As migrações estão entre os maiores mistérios e as maiores maravilhas do mundo natural. Todos os anos, vários animais percorrem centenas ou milhares de quilómetros, para se alimentarem, reproduzirem ou para passarem os meses mais frios ou mais quentes.
Contudo, como é que esses locais são escolhidos e como é que os animais conseguem, de forma tão precisa, dar com eles, têm permanecido perguntas sem respostas, pelo menos sem respostas que não deixem grandes margens para dúvidas. Agora, uma nova investigação vem mostrar que as rotas migratórias de uma espécie de ave canora são definidas tanto pelo seu código genético como por fatores ambientais.
Através de dispositivos colocados como se fossem pequenas “mochilas”, um grupo de cientistas estudou as migrações de papa-moscas-pretos (Ficedula hypoleuca), seguindo as pequenas aves ao longo de milhares de quilómetros sobre a terra e sobre o mar.
Coordenada pela Universidade de Groningen (Países Baixos), em colaboração com outras instituições europeias, a investigação revela que papa-moscas-pretos de diferentes regiões da Europa acabam por chegar aos mesmo locais de invernada em África, seguindo rotas consistentes, mesmo que não sejam as mais diretas.
Partindo de Espanha, dos Países Baixos, da Suécia ou da Sibéria, as aves foram seguidas até aos seus locais de invernada. De acordo com os resultados, todas as populações pararam primeiro em Espanha ou em Portugal para passarem o outono. Daí, partiram num voo sem paragens de cerca de 40 horas sobre o Atlântico até à ponta mais ocidental de África, seguindo, depois, em direção a leste.
Alguns papa-moscas-pretos não se aventuraram para muito mais longe, como os da população que nidifica em Espanha, que percorreram cerca de 3.000 km, mas os da Sibéria, pelo contrário, foram até à Nigéria, voando quase 13.000 km por causa do desvio que fizeram para a Península Ibérica.
“É incrível que estes papa-moscas-pretos da Sibéria façam um desvio tão grande”, diz Koosje Lamers, da Universidade de Groningen e primeira autora do artigo publicado na revista ‘Science’.
A investigadora diz que, por exemplo, se tivessem tomado uma rota mais direta, atravessando o Mar Mediterrâneo perto de Itália e depois cruzando o Deserto do Sahara, encurtariam a viagem em quase 4.500 km. Aliás, essa rota é usada por um parente próximo, o papa-moscas-de-colar (Ficedula albicollis), para migrar da Europa Central para África.
“Assim, é plausível que este estranho desvio seja um resquício evolutivo do passado, quando, durante as idades do gelo, os papa-moscas-pretos apenas ocorriam na região ocidental de África e na Europa”, sugere Lamers.
Ano após ano, os papa-moscas-pretos de uma dada área de reprodução migram para África para os mesmos locais. Isto é, os que se reproduzem em Espanha ocupam uma área e os da Sibéria outra, o que se repete todos os anos.
Através de experiências em laboratório, em que ovos de papa-moscas-pretos dos Países Baixos foram levados e criados na Suécia, os investigadores perceberam que os locais específicos onde essas aves passam o inverno são determinados pela combinação de fatores genéticos e ambientais.
Os papa-moscas-pretos dos Países Baixos passam o inverno a cerca de 500 km dos da Suécia. Contudo, os dos Países Baixos que nasceram e foram criados na Suécia escolheram locais de invernada a meio caminho entre os dos naturais dos Países Baixos e da Suécia.
“Este estudo demonstra que o local onde os papa-moscas passam o inverno é, em parte, herdado e, em parte, determinado pelo ambiente em que crescem”, explica Malcolm Burgess, da Universidade de Exeter e coautor do estudo. E acrescenta que o facto de os dados indicarem que o comportamento de migração “não é aprendido com os pais” pode revelar-se “importante para compreender como as aves migradoras podem adaptar-se às alterações climáticas”.
“O calendário da migração está a sofrer alterações significativas devido às alterações climáticas e a capacidade das aves para anteciparem esse calendário está ligada ao local onde passam o inverno em África”, refere.









