A cor distinta do pelo de dois dos marsupiais mais raros da Austrália pode dever-se a genes de pigmentação “partidos”, revela um novo estudo da Universidade La Trobe. O misterioso toupeira-marsupial, que habita os desertos australianos, e a forma negra da espécie ameaçada quoll oriental são exemplos de um fenómeno genético mais comum do que se pensava entre marsupiais.
Em muitas espécies, variações de cor como o melanismo (pelo escuro) ou o xantismo (pelo amarelado) são consideradas anomalias cromáticas prejudiciais à sobrevivência. Contudo, a investigação publicada na revista Biology Letters mostra que, em vários marsupiais, estas variações não só são frequentes, como podem ser universais dentro de cada espécie.
Nos quolls orientais de pelagem negra, os cientistas identificaram a ausência de um segmento de ADN que desativa o gene ASIP (Agouti Signalling Protein), responsável pela produção da pigmentação amarelada ou avermelhada chamada feomelanina. Curiosamente, uma falha quase idêntica foi detetada no diabo-da-tasmânia, uma espécie aparentada, também com pelagem escura. Ao comparar as sequências genéticas, os investigadores concluíram que ambos perderam o gene ASIP de forma independente — um exemplo claro de evolução convergente.
A equipa analisou ainda o genoma recentemente publicado do toupeira-marsupial, um mamífero conhecido por “nadar” nas areias do deserto. Esta espécie apresenta uma pelagem amarela pálida, resultado da ausência de eumelanina (pigmento escuro). Neste caso, a mutação ocorre no gene MC1R (Melanocortin 1 Receptor), que normalmente regula a deposição de eumelanina, mas que é interrompido por uma alteração genética que o impede de funcionar.
Segundo o autor principal, Charles Feigin, os genes ASIP e MC1R atuam como um “interruptor molecular” entre a produção dos dois principais pigmentos dos mamíferos — a eumelanina e a feomelanina. “Quando um dos lados deste interruptor falha, o equilíbrio desaparece e apenas um tipo de pigmento é produzido”, explicou.
“Embora as consequências evolutivas destas variações de cor em marsupiais ainda não sejam totalmente compreendidas, os chamados ‘genes partidos’ parecem desempenhar um papel essencial na sua origem”, conclui Feigin.









