Gafanhotos conseguem detetar “químicos eternos” no ambiente e podem inspirar novas tecnologias para combater poluição

Sendo difíceis de detetar e de erradicar, os “químicos eternos” são um dos maiores problemas de poluição dos dias de hoje. Mas um grupo de investigadores fez uma descoberta que pode ajudar a fortalecer a nossa capacidade para combater os PFAS.

Redação

Os chamados “químicos eternos” são substâncias químicas criadas pelos humanos, tóxicas e altamente resistentes à degradação natural. Por isso, podem persistir no ambiente, contaminando-o, durante muito tempo.

Esses químicos, também conhecidos pela sigla científica PFAS (substâncias per- e polifluoroalquiladas), são usados num sem-número de objetos do dia-a-dia, sobretudo pelas suas propriedades de resistência à água e à gordura. Atualmente, são conhecidos milhares de PFAS, sendo os mais amplamente usados e estudados o PFOA e o PFOS.

Com impactos graves na saúde dos humanos, plantas e outros animais, já foram encontrados em praticamente todos os ecossistemas do planeta, incluindo nas regiões mais remotas, como no Ártico. Sendo difíceis de detetar e de erradicar, os “químicos eternos” são um dos maiores problemas de poluição dos dias de hoje.

Mas um grupo de investigadores fez uma descoberta que pode ajudar a fortalecer a nossa capacidade para combater os PFAS.

Num artigo publicado na revista ‘Journal of Hazardous Materials Advances’, cientistas da Universidade Estadual do Michigan e da Universidade da Califórnia em San Diego (Estados Unidos da América) revelam que os gafanhotos (da espécie Schistocerca americana) são capazes de detetar PFAS, e inclusivamente detetar vários tipos dessas substâncias sintéticas.

Em laboratório, a equipa analisou a atividade cerebral de gafanhotos expostos a gases contendo vários tipos de “químicos eternos”, incluindo PFOS, e percebeu que cada um desencadeava uma resposta neuronal distinta na parte do cérebro associada ao olfato. Ou seja, cada tipo de PFAS provocava uma “impressão digital odorífera” única.

Além disso, os investigadores dizem ter confirmado que os gafanhotos conseguem detetar concentrações de PFOS semelhantes à encontradas em amostras ambientais contaminadas.

A equipa admite ter ficado surpreendida com a descoberta, pois os PFAS são químicos inteiramente criados pelos humanos. Diferentes dos odores naturais que os gafanhotos evoluíram para detetar e reconhecer, os “químicos eternos” existem ainda nem há um século, pelo que os autores do estudo não têm a certeza por que razão o sistema sensorial desses insetos reage tão fortemente a eles.

“Por alguma razão, o sistema sensorial do inseto é capaz de detetar estes químicos feitos pelos humanos, apesar de não ocorrerem naturalmente no ambiente”, diz Debajit Saha, principal coautor do artigo.

Os cientistas acreditam que esta descoberta pode inspirar a criação de sistemas de deteção de PFAS eficazes e mais baratos. Atualmente, essa deteção é feita com recurso a instrumentos laboratoriais, como espectrometria de massa, que, embora altamente precisos, são caros e exigem instalações especializadas e não podem ser levados para o terreno.

Além disso muitos sistemas de deteção existentes conseguem apenas detetar tipos específicos de PFAS, não permitindo análise mais abrangentes da contaminação.

A equipa pretende converter o sistema de deteção do gafanhoto numa tecnologia portátil que permita, rapidamente, identificar e analisar vários PFAS fora do laboratório.

“A biologia pode fornecer uma forma completamente diferente de detetar PFAS”, diz Saha. “Se os sistemas sensoriais vivos foram capazes de reconhecer estes químicos, talvez possamos desenvolver ferramentas mais rápidas e versáteis para monitorizar a contaminação”, acrescenta.

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