Greenwashing cria “falsa estabilidade” financeira nas empresas, conclui estudo australiano

Um estudo conclui que as práticas de greenwashing — em que as empresas exageram o seu desempenho ambiental para parecerem mais sustentáveis aos olhos dos investidores — geram apenas uma sensação temporária de estabilidade financeira, que se dissipa com o tempo

Redação

Um estudo da Murdoch University Business School, na Austrália Ocidental, conclui que as práticas de greenwashing — em que as empresas exageram o seu desempenho ambiental para parecerem mais sustentáveis aos olhos dos investidores — geram apenas uma sensação temporária de estabilidade financeira, que se dissipa com o tempo.

A investigação surge num contexto de forte crescimento do investimento com base em critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governação), em que bancos e investidores avaliam cada vez mais o desempenho ambiental das empresas antes de alocar capital. Os chamados “ratings ESG” tornaram-se, assim, um indicador relevante na avaliação do risco financeiro.

No entanto, segundo Tanvir Bhuiyan, docente de Finanças na Murdoch Business School e um dos autores do estudo, estes indicadores nem sempre refletem o verdadeiro impacto ambiental das empresas. “O greenwashing corresponde à diferença entre aquilo que as empresas afirmam fazer em matéria ambiental e o que realmente fazem”, explica. “Em termos simples, é falar verde sem agir de forma verde.”

De acordo com os investigadores, as empresas recorrem a este tipo de práticas para obter benefícios reputacionais, atrair investimento e aparentar menor risco, sem necessariamente reduzirem as suas emissões de carbono.

O estudo analisou empresas australianas entre 2014 e 2023, avaliando de que forma o greenwashing influencia o risco financeiro e a estabilidade das empresas. Para identificar situações de exagero nas credenciais ambientais, os autores desenvolveram um modelo quantitativo que compara diretamente os ratings ESG com os níveis reais de emissões de carbono.

A estabilidade financeira foi avaliada através da volatilidade das ações em bolsa. A principal conclusão é que o greenwashing pode reduzir a perceção de risco no curto prazo, mas esse efeito não é duradouro.

“No curto prazo, as empresas que exageram o seu desempenho ESG parecem menos arriscadas, porque o mercado interpreta esses sinais como indicadores de segurança”, afirma Bhuiyan. “Contudo, com o tempo, quando se tornam evidentes as discrepâncias entre as alegações ambientais e as emissões reais, o mercado corrige esse excesso de otimismo.”

Ariful Hoque, docente sénior de Finanças na mesma instituição e coautor do estudo, acrescenta que o greenwashing foi uma prática persistente entre empresas australianas entre 2014 e 2022. “Em média, as empresas reportaram classificações ESG superiores àquelas que seriam justificadas pelas suas emissões reais”, refere.

Em 2023, contudo, registou-se uma diminuição significativa deste fenómeno, que os autores associam a um maior escrutínio regulatório e dos investidores. Entre os fatores apontados estão o reforço da fiscalização pela autoridade reguladora australiana (ASIC) e a introdução de requisitos obrigatórios de divulgação de riscos climáticos a partir de 2025.

Para os investigadores, os resultados têm implicações claras para reguladores, investidores e empresas. “Para os reguladores, reforçam a necessidade de normas mais rigorosas de divulgação ESG e de combate ao greenwashing, já que alegações enganosas distorcem a avaliação do risco”, afirma Hoque. “Para os investidores, sublinham a importância de olhar para além dos ratings e verificar se as alegações ambientais correspondem aos dados reais.”

Já para as empresas, a mensagem é clara: o greenwashing pode trazer ganhos de credibilidade a curto prazo, mas só a redução efetiva das emissões e a transparência na comunicação permitem gerir o risco de forma sustentável no longo prazo.

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