Exposição intensa aos raios UV pode comprometer a sobrevivência dos anfíbios

Publicado na revista científica Journal of Experimental Biology, o trabalho demonstra que não é apenas a quantidade total de radiação ultravioleta B (UVB) recebida que influencia os impactos biológicos, mas também a intensidade com que essa radiação atinge os organismos.

Redação

A exposição a níveis elevados de radiação ultravioleta durante curtos períodos pode causar danos graves no ADN dos girinos, comprometendo o seu desenvolvimento e contribuindo para o declínio global das populações de anfíbios. A conclusão é de um estudo conduzido por investigadores da Universidade de Queensland, na Austrália.

Publicado na revista científica Journal of Experimental Biology, o trabalho demonstra que não é apenas a quantidade total de radiação ultravioleta B (UVB) recebida que influencia os impactos biológicos, mas também a intensidade com que essa radiação atinge os organismos.

“Descobrimos que não era apenas a dose total de UVB que importava, mas também a intensidade da exposição, que sobrecarregava os mecanismos de reparação celular e deixava danos residuais no ADN”, explica Niclas Lundsgaard, ecólogo aquático e autor principal do estudo.

Segundo os investigadores, os girinos sujeitos a exposições curtas mas intensas à radiação UVB sofreram cerca de 50% mais danos no ADN do que aqueles expostos durante períodos mais longos a níveis mais baixos de radiação, apesar de ambos os grupos terem recebido a mesma dose total de UVB.

Danos acumulam-se mais rapidamente

A investigação centrou-se em girinos da espécie australiana Limnodynastes peronii, conhecida como rã-dos-pântanos-listrada. Em ambiente laboratorial, os cientistas dividiram os animais em dois grupos: um foi exposto a radiação UV equivalente à intensidade registada ao meio-dia, durante um curto período, enquanto o outro recebeu metade dessa intensidade durante o dobro do tempo.

Os resultados mostraram que a exposição mais intensa provocou a acumulação de danos genéticos três vezes mais rapidamente e que parte desses danos persistiu para além do período de exposição.

“Tradicionalmente, assumia-se que, recebendo a mesma quantidade total de radiação, os efeitos seriam semelhantes. No entanto, verificámos que a exposição de elevada intensidade era significativamente mais prejudicial”, refere Lundsgaard.

Girinos mais pequenos são mais vulneráveis

O estudo identificou ainda que os indivíduos de menor dimensão apresentavam uma maior sensibilidade à radiação UVB, acumulando mais danos no ADN do que os girinos maiores.

Os investigadores alertam que este tipo de lesões pode afetar o crescimento dos animais, dificultar a metamorfose para a fase adulta ou mesmo provocar a sua morte.

Alterações ambientais podem agravar o problema

A descoberta surge num momento em que os cientistas procuram compreender melhor os múltiplos fatores responsáveis pelo declínio dos anfíbios em várias regiões do mundo. As alterações climáticas, as mudanças nos padrões de nebulosidade, a degradação dos habitats e a exposição crescente à radiação solar são apontadas como potenciais ameaças.

Para os autores, os resultados sugerem que episódios de radiação UV particularmente intensa poderão representar um risco superior ao anteriormente estimado para os anfíbios e possivelmente para outros grupos de animais.

“Compreender estes mecanismos nas rãs levanta novas questões sobre os impactos da radiação ultravioleta noutras espécies, uma área que merece investigação adicional”, conclui Lundsgaard.

Os anfíbios são considerados importantes indicadores da saúde dos ecossistemas, pelo que a sua vulnerabilidade crescente pode refletir alterações ambientais mais amplas com consequências para a biodiversidade.

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