Uma nova investigação internacional, coordenada pela Flinders University, lançou luz sobre um dos mistérios mais persistentes da química: como é que sais simples se comportam nas superfícies dos solventes líquidos.
Através de uma técnica inovadora chamada espectroscopia de dispersão iónica, os cientistas analisaram uma série de solventes para compreender melhor a interface entre o ar e as gotículas de água presentes na atmosfera.
O professor Gunther Andersson, especialista em Física Química e Nanotecnologia na Flinders University, explica que a nova abordagem permitiu descrever de forma mais clara como os iões — como o sódio (Na⁺) e o cloro (Cl⁻), presentes no sal de cozinha — se organizam nas camadas externas dos solventes dissolvidos.
Publicado na prestigiada Journal of Colloid and Interface Science, o estudo abre caminho a avanços significativos na compreensão de reações químicas que ocorrem na atmosfera, particularmente onde as gotículas de água entram em contacto com o ar.
“Esta era uma questão em aberto há décadas”, afirma o professor Andersson, autor principal do estudo e investigador no Flinders Institute for Nanoscale Science and Technology. “Este trabalho representa um passo importante para compreender as reações químicas que ocorrem na atmosfera e que são relevantes para o ambiente”, acrescenta.
A técnica usada pode, segundo o investigador, ser comparada a um jogo de bilhar, onde “as bolas” representam átomos de diferentes massas. “Não há outra técnica que consiga investigar este fenómeno de forma tão abrangente.”
O primeiro autor do artigo, Anand Kumar — atualmente investigador no Paul Scherrer Institute, na Suíça — sublinha que a equipa pretende agora aplicar esta metodologia ao estudo da água, o solvente mais importante do planeta.
“Estamos a desenvolver uma escala baseada na tensão superficial dos solventes, para prever quais os iões que tendem a deslocar-se para as camadas mais externas e quais os que não o fazem”, explica Kumar. “Nesta escala, a água encontra-se numa extremidade, e queremos aprofundar a forma como este comportamento se manifesta nela”, conclui.
Na fase mais recente do estudo, foi utilizada uma variante da técnica — espectroscopia de dispersão iónica por colisão de impacto neutro — para medir diretamente os perfis de concentração em profundidade de iões inorgânicos monovalentes (Cl⁻, Br⁻, I⁻, Na⁺, K⁺ e Cs⁺) em quatro solventes não-aquosos: carbonato de propileno, álcool benzílico, glicerol e formamida.









