Fundação BNP Paribas Portugal traz a biodiversidade para o centro da conversa pública. Conhecimento científico é “absolutamente crítico”, diz presidente

A organização quer trazer para o centro da conversa pública temas como a conservação da biodiversidade marinha, a inclusão social através do emprego de pessoas em situação de vulnerabilidade e a promoção do acesso a atividades culturais.

Filipe Pimentel Rações

Esta quarta-feira, 22 de abril, no Dia Mundial da Terra, a Fundação BNP Paribas Portugal realizou a primeira de um conjunto de pelo menos três conferências para contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade portuguesa.

Para tal, a organização quer trazer para o centro da conversa pública temas como a conservação da biodiversidade marinha, a inclusão social através do emprego de pessoas em situação de vulnerabilidade e a promoção do acesso a atividades culturais.

A conferência de estreia, com o título “Biodiversidade: da célula aos gigantes do mar”, centrou-se nas ameaças que os mundos marinhos e oceânicos enfrentam nesta era conhecida, ainda que não oficialmente, como Antropoceno.

Em conversa com a Green Savers, à margem do evento, Luciana Peres, presidente da fundação, disse que o objetivo é dar destaque a um tema que tem sido, de alguma forma, pouco falado, pelo menos em comparação, por exemplo, com as alterações climáticas.

Tendo recebido luz verde em novembro do ano passado, por parte da fundação-mãe, para começar os trabalhos, a fundação portuguesa apercebeu-se de que havia interesse em trazer a biodiversidade para o debate público. Especialmente depois de dois projetos portugueses, ambos da iniciativa Biopolis (que junta academia, empresas, governos e sociedade civil), terem conquistado financiamento, de um total de 163 candidatos a nível mundial, da Fundação BNP Paribas internacional.

Os projetos em questão são o “OCEANPATH”, focado na criação de corredores de migração marinha para tubarões-azuis, tubarões-mako e baleias, e o “SHOW-IT”, para o estudo, em aquário, do impacto do aquecimento dos oceanos no desenvolvimento dos sistemas imunitários e motores do tubarão pata-roxa no Atlântico e no Mediterrâneo.

“Acreditamos sinceramente que contribuir para um conhecimento baseado na Ciência é algo absolutamente crítico para que as pessoas possam tomar boas decisões, seja enquanto consumidores, empresas ou governos”, explicou a responsável.

“Os eixos estratégicos da fundação estão alinhados também com a responsabilidade social do banco e a interconexão e os impactos que estes temas têm nas atividades económicas, nas atividades desenvolvidas pelas empresas que são nossas clientes, é enorme”, asseverou.

Luciana Peres salientou também a importância de uma abordagem “cada vez mais em conjunto” para refletir sobre estas crises globais, com impactos locais, e sobre possíveis soluções, juntando à mesma mesa empresas, a academia, os governos e a sociedade civil. As empresas, referiu, “são uma peça que não pode ser deixada de fora da conversa”, pelo que é preciso que o conhecimento científico ajude as empresas a orientarem e até a reverem as suas práticas “à luz daquilo que vão ser as consequências das alterações climáticas e da perda de biodiversidade”.

“Não podemos, de todo, deixar as empresas fora disto e as empresas também não devem querer estar fora disto”, sublinhou, acrescentando que as crises climática e de perda de biodiversidade são cada vez mais vistas como riscos para as empresas, mas também, ao mesmo tempo, oportunidades para que as organizações possam, da melhor forma, adaptar os seus modelos de negócio e a forma como operam à realidade que as rodeia e, com isso, obterem maior sustentabilidade e resiliência.

Investir na proteção na Natureza não é deitar dinheiro à rua, acredita Luciana Peres, “por isso é que hoje em dia se fala muito de capital natural, que era tomado como algo garantido, mas não é de todo”. “É um capital que se está a tornar cada vez mais importante e que todos temos de defender e no qual temos de investir”, argumentou.

Vozes de quem estuda e vive no e do mar

O evento contou também com uma intervenção de Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto. O biólogo, docente universitário e investigador salientou a articulação entre Academia, Empresas, Governos e Sociedade Civil como indispensável para que o conhecimento possa orientar as tomadas de decisão.

Apontando para que a biosfera da Terra está a ser “completamente alterada pelo Homem”, Ferrand recordou o importante marco do Acordo de Kunming-Montreal de 2022, para proteger 30% dos habitats marinhos e terrestres até 2030, e a centralidade de órgãos e fóruns internacionais como o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) e o Painel Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços de Ecossistema (IPBES), além das COPs.

Professor Nuno Ferrand, investigador e diretor do CIBIO.

Lembrando a extinção dos dinossauros há cerca de 65 milhões de anos, por um asteroide de que “refez a vida na Terra”, o investigador disse que também o humano está a provocar alterações profundas nos sistemas vivos, incluindo uma “sexta extinção em massa” que está em curso e que, dos dois milhões que se conhecem atualmente, está a ameaçar parte significativa das espécies.

Entender os impactos das atividades humanas na “diversidade da vida”, declarou Ferrand, é indispensável para se conseguir ter sociedades humanas mais sustentáveis.

A conferência encerrou com uma mesa-redonda que juntou vozes distintas, mas todas ligadas pelo mar: Raquel Gaspar, bióloga marinha e cofundadora da organização não-governamental Ocean Alive, Bernardo Freitas, velejador profissional que participou nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012 e percorreu os oceanos do mundo na Volvo Ocean Race 2017-18, e Nuno Queiroz, gestor do projeto “OCEANPATH” e investigador do CIBIO especializado em tubarões.

Mesa-redonda (da esquerda para a direita): José Maria Pimentel (moderador); Raquel Gaspar da Ocean Alive; Bernardo Freitas, velejador profissional; Nuno Queiroz investigador do CIBIO.

Todos foram unânimes na necessidade de se perceber que tudo está interligado: o que se faz em terra tem impactos no mar e vice-versa, e que olhar para os mundos marinhos como uma extensão de nós próprios é crucial para que entendamos a sua importância e a urgência da proteção.

“Foi ao olhar para os olhos de uma baleia que percebi a beleza do oceano”, recordou Raquel Gaspar, que frisou que é importante também olhar, ouvir e aprender com as pessoas que mais intimamente lidam com os mares, como pescadores e mariscadores, envolvendo-as diretamente na criação de soluções para preservar o mundo natural do qual elas, e todos nós, tanto dependem.

Nuno Queiroz, para quem mergulhar com tubarões é tão natural como respirar fora de água para os restantes de nós, referiu que a intensa presença humana nos mares é um grande problema para a conservação desses habitats e ecossistemas, especialmente devido a impactos como a poluição sonora e o lixo.

“Chegámos a apanhar tubarões com limões no estômago”, lembrou, apontando que “o impacto que estamos a ter é imenso” e que muito do lixo marinho não tem origem em terra, mas sim nas atividades humanas que acontecem mesmo no mar.

Por seu lado, Bernardo Freitas contou que, em pleno mar, já testemunhou o melhor, ao avistar um sem-número de animais que atestam a grande biodiversidade dos oceanos, e também o pior, os efeitos da presença humana nesses mundos de água salgada.

O velejador disse ter já encontrado lixo de todas as formas e feitios a boiar nas ondas, de cotonetes e sacos de plástico a televisões. A pegada humana é visível mesmo “nos locais mais remotos do planeta, onde estamos mais perto do Espaço do que de terra”.

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