Entre 11 de novembro de 2024 e 27 de novembro de 2025, um jaguar (Panthera onca) entrou para os livros da história da ecologia ao percorrer 2.122 quilómetros no Brasil, entre os biomas da Amazónia e do Cerrado.
Batizado com o nome “Gaspar”, o animal é um macho adulto com cerca de 92 quilogramas de peso, equipado com uma coleira GPS que permitiu aos cientistas acompanhar os seus movimentos e esta longa dispersão, que consideram não ter precedentes.
Num artigo publicado na revista ‘Ecology’, é explicado que a monitorização do Gaspar fazia parte de um projeto implementado no Brasil para estudar como é que os jaguares usam o espaço ao longo do Rio Araguaia, tido como um corredor importante para a espécie que liga a savana do Cerrado e a floresta húmida da Amazónia.

A grande viagem deste felídeo selvagem durou 381 dias, durante os quais percorreu em média 9,79 km por dia a uma velocidade de cerca de 0,4 km por hora. Houve já outros casos registados de jaguares com maiores distâncias percorridas por dia, incluindo animais na mesma região, mas o que distingue Gaspar desses outros membros da sua espécie é a longa distância percorrida e o facto de ter feito vários quilómetros por dia durante meses a fio.
Por isso, os cientistas dizem que “a dispersão de 2100 km de Gaspar representa um dos mais longos eventos de dispersão registados para um felídeo neotropical”, acrescentando que excede largamente as distâncias registadas até agora para jaguares, sendo comparável à mais longa dispersão de um puma macho que viajou 2.700 km da Dakota do Sul até ao Connecticut, nos Estados Unidos da América.
Assim, os autores declaram que a grande aventura de Gaspar é “verdadeiramente excecional”, e durante esse percurso atravessou não só zonas de vegetação natural, mas também áreas modificadas pelos humanos, como pastos e plantações, por exemplo, de arroz e de cana-de-açúcar. Isso mostra, segundo os investigadores, “persistência notável e plasticidade comportamental perante barreiras antropogénicas e fragmentação de habitat”.

Contudo, sublinham que as regiões da Amazónia e do Pantanal, onde estão as principais populações de jaguares da região, estão cada vez mais ameaçadas pela desflorestação, pela expansão agrícola e pelo desenvolvimento de infraestruturas como estradas. E esses mesmos fatores afetam também o Cerrado e a Mata Atlântica, onde sobrevivem populações mais pequenas e isoladas.
Olhando para o percurso feito por Gaspar, é fácil perceber os perigos que ele e a sua espécie, e outras, enfrentam: estima-se que a Amazónia tenha perdido mais de 33% da sua área natural original, incluindo florestas, e que o Cerrado, tenha perdido 46% da sua vegetação nativa devido à agricultura, criando “uma paisagem altamente fragmentada que impede o movimento de grandes carnívoros”, lê-se no estudo.
Como tal, esta equipa chama a atenção para a importância de ligar todas essas áreas e as populações de jaguares, permitindo o fluxo de genes entre os núcleos, conferindo aos indivíduos e, no final de contas, à espécie a resiliência necessária para sobreviverem numa paisagem cada vez mais alterada pelos humanos.
Dado o amplo padrão de deslocação de Gaspar, e de outros carnívoros de grande porte, os investigadores dizem que as áreas protegidas tradicionais podem não ser suficientes para conservar estas espécies altamente móveis. Parte da solução, defendem, deve ser remover barreiras à deslocação segura dos animais selvagens, mesmo em zonas de presença humana, como culturas agrícolas, permitindo a ligação entre as várias paisagens, e também investir na promoção de medidas de mitigação de conflitos entre jaguares e criadores de gado para reduzir o risco de mortalidade.
“À medida que a fragmentação de habitats acelera em toda a região neotropical, compreender e proteger os corredores de movimentação revelados por indivíduos como ‘Gaspar’ torna-se cada vez mais importante para a persistência das populações de jaguares e para a manutenção da integridade dos ecossistemas nas paisagens de maior biodiversidade da América do Sul”, sentenciam os cientistas.









