Durante a chamada Terminação IV, há cerca de 340 mil anos, a Terra transitou de uma era glaciar para um clima mais quente, provocando um degelo massivo.
Essa mudança foi acompanhada pelo que é considerado um dos episódios mais rápidos de subida do nível do mar registados no passado geológico, com um aumento repentino de cinco metros, mas as causas precisas que desencadearam esse fenómeno continuavam mal compreendidas.
Terá sido causado principalmente por uma radiação solar mais intensa, níveis mais elevados de dióxido de carbono na atmosfera, camadas de gelo instáveis ou alterações no oceano? Agora, um estudo internacional revela que a resposta pode estar escondida no interior do oceano.
O artigo, publicado na revista ‘Nature Communications’, conta com a participação de Teresa Rodrigues, investigadora do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) e do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR).
Um dos principais obstáculos para resolver esse mistério tem sido a impossibilidade de decifrar a cronologia destes fenómenos. Sem isso, os cientistas não conseguiam determinar uma relação de causa e efeito. Para reconstruir esta sequência de acontecimentos, a equipa internacional combinou dois tipos de arquivos naturais do clima.
Por um lado, utilizou registos preservados em espeleotemas (como estalactites e estalagmites) de uma gruta no norte de Itália, datados com elevada precisão. Por outro, analisou registos marinhos do Atlântico Norte, incluindo reconstruções da temperatura da superfície do oceano obtidas a partir de biomarcadores preservados em sedimentos da Margem Ibérica, trabalho em que participou Teresa Rodrigues, como é avançado pelo CCMAR, em nota.
A resposta está no calor acumulado pelas correntes do Oceano Atlântico
Os cientistas descobriram que, durante a Terminação IV, o oceano deixou de redistribuir o calor de forma eficiente, o que fez com que este se acumulasse nas suas camadas mais profundas. A esse mecanismo a equipa chamou de “mecanismo de libertação retardada”.
Segundo os investigadores, esse calor armazenado funcionou como uma espécie de “reserva de calor invisível”. Quando a circulação oceânica recuperou, a energia acumulada foi libertada para as águas superficiais e para a atmosfera, acelerando o degelo das grandes calotes polares e contribuindo para a rápida subida do nível do mar.
O aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera e uma maior insolação no hemisfério norte podem ter reforçado este processo.
Mais do que responder a uma questão sobre o passado da Terra, os investigadores entendem que o estudo demonstra que a circulação do oceano pode desempenhar um papel ativo na rapidez com que o nível do mar sobe.
Em vez de responder passivamente ao aquecimento global, a circulação oceânica pode armazenar, transportar e libertar calor de formas que amplificam a perda de gelo.
Os autores do estudo consideram que as conclusões são especialmente relevantes no atual contexto de alterações climáticas.
Atualmente, tanto a Gronelândia como a Antártida estão a perder massa de gelo, enquanto observações e modelos climáticos sugerem que a circulação do Atlântico poderá voltar a enfraquecer nas próximas décadas. Se esse enfraquecimento favorecer novamente a acumulação de calor no interior do oceano, o degelo poderá ocorrer de forma mais rápida e menos linear do que o esperado, avisam os cientistas.









