Não é já novidade para ninguém que os insetos polinizadores são indispensáveis para a produtividade agrícola e alimentar.
Abelhas, borboletas, mariposas e moscas-das-flores, entre outros, transportam pólen de umas plantas para as outras durante as suas viagens em busca de alimento, promovendo a diversidade genética vegetal e a resiliência e saúde das culturas das quais nós, humanos, dependemos. Além disso, mantêm serviços de ecossistema que são fundamentais para a nossa espécie e para muitas outras.
No entanto, os insetos polinizadores são um dos grupos de animais mais ameaçados do planeta, devido à destruição dos seus habitats, a práticas agrícolas insustentáveis e ao uso de pesticidas. Também as alterações climáticas são um dos grandes perigos.
Na Europa, por exemplo, estima-se que cerca de 40% das moscas-das-flores, 20% das borboletas e 9% das abelhas estejam em risco de extinção, espécies que, no seu conjunto, são essenciais para a polinização e produtividade de perto de 80% das culturas e flores silvestres na União Europeia. Estima-se que a polinização no bloco tenha um valor económico de entre cinco e 15 mil milhões de euros por ano.
Assim se vê que o declínio acentuado que está a afetar os polinizadores poderá ter profundas repercussões ecológicas e económicas. Agora, uma nova investigação vem revelar mais uma dimensão deste problema: os impactos na saúde humana.
Uma equipa de investigadores, liderada pela Universidade de Bristol (Reino Unido), estudou a relação entre 10 pequenas vilas agrícolas no Nepal e as paisagens circundantes, com o objetivo de desvendar “toda a cadeia de ligações” entre polinizadores selvagens, produtividade agrícola e os nutrientes de que as famílias precisam. Assim, foi possível mostrar como os polinizadores suportam diretamente tanto a nutrição quanto a subsistência humanas.

Num artigo publicado na revista ‘Nature’, os cientistas constataram que os insetos polinizadores são “cruciais”, sendo responsáveis por 44% do rendimento agrícola das pessoas e por mais de 20% da ingestão de vitamina A, ácido fólico e vitamina E.
Por isso, concluem que o declínio dos polinizadores leva a uma nutrição mais deficiente das famílias, o que, por sua vez, leva a uma maior vulnerabilidade a doenças e infeções e a ciclos mais profundos de pobreza e de más condições de saúde. A isso, os investigadores chamam de “fome oculta”, da qual sofre um quarto da população mundial.
Por isso, a equipa por trás deste trabalho diz que proteger os polinizadores é proteger a saúde humana, e que “coisas simples”, como plantar flores silvestres, usar menos pesticidas e criar abelhas nativas, podem ajudar a aumentar o número de polinizadores, e a fortalecer a Natureza, o bem-estar das pessoas, a segurança alimentar e a resiliência económica.
“O nosso estudo mostra que a biodiversidade não é um luxo, é fundamental para a nossa saúde, nutrição e subsistência”, declara Thomas Timberlake, primeiro autor do artigo.
“Ao revelar como espécies como os polinizadores contribuem para os alimentos que consumimos, destacamos não só os riscos que a perda de biodiversidade representa para a saúde humana, mas também as enormes oportunidades para melhorar a vida das pessoas através da colaboração com a natureza”, acrescenta.
Naomi Saville, da University College London e coautora do estudo, diz que “mais de metade das crianças do nosso estudo apresentavam estatura abaixo do normal para a sua idade, o que se deve, em grande parte, a uma alimentação deficiente que depende de vegetais, leguminosas e frutas polinizadas por insetos”.
“À medida que a biodiversidade dos polinizadores diminui, a perda de vitamina A, ácido fólico e proteínas na alimentação pode prejudicar ainda mais a saúde e o desenvolvimento destas crianças, pelo que os esforços para restaurar as populações de polinizadores são cruciais”, avisa.
Estima-se que, globalmente, existam cerca de dois mil milhões de pessoas que dependem da agricultura de pequena escala e que muitas delas sofrem de deficiências vitamínicas. Por isso, os investigadores asseveram que proteger os ecossistemas que suportam a produção de alimentos nutritivos é essencial para o desenvolvimento sustentável.









