Estudo global por satélite revela os ritmos sazonais ocultos da Terra

Um novo estudo internacional liderado pela CSIRO, agência científica nacional da Austrália, revelou um mapa global dos ciclos sazonais das plantas da Terra, revelando surpreendentes pontos críticos de assincronia ecológica (ou diferenças) que podem estar a impulsionar mudanças ecológicas, evolutivas e até económicas.

Redação

Um estudo internacional inovador liderado pela CSIRO, agência científica nacional da Austrália, e pela Universidade da Califórnia em Berkeley apresentou um novo mapa dos ciclos sazonais de crescimento da Terra. O mapa revela pontos críticos globais de assincronia sazonal e demonstra as suas surpreendentes consequências ecológicas, evolutivas e até económicas.

Utilizando 20 anos de dados de satélite e uma abordagem analítica única, o estudo, publicado na revista Nature, oferece o mapa mais abrangente até à data da fenologia, ou sincronização sazonal, dos ecossistemas terrestres da Terra.

O autor principal, Drew Terasaki Hart, ecologista e analista de dados da CSIRO, afirma que o estudo identifica pontos críticos de assincronia sazonal – regiões onde locais próximos podem apresentar sincronizações sazonais drasticamente diferentes.

“A sazonalidade pode muitas vezes ser vista como um ritmo simples — inverno, primavera, verão, outono — mas o nosso trabalho mostra que o calendário da natureza é muito mais complexo. Isto é especialmente verdadeiro em regiões onde a forma e o calendário do ciclo sazonal local típico diferem drasticamente em toda a paisagem. Isto pode ter implicações profundas para a ecologia e a evolução nessas regiões”, explica.

Esses pontos críticos de assincronia sazonal são encontrados predominantemente nas regiões de clima mediterrânico e nas regiões montanhosas tropicais da Terra. O estudo oferece evidências convincentes de que a assincronia sazonal nessas regiões pode fazer com que diferentes populações de uma espécie tenham um calendário reprodutivo incompatível.

“O nosso mapa prevê diferenças geográficas acentuadas no calendário de floração e na relação genética entre uma grande variedade de espécies vegetais e animais. Explica até a complexa geografia das épocas de colheita do café na Colômbia — um país onde as plantações de café separadas por um dia de viagem pelas montanhas podem ter ciclos reprodutivos tão desfasados como se estivessem em hemisférios opostos”, sublinha.

A assincronia sazonal pode acelerar a divergência evolutiva entre essas populações e, após um tempo suficiente, pode até levá-las a se tornarem espécies distintas — talvez ajudando a explicar por que essas regiões de grande biodiversidade também tendem a ter uma riqueza excecional de espécies.

O estudo também destaca as limitações das abordagens mais padrão para a pesquisa fenológica baseada em satélite. Essas abordagens geralmente assumem ciclos sazonais simples, como os das regiões temperadas de alta latitude.

O uso de métodos inovadores e independentes do bioma permitiu à equipa representar também os ciclos de crescimento sazonais subtis e multimodais que podem ocorrer em muitas regiões tropicais e áridas, onde os métodos anteriores tinham dificuldades.

“Os métodos baseados em dados representaram melhor a diversidade global dos padrões sazonais, o que, por sua vez, nos permitiu demonstrar o valor subestimado das imagens de satélite para a compreensão da biogeografia global”.

“Sugerimos direções futuras empolgantes para a biologia evolutiva, a ecologia das mudanças climáticas e a pesquisa sobre biodiversidade, mas essa maneira de ver o mundo tem implicações interessantes ainda mais distantes, como nas ciências agrícolas ou na epidemiologia”, diz Terasaki Hart.

Esta pesquisa foi apoiada pela CSIRO, The Nature Conservancy e pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e contou com dados fornecidos pela NASA, pela PhenoCam Network, pelo iNaturalist e por várias outras fontes.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.