O comércio ilegal de espécies selvagens, vivas, mortas ou de partes, é uma das grandes ameaças à conservação da biodiversidade.
Essa prática ilícita está associada ao mundo mais amplo do crime organizado, podendo ser usada para financiar diversas atividades ilegais, dos tráficos humano, de armas e de drogas até ao terrorismo, passando pelo branqueamento de capitais e pela corrupção.
A Interpol estima que o tráfico de vida selvagem gere aproximadamente 17 mil milhões de euros por ano, tendo a organização uma divisão especificamente dedicada ao combate a este tipo de crimes, o que revela a sua relevância no espectro mais amplo da criminalidade transnacional.
As plataformas sociais online vieram lançar mais uma camada de complexidade sobre esse combate, sendo que grande parte do tráfico de vida selvagem acontece na internet. Uma nova investigação vem agora mostrar que as redes sociais são autênticos pontos nevrálgicos desses crimes. E uma destaca-se marcadamente das demais.
No passado mês de abril, a organização Global Initiative Against Transnational Organized Crime (Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional, traduzindo para português) publicou um relatório no qual revela que, comparativamente com plataformas como o WhatsApp, o TikTok, o YouTube ou o OLX, é no Facebook que acontece grande parte do comércio ilegal de animais selvagens.
Com base em dados recolhidos em quatro continentes sobre o tráfico online de vida selvagem, entre 14 de abril de 2024 e 1 de março de 2026, foram registados 21.904 anúncios online que apresentavam 266.535 produtos de vida selvagem, incluindo quase 9.000 animais vivos, em 61 plataformas online. Perto de 60% apresentavam também os preços de venda, somando algo como 56 milhões de euros.
Desse total, 16.290 anúncios, ou cerca de 75%, foram detetados no Facebook, cujos preços de venda pedidos, somados, totalizavam perto de 55 milhões de euros. O WhatsApp tem 5% dos anúncios, o TikTok 2%, o YouTube 1,6% e o OLX 1,4%.
“As evidências mostram que o Facebook não é apenas uma plataforma entre muitas”, escrevem no relatório os autores Russell Gray e Simone Haysom. “Trata-se da infraestrutura pública central”, dizem, através da qual o tráfico online de vida selvagem está a ser fortemente amplificado.
A maior parte dos anúncios detetados no Facebook envolviam espécies altamente protegidas e cujo comércio é, supostamente, fortemente regulado: 84% dos anúncios estavam associados a espécies integradas no Apêndice I da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES), cujo comércio internacional é estritamente proibido. Outros 14,6% diziam respeito a espécies no Apêndice II, cuja comercialização é fortemente regulada.
Ainda, 58% dos anúncios diziam respeito a espécies classificadas como “Em Perigo” ou “Criticamente em Perigo” de extinção na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza. A maioria dos anúncios detetados no Facebook (76%) estava ativa em grupos exclusivos.
De acordo com os autores do relatório, foi detetada atividade de tráfico ilegal de vida selvagem, no âmbito deste trabalho, em três continentes e em 21 línguas e dialetos distintos. Por isso, lembram, este é um problema “estruturalmente transnacional”.
Entre as espécies mais visadas nos anúncios contam-se calaus, pangolins (considerado o mamífero mais traficado do mundo), gibões e panteras-nebulosas, entre muitas outras.
Dizem Russell Gray e Simone Haysom que a mensagem-chave desta investigação não é que tráfico de vida selvagem ocorra no Facebook, mas sim que o Facebook se tornou a plataforma pública dominante para esse tipo de crimes. Há anos que essa rede social, recorda o par, tem vindo a ser criticada por permitir que a sua estrutura seja usada para este e outros tipos de crimes.
“Contudo, as evidências apresentadas mostram que a plataforma continua a funcionar como uma ferramenta de descoberta, uma infraestrutura comunitária e um facilitador comercial do tráfico de vida selvagem”, salientam os especialistas, que defendem regras mais apertada sobre o uso que é feito destas plataformas.









