Eventos climáticos extremos ameaçam habitats de animais

Publicado na revista Nature Ecology & Evolution, o estudo indica que, até 2085, cerca de 36% dos habitats atuais de animais terrestres poderão ficar expostos a múltiplos eventos extremos, como ondas de calor, incêndios e cheias, caso o aquecimento global continue a aumentar.

Redação

Os desastres naturais estão a ter impactos cada vez mais significativos nas populações animais, numa altura em que os seus habitats seguros continuam a diminuir. A conclusão é de um novo estudo liderado pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research, que alerta para o agravamento dos riscos associados às alterações climáticas.

Publicado na revista Nature Ecology & Evolution, o estudo indica que, até 2085, cerca de 36% dos habitats atuais de animais terrestres poderão ficar expostos a múltiplos eventos extremos, como ondas de calor, incêndios e cheias, caso o aquecimento global continue a aumentar.

Impactos mais rápidos e severos

A investigação, que analisou dados de quase 34 mil espécies, revela que os efeitos das alterações climáticas na biodiversidade podem ser mais abruptos do que se pensava. Segundo Stefanie Heinicke, autora principal do estudo, os eventos extremos continuam a ser subestimados no planeamento da conservação.

“Não se trata apenas de um aumento gradual da temperatura — um único evento extremo pode devastar populações inteiras”, sublinha.

Exemplos concretos ajudam a ilustrar esta realidade, como os incêndios de 2019-2020 na Austrália, conhecidos como Black Summer bushfires, ou a onda de calor de 2011 na Austrália Ocidental, que eliminou cerca de 60% da população da espécie Carnaby’s Black Cockatoo.

Risco acumulado agrava perdas

O estudo destaca que a sucessão de eventos extremos — como secas seguidas de incêndios — pode amplificar drasticamente os impactos. Investigações anteriores já tinham demonstrado que, após os incêndios australianos, houve perdas entre 27% e 40% superiores em áreas previamente afetadas por seca.

Até 2050, e num cenário de continuação do aquecimento global, os investigadores estimam que:

  • 74% dos habitats estarão expostos a ondas de calor
  • 16% a incêndios florestais
  • 8% a secas
  • 3% a cheias fluviais

Regiões ricas em biodiversidade, como a Amazónia, África e Sudeste Asiático, estão entre as mais vulneráveis.

Segundo Katja Frieler, coautora do estudo, o impacto dos incêndios florestais surge como um dos riscos mais subestimados até agora.

Redução de emissões pode fazer a diferença

Apesar do cenário preocupante, os investigadores sublinham que ainda é possível mitigar grande parte destes impactos. Num cenário em que as emissões são rapidamente reduzidas e o aquecimento global começa a inverter, a percentagem de habitats expostos a múltiplos eventos extremos poderá cair para cerca de 9% até ao final do século.

A mensagem é clara: a ação climática rápida e eficaz será determinante para proteger a biodiversidade e evitar perdas irreversíveis nos ecossistemas.

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