Expedição científica descobre 31 novas espécies em apenas duas semanas nas águas do Brasil

Dezenas de cientistas dos Estados Unidos da América, do Brasil, da Austrália e do Japão viajaram a bordo do navio de investigação “Falkor (too)”, operado pelo Schmidt Ocean Institute, para desvendarem os segredos do que descrevem como “o maior e menos explorado ecossistema habitável da Terra”.

Filipe Pimentel Rações

Uma missão científica internacional em águas tropicais ao largo da costa do Brasil, no Atlântico Sul, descobriu 31 novas espécies marinhas que vivem entre a camada mais iluminada e o leito oceânico, em apenas duas semanas.

Dezenas de cientistas dos Estados Unidos da América, do Brasil, da Austrália e do Japão viajaram a bordo do navio de investigação “Falkor (too)”, operado pelo Schmidt Ocean Institute, para desvendarem os segredos do que descrevem como “o maior e menos explorado ecossistema habitável da Terra”.

O navio científico “Falkor (too)” transportou dezenas de cientistas até ao Atlântico Sul para explorar “o maior e menos explorado ecossistema habitável da Terra”. Foto: Alex Ingle / Schmidt Ocean Institute.

Identificar e descrever espécies novas é um trabalho árduo, que pode levar décadas a confirmar novas formas de vida, mas esta equipa conseguiu fazê-lo em poucos dias, algo que atribui à combinação entre tecnologia de ponta não invasiva, como sistemas avançados de imagem, e análises genéticas.

Da lista de novas espécies constam um tipo de minúsculos crustáceos conhecidos como anfípodes, um verme ondulante e semitransparente do género Tomopteris e nove medusas. Além disso, foram também encontrados sete novos sifonóforos, organismos coloniais constituídos por diversos animais e que são aparentados da caravela-portuguesa e dos corais, e sete ctenóforos, que parecem medusas sem tentáculos urticantes e que emitem brilhos iridescentes pelo movimento dos cílios que usam para se movimentarem.

Ainda, foram descobertos quatro novos tunicados que vivem em casas feitas de muco e que estão mais perto dos humanos do que os invertebrados, e, por fim, dois gigantes Rhizaria, organismos unicelulares visíveis à vista desarmada.

“O maior habitat da Terra, a zona das águas intermédias, está repleto de animais incríveis que só agora começamos a compreender”, diz Karen Osborn, do Smithsonian National Museum of Natural History e cientista-chefe da expedição.

“Continuo a fascinar-me com a fantástica variedade de soluções que desenvolveram para sobreviver neste ambiente formidável, e isso leva-me a continuar a fazer perguntas sobre o nosso oceano”, salienta.

Osborn diz que a equipa encontrou uma diversidade e uma abundância de vida muito maiores do que esperava, incluindo uma lula transparente e um polvo do mar profundo da espécie Haliphron atlanticus, que raramente é avistado vivo no habitat natural, a alimentar-se de uma medusa vermelha a 800 metros de profundidade.

Fêmea de polvo Haliphron atlanticus a consumir uma medusa a 800 metros de profundidade. Esta espécie é raramente avistada no seu habitat natural e quase tudo o que sobre ela se sabe advém de espécimes apanhados em redes de arrasto. Foto: ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute

Um dos marcos assinalados desta expedição foi também o uso de um microscópio confocal, batizado com o nome “Squid” (“lula” em inglês), que usam feixes de luz para examinar as estruturas internas de organismos.

“Isto abre uma nova parte à investigação sobre a fisiologia do mar profundo, ligando arquiteturas celulares às funções do organismo. Agora podemos testemunhar em tempo real os processos internos destes organismos extremos, adaptados para suportar uma pressão e escuridão imensas”, afirma Manu Prakash, da Universidade de Stanford, que participou na expedição.

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