Gatos em vídeos online mostram sinais de stress que muitos espectadores confundem com brincadeira

Investigadores analisaram 1.100 comentários a 11 vídeos publicados no YouTube, TikTok, Instagram e Facebook, nos quais os próprios autores descreviam as interações com os gatos como “brincadeira”. No entanto, os vídeos apresentavam sinais claros de desconforto ou stress por parte dos animais, incluindo bufos, mordidelas, tentativas de fuga e situações em que os gatos chegaram a ferir visivelmente as pessoas envolvidas.

Redação

Os gatos podem ser alguns dos animais mais populares da internet, mas um novo estudo alerta que a forma como o seu comportamento é interpretado nas redes sociais pode estar a contribuir para normalizar interações que comprometem o seu bem-estar.

Investigadores da School of Animal and Veterinary Sciences da Adelaide University analisaram 1.100 comentários a 11 vídeos publicados no YouTube, TikTok, Instagram e Facebook, nos quais os próprios autores descreviam as interações com os gatos como “brincadeira”.

No entanto, os vídeos apresentavam sinais claros de desconforto ou stress por parte dos animais, incluindo bufos, mordidelas, tentativas de fuga e situações em que os gatos chegaram a ferir visivelmente as pessoas envolvidas. Em alguns casos, os animais eram mesmo fisicamente magoados durante a interação.

Apesar destes sinais, entre 75% e 93% dos comentários em todos os vídeos analisados eram positivos relativamente às interações.

Quando o stress é confundido com brincadeira

Através de uma análise temática dos comentários, os investigadores identificaram nove padrões na forma como os espectadores interpretavam ou justificavam comportamentos potencialmente prejudiciais.

Um dos problemas identificados foi a dificuldade em reconhecer sinais básicos da linguagem corporal dos gatos. Alguns comentadores consideravam que, se um animal estivesse realmente em sofrimento, a reação seria muito mais evidente. Outros entendiam que, se o gato não fugisse ou não chegasse a provocar uma ferida com sangue, então estaria simplesmente a brincar.

Também houve quem interpretasse mordidelas, arranhões e outros sinais de desconforto como manifestações de afeto, considerando que tolerar esses comportamentos fazia parte de “amar um gato”.

Noutros casos, os utilizadores defendiam que insistir numa interação apesar do desconforto do animal seria necessário para “conquistar” a sua confiança ou que não haveria problema desde que o gato confiasse na pessoa.

A aparência dos vídeos também parece desempenhar um papel importante. Alguns espectadores desvalorizavam sinais de stress porque consideravam o gato, a pessoa ou a própria interação “fofa” ou “engraçada”. Houve ainda comentadores que admitiram sentir prazer ao assistir ao desconforto dos animais.

Quando outros utilizadores manifestavam preocupação com o bem-estar dos gatos, eram frequentemente ridicularizados ou acusados de exagerar.

As redes sociais podem mudar a perceção do que é normal

Segundo os investigadores, o fenómeno poderá não resultar apenas de uma simples dificuldade em interpretar o comportamento felino. Os comentários analisados revelam também mecanismos como a negação, a desvalorização e a atitude defensiva perante situações que entram em conflito com a ideia que os espectadores têm de uma interação positiva entre humanos e gatos.

O estudo encontrou ainda paralelos preocupantes entre algumas das justificações utilizadas pelos comentadores e discursos sociais mais amplos relacionados com a culpabilização das vítimas, incluindo argumentos como “porque é que ela não foi embora?” ou “porque é que não lutou?”.

Para os autores, estas conclusões são particularmente relevantes numa altura em que a brincadeira é cada vez mais promovida como uma forma de criar laços com os animais e proporcionar-lhes enriquecimento.

A questão, defendem, não passa por deixar de brincar com os gatos, mas por aprender a reconhecer os sinais de desconforto e respeitar a autonomia do animal durante essas interações.

Os investigadores consideram que campanhas de sensibilização sobre bem-estar animal devem ir além da transmissão de informação sobre linguagem corporal. É necessário também compreender e combater as crenças e os padrões sociais que levam as pessoas a interpretar positivamente comportamentos potencialmente prejudiciais.

Há, contudo, um dado positivo: a maioria dos espectadores parecia genuinamente preocupar-se com o bem-estar dos gatos. Isto sugere que as interações prejudiciais nem sempre resultam de falta de empatia, mas podem estar relacionadas com a forma como as redes sociais moldam a perceção do comportamento e das emoções dos animais.

A popularidade de vídeos que mostram gatos em situações de desconforto, apresentados como momentos divertidos ou engraçados, poderá contribuir para tornar essas interações cada vez mais familiares e, consequentemente, para alterar a perceção sobre aquilo que é aceitável para um gato.

O estudo foi publicado na revista Anthrozoös.

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