais à biodiversidade.
Uma nova investigação vem mostrar que é também responsável por forçar comunidades a abandonarem as suas terras.
Num artigo publicado na revista ‘Frontiers in Conservation Science’, Jamie Reaser, da consultora Rain Crow Consulting, e Arne Witt, da organização não-governamental CABI, dão alguns exemplos desses fenómeno que dizem estar a ser ignorado.
No Quénia, o cato invasor Opuntia stricta está a obrigar as comunidades pastoris a procurem novos locais onde possam alimentar os seus animais. Na Nova Caledónia, nas Ilhas Galápagos e na Polinésia Francesa, as formigas Wasmannia auropunctata, com uma picada potente e dolorosa, invadem quintas e forçam os agricultores a mudar-se. Em muitas partes de África, o jacinto-de-água (Eichhornia crassipes) está a degradar massas de água e a acabar com a fonte de sustento de comunidades de pescadores.
Por isso, a dupla de investigadores argumenta que as invasões biológicas podem pôr em risco recursos naturais essenciais à segurança humana, forçando comunidades a abandonarem as suas terras e os seus meios de subsistência.
“No que toca às espécies exóticas invasoras, muito pouca atenção tem sido prestada à relação entre a sua propagação e a migração forçada”, diz Witt.
“Ao invés, problemas mais visíveis, como as alterações climáticas e desastres naturais, têm frequentemente eclipsado os impactos das espécies exóticas invasoras nas vidas das pessoas”, acrescenta, salientando que “a migração é uma crescente preocupação global”.
Os autores recordam que, no final de 2024, pelo menos 123,2 milhões de pessoas em todo o mundo encontravam-se em situação de deslocação forçada, incluindo refugiados que atravessavam fronteiras internacionais e pessoas forçadas a deslocar-se dentro do seu próprio país.
Porque as migrações humanas podem muitas vezes intensificar tensões e conflitos sociais e promover traumas duradouros, dizem que é preciso uma atuação internacional mais robusta para “melhor compreender as ligações entre invasões biológicas e deslocamentos forçados”.
Os investigadores dizem que menos de 5% dos artigos sobre espécies invasoras abordam questões sociais ou socioecológicas, apesar do grande impacto que as invasões podem e estão já a ter nas comunidades humanas. As invasoras podem comprometer a segurança alimentar de comunidades e populações, levando a migrações forçadas e ao aumento da competição e até de conflitos sobre recursos que escasseiam. Com isso, pode também vir a fome e a pobreza.
“As migrações forçadas que acontecem como resultado de invasões biológicas são experiências traumática que podem deixar feridas profundas, tanto a nível individual como coletivo”, dizem os autores deste trabalho.
“Temos de mudar a forma como nos referimos e falamos sobre o impacto que as espécies exóticas invasoras têm nas vidas e modos de subsistência humanos. Isso contribuirá para uma maior sensibilização sobre as dimensões humanas da questão”, advogam.









