Falta de conhecimento, preconceitos e interesses económicos ameaçam insetos e aracnídeos nos EUA

Uma dupla de investigadores revela que nos Estados Unidos da América (EUA) 88,5% das espécies de insetos e aracnídeos que ocorrem nesse país não têm qualquer estatuto de conservação. Ou seja, não se sabe se estão em declínio ou a prosperar, nem quais as principais ameaças que enfrentam atualmente.

Filipe Pimentel Rações

Apesar de serem vistos com medo e até repulsa por muitos, os insetos e os aracnídeos são elementos fundamentais dos ecossistemas, polinizando as plantas, controlando populações que se podem tornar pragas e reciclando nutrientes.

Contudo, vários obstáculos impedem que esses pequenos rastejantes sejam devidamente protegidos das ações humanas e dos seus efeitos no planeta. Um estudo da Universidade de Massachusetts Amherst, publicado recentemente na revista ‘PNAS’, revela que nos Estados Unidos da América (EUA) 88,5% das espécies de insetos e aracnídeos que ocorrem nesse país não têm qualquer estatuto de conservação devido à falta de dados. Ou seja, não se sabe se estão em declínio ou a prosperar, nem quais as principais ameaças que enfrentam atualmente.

“Não sabemos simplesmente como é que eles estão”, lamenta Laura Figueroa, coautora. “Quase nada se sabe sobre as necessidades de conservação da maioria dos insetos e dos aracnídeos na América do Norte”, afirma.

Figueroa e Wes Walsh, primeiro autor do estudo, queriam perceber qual o estado desses artrópodes nos EUA, mas, quando lançaram mãos ao trabalho, depararam-se com falhas profundas no conhecimento científico. Por isso, com este estudo pretendem chamar a atenção para o que descrevem como “uma necessidade urgente” para avaliar, proteger e valorizar os insetos e aracnídeos, que são fundamentais para o bom funcionamento dos ecossistemas e também para as sociedades humanas.

“Eles contribuem para a polinização e para o controlo biológico de pragas, servem como indicadores da qualidade do ar e da água, e até conseguiram penetrar profundamente em muitas culturas pelo mundo fora”, aponta a investigadora.

No entanto, ao contrário de “animais carismáticos e populares”, como leões ou pandas, os insetos e os aracnídeos “normalmente não recebem a mesma atenção”, diz Figueroa.

Esta investigação teve por base a análise de avaliações de conservação de 99.312 espécies conhecidas de insetos e aracnídeos da América do Norte, com a exceção do México.

Desse exame, a equipa conclui que os poucos dados que há tendem a priorizar espécies aquáticas que são consideradas importantes para monitorizar a qualidade da água, tais como as efémeras, os plecópteros e os tricópteros. Além disso, é apontado que grupos de insetos mais carismáticos, como as borboletas e as libélulas, recebem uma “quota-parte desproporcional” das proteções com vista à conservação dentro do mundo dos artrópodes.

“Os aracnídeos, em particular, estão realmente ausentes da conservação”, lamenta Walsh. “Precisamos de mais dados e de mais proteção para os insetos, mas também para os aracnídeos.”

Para o investigador, esses dois grupos de animais são “mais do que objetos de medo”, e defende que “temos de apreciá-los pela sua importância ecológica, e isso começa com a recolha de mais dados e a consideração de que vale a pena conservá-los”.

A dupla de investigadores diz ainda que, no caso dos EUA, os estados que dependem mais de indústrias extrativas, como mineração e exploração de combustíveis fósseis, são menos propensos a proteger aranhas e insetos, pois isso colide com os seus interesses económicos. “A maioria dos estados [norte-americanos] não protege uma única espécie” de aracnídeo, aponta Walsh.

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