A construção dos célebres moai da Ilha da Páscoa (também conhecida como Rapa Nui) não resultou de uma gestão centralizada, mas sim do trabalho de numerosos grupos autónomos. A conclusão é apresentada num estudo publicado na revista PLOS One, conduzido por Carl Philipp Lipo, da Universidade de Binghamton (Nova Iorque), e por uma equipa internacional de investigadores.
Rapa Nui é conhecida pelas centenas de estátuas monumentais esculpidas por comunidades polinésias a partir do século XIII. A investigação arqueológica tem apontado de forma consistente para uma sociedade composta por pequenos clãs familiares, politicamente independentes. Faltava, porém, confirmar se a produção dos moai seguia a mesma lógica descentralizada.
Para responder a esta questão, os investigadores recolheram mais de 11 mil imagens da principal pedreira da ilha, Rano Raraku, e elaboraram um modelo tridimensional detalhado do local, onde permanecem centenas de moai em diferentes fases de execução. A análise desse modelo revelou 30 centros distintos de atividade de talha, com técnicas variadas, indiciando zonas de trabalho independentes. Foram também identificados vestígios de transporte das estátuas em múltiplas direções, reforçando a ausência de coordenação central.
Estas evidências contrariam a ideia de que a produção de monumentos desta escala exige uma estrutura hierárquica. As semelhanças entre os moai parecem resultar sobretudo da partilha cultural de conhecimentos, e não de equipas conjuntas de trabalho. O modelo da pedreira criado no âmbito deste estudo abre ainda novas possibilidades para futuras investigações e para a gestão patrimonial deste sítio classificado como Património Mundial da UNESCO, podendo servir de base a análises em outros locais da ilha.
“Grande parte do chamado ‘mistério’ de Rapa Nui deriva da falta de dados detalhados e acessíveis que permitam avaliar hipóteses e construir explicações”, afirmam os autores. “O modelo 3D de alta resolução que apresentamos para a pedreira de Rano Raraku — responsável por quase mil estátuas — oferece novos conhecimentos sobre os processos de organização e fabrico destas figuras megalíticas.”









