Fóssil esquecido durante décadas ajuda a reescrever capítulo da evolução animal

A descoberta resulta de um estudo internacional liderado pela Flinders University, que analisou um espécime pouco estudado conservado nas coleções do Smithsonian Institution. Os resultados serão publicados na revista científica BMC Biology.

Redação

Um fóssil com cerca de 500 milhões de anos, armazenado durante décadas numa coleção museológica, está a fornecer novas pistas sobre um dos períodos mais enigmáticos da história da vida na Terra e poderá obrigar os cientistas a rever algumas ideias sobre a evolução dos primeiros animais complexos.

A descoberta resulta de um estudo internacional liderado pela Flinders University, que analisou um espécime pouco estudado conservado nas coleções do Smithsonian Institution. Os resultados serão publicados na revista científica BMC Biology.

O fóssil pertence a uma nova espécie denominada Magnicornaspis garwoodi, um artrópode ancestral relacionado com a linhagem evolutiva que mais tarde daria origem a aranhas e escorpiões.

Segundo os investigadores, o animal possuía uma ampla estrutura cefálica, corpo segmentado e espinhos defensivos, características típicas do grupo dos corcoraniídeos. O espécime foi encontrado perto do Quebeque, no Canadá, em rochas sedimentares formadas durante o final do período Câmbrico.

A importância da descoberta vai além da identificação de uma nova espécie. O fóssil ajuda a preencher uma lacuna conhecida pelos paleontólogos como “hiato furongiano”, um intervalo entre aproximadamente 497 e 485 milhões de anos atrás, durante o qual o registo fóssil apresenta uma escassez aparente de organismos.

Durante décadas, alguns cientistas consideraram que essa falta de fósseis poderia refletir uma diminuição real da biodiversidade, possivelmente associada a alterações climáticas, mudanças na química dos oceanos ou instabilidade ambiental.

No entanto, os autores do estudo defendem agora uma interpretação diferente. Segundo Russell Bicknell, investigador da Flinders University e autor principal do trabalho, o problema poderá não estar na ausência de vida, mas sim nos locais e tipos de rochas que têm sido estudados.

A descoberta de novos fósseis provenientes deste período tem vindo a revelar ecossistemas cada vez mais diversificados e complexos, sugerindo que a vida marinha continuou a prosperar durante o final do Câmbrico.

Para Julien Kimmig, do Karlsruhe Institute of Technology, o chamado hiato furongiano poderá refletir sobretudo uma limitação da investigação científica e não um verdadeiro colapso da biodiversidade.

O fóssil agora descrito foi originalmente recolhido em 1962 durante trabalhos de cartografia geológica no Canadá e permaneceu praticamente esquecido durante mais de seis décadas. A sua redescoberta reforça a importância das coleções museológicas para a investigação científica.

“Grandes descobertas nem sempre resultam de novas escavações”, salientam os investigadores, destacando que milhares de espécimes recolhidos ao longo do último século permanecem pouco estudados em museus de todo o mundo.

A equipa considera que a reanálise desses materiais com técnicas modernas poderá continuar a revelar informações fundamentais sobre a evolução da vida e os ecossistemas que existiram há centenas de milhões de anos.

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